A pista está salgada. Isso é o que mais escuto dos meus amigos solteiros. Estamos todos na casa dos vinte anos, e apesar de ouvir e ler bastante sobre os novos hábitos de relacionamento, não parecia tão real quanto agora.
Os jovens da GenZ não estão mais saindo em encontros, nem tendo relações sexuais (mesmo que casuais), não estão namorando e muito menos casando, e muitas vezes por escolha.
Já escrevi algumas matérias globais sobre mudança de comportamento neste aspecto, mas no conforto da minha bolha feliz, com namorado, amigos e família próxima, gostava de pensar que a questão fosse “pular” o povo brasileiro logo, tão conhecido pelo seu calor e sociabilidade.
Porém, segundo o IBGE, o Brasil atingiu um marco histórico no último censo de 2022: foram contabilizadas 81 milhões de pessoas solteiras contra 63 milhões de casadas. Essa “era da solitude” é fortemente impulsionada pela entrada dos jovens na idade adulta.
Sociabilidade romântica diminuiu drasticamente
O estudo “Script do Amor” (2024), realizado pelo Instituto Z com quase oito mil brasileiros entre 17 e 31 anos, mostrou que os marcos tradicionais da vida adulta foram drasticamente adiados: 94% dos jovens de 17 a 21 anos estavam solteiros, um índice que se mantém elevado ao longo de toda a juventude e culmina em apenas 5% de casados e 9% de pais na faixa até os 31 anos.
A pesquisa global Love Life Satisfaction (2024), divulgada pela Ipsos, apontou que a Geração Z brasileira registra apenas 53% de contentamento amoroso e sexual, ficando consideravelmente atrás dos Millennials (61%) e da Geração X (67%).
E por que isso?
As razões para esse desinteresse passam por uma reconfiguração de prioridades. Os jovens de hoje colocam seu bem-estar individual, a estabilidade financeira e a ascensão profissional no topo de suas metas diárias. Embora a busca por autonomia seja um movimento positivo, o cenário torna-se delicado quando a desaceleração afetiva deixa de ser uma escolha leve e passa a ser alimentada pelo medo de falhar, por fragilidades na saúde mental e financeira ou pela volatilidade da era digital.
A psicanalista e sexóloga Camila Gentile explica que essa mudança de comportamento tem forte ligação com a maneira como a dopamina é processada no cérebro jovem. “Acredito que isso esteja ligado ao estilo de vida. A Z Generation consome muito vídeos de diversos assuntos, leem, porém alguns deles ainda não aprenderam a esvaziar a mente”, pontua. Ela detalha que, em muitos casos, não se trata de falha na libido, mas da direção desse neurotransmissor: “Na prática, em muitos casos, não é falta de dopamina. É dopamina direcionada para outro lugar. O cérebro passa o dia inteiro sendo recompensado por pequenas novidades digitais”.
A psicóloga clínica Dra. Cristiane Pertusi reafirma essa visão, mas aponta que o fenômeno vai além do aspecto neuroquímico e esbarra na dificuldade de lidar com o desconforto social. “O cérebro realmente tende a buscar recompensas previsíveis e sob maior controle, e atividades como exercício físico, jogos, redes sociais ou autocuidado oferecem esse tipo de recompensa com menor risco emocional. Já a intimidade envolve incerteza, reciprocidade, possibilidade de rejeição e exposição da própria vulnerabilidade”, analisa.
Ela destaca que existem duas realidades paralelas nesse comportamento: “Existe um grupo que faz uma escolha consciente, priorizando estudos, carreira, saúde mental ou aguardando relações mais seguras e significativas. Essa decisão pode ser bastante saudável.
Mas também há jovens que apresentam dificuldades crescentes de interação presencial, insegurança social e baixa tolerância à frustração. Nesses casos, a redução da vida sexual pode ser consequência da evitação social, e não propriamente uma escolha livre”.
Esse abismo evidencia o desgaste provocado pelas dinâmicas da paquera contemporânea, pela volatilidade dos aplicativos de relacionamento e pelas altas expectativas depositadas na autonomia pessoal.
Hiperconexão digital dificulta relações presenciais
Para complicar ainda mais esse panorama, a hiperconexão digital surge como uma faca de dois gumes. Conforme mapeado pelo estudo global The Truth About Youth (2023), da McCann Truth Central, alarmantes 82% dos jovens brasileiros relatam sentimentos frequentes de solidão, colocando o Brasil na liderança global desse indicador.
O fenômeno expõe o paradoxo de uma geração permanentemente conectada às telas, mas que enfrenta uma drástica diminuição na tolerância à vulnerabilidade presencial, convertendo a abundância de contatos virtuais em laços superficiais e em uma crescente dificuldade de construir vínculos reais e duradouros.
A Dra. Cristiane ressalta ainda como as redes sociais amplificaram a cobrança antes do contato físico: “As redes sociais ampliaram significativamente a comparação social. Muitos jovens sentem que precisam ser atraentes, interessantes, experientes e emocionalmente perfeitos antes mesmo de iniciar um relacionamento. O medo de ser rejeitado, exposto ou criticado faz com que muitos optem por evitar situações íntimas”.
O excesso de opções promovido pelas redes sociais e pelos aplicativos de paquera também impõe barreiras ao aprofundamento emocional. A sexóloga Camila Gentile lembra o conceito proposto pelo psicólogo americano Barry Schwartz para explicar esse cenário.
“Quando existem opções demais, as pessoas tendem a escolher menos, ficar menos satisfeitas e acreditar que sempre existe alguém melhor logo depois”, cita Camila, complementando que “o cérebro deixa de pensar se a pessoa tem fatores de combinação, mas sim como será a próxima pessoa”. Segundo a especialista, a equação contemporânea é clara: “A verdade é que nunca foi tão fácil encontrar pessoas, mas para essa geração posso dizer que nunca foi tão difícil criar a intimidade”.
Homens atuais conflitam com o complexo da Madona e Prostituta

Outro problema que contribui para o isolamento é o conservadorismo e a crescente do movimento red pill. Uma parcela significativa dos jovens tem se voltado a posicionamentos mais conservadores, o que acaba distorcendo a percepção sobre o prazer e a autonomia do corpo. Levantamentos como os do AtlasIntel indicam que cerca de 52% da Geração Z se identifica com posições de direita ou conservadoras.
Essa rigidez ideológica frequentemente faz renascer o clássico “complexo de Madona e Prostituta”, um conceito da psicanálise que descreve a incapacidade masculina de integrar o desejo sexual com o afeto e o respeito por uma mulher.
Na prática, o homem divide as mulheres em duas categorias polares: a figura pura, virtuosa e materna (a Madona), que merece respeito, mas não desperta a paixão física livre; e a mulher desejada sexualmente, que passa a ser vista como impura e descartável (a prostituta). Ao categorizar e limitar o papel feminino, essa dinâmica cria bloqueios emocionais, gera culpa e impede a construção de laços afetivos e sexuais verdadeiramente saudáveis e equilibrados.
Porém, nem no cristianismo o sexo é encarado como pecado, ao contrário do que pregam discursos extremistas ou visões distorcidas sobre o tema. A sexóloga e pastora Vanessa do Amor enfatiza que o ato íntimo possui um papel nobre e edificante no matrimônio.
“Primeira coisa: o sexo nunca foi pecado. Pelo contrário, o sexo é benéfico, foi Deus quem criou, é uma bênção de Deus e é o que torna duas pessoas uma só carne”. Vanessa explica que dentro da fé cristão o sexo não é errado, mas a orientação é que a prática ocorra dentro de um compromisso.
Religião e espiritualidade cresce entre juventude
Paralelamente às transformações comportamentais e digitais, observa-se uma busca crescente da juventude pela fé e por ambientes comunitários em igrejas e outras correntes espirituais. Esse movimento reencontra valores como a preservação do corpo, o voto de castidade e o celibato antes do matrimônio, ressignificando o ato de esperar como uma escolha de proteção emocional e espiritual.
Porém, alguns fiéis levam esses ideais ao extremo, e começam a ver o sexo como algo impuro. A sexóloga cristã e pastora Vanessa do Amor desmistifica a ideia de que a fé enxerga o ato íntimo como algo proibido. “Quando o casal mantém essa mentalidade de que o sexo é bom, saudável e edificante, a união se fortalece. O sexo dentro do casamento é o ápice da festa e tem um brilho único quando construído com parceria”, afirma.
A decisão de não praticar sexo casual acompanhada do desejo de construir relacionamentos com propósito e alinhados a princípios não é errada, mas os jovens de hoje têm se preservado em excesso, evitando conexões pessoais, ainda que platônicas.
Para Vanessa, essa falta de interação irá afetar diretamente na vida íntima, mesmo para aqueles que escolhem esperar. “Quando eu não me relaciono eu vou ter dificuldade de ter relação sexual, porque a relação sexual passa primeiro por uma relação de comunicação. Eu primeiro preciso aprender a me comunicar, comunicar sentimento, comunicar desejo, comunicar presença”.
Mulheres se protegem de homens machistas
O afastamento das interações íntimas também é impulsionado por uma reação direta das próprias mulheres, que têm optado por se distanciar de relacionamentos afetivos e sexuais para se protegerem do machismo e do descompasso de expectativas.
Diversos homens mais jovens alimentam comunidades virtuais com discursos regressivos. Dados globais do Instituto Ipsos mostram que cerca de 40% dos homens da Geração Z acreditam que as mulheres não deveriam ser tão independentes, e quase um terço defende visões tradicionais de submissão feminina.
Cansadas de enfrentar comportamentos tóxicos, sobrecarga emocional, misoginia e a tentativa de controle de seus corpos, muitas jovens simplesmente recusam parceiros que não estejam alinhados à igualdade de gênero. Esse cansaço faz com que a escolha pelo celibato voluntário ou pela solitude surja não por falta de desejo, mas como uma recusa legítima a dinâmicas afetivas desiguais.
Exigências são rígidas e irreais
A busca por padrões estéticos rígidos também surge como um entrave comum tanto na vida secular quanto na religiosa. Sobre essa exigência por um parceiro idealizado, Vanessa do Amor aconselha os jovens a olharem além das aparências ou da inteligência superficial.
“As pessoas escolhem alguém pela beleza e pela inteligência, mas o que faz elas permanecerem em uma relação é a capacidade de lidarem com problemas”, afirma. “Quando você for conhecer alguém, perceba quais foram os problemas que essa pessoa enfrentou e como ela conseguiu lidar com cada um deles. Na vida, a gente só extrai azeite de azeitona quando ela passa pelo esmagamento. E eu preciso entender que atraio quem eu sou, e não quem eu quero”.
O ser humano precisa de conexões

Falar abertamente sobre sexualidade é fundamental para desmistificar tabus e promover a saúde integral. O ato sexual e a busca por prazer são aspectos naturais da vida humana, e não devem ser encarados com vergonha ou culpa.
Para aqueles que optam por vivenciar períodos de abstinência ou celibato, a decisão é igualmente legítima, desde que seja uma escolha consciente, pautada no autoconhecimento, no respeito aos próprios limites e na busca por priorizar objetivos pessoais.
O ponto de atenção e preocupação surge quando o afastamento das relações íntimas deixa de ser um ato deliberado de cuidado para se tornar uma consequência da ansiedade de performance, do medo da rejeição, do isolamento provocado por telas ou de instabilidades financeiras e mentais.
Como bem resume a Dra. Cristiane Pertusi, “mais do que perguntar por que a Geração Z faz menos sexo, talvez devêssemos perguntar como ela está construindo seus vínculos. A questão central não é a frequência da atividade sexual, mas a qualidade das conexões humanas”.
A psicóloga lembra que a regulação do estresse e a saúde mental de longo prazo dependem do desenvolvimento desses laços: “Relações afetivas satisfatórias estão associadas a melhor regulação do estresse, maior sensação de pertencimento e proteção para a saúde mental. A saúde mental depende menos da quantidade de relações e muito mais da capacidade de desenvolver intimidade, confiança, pertencimento e segurança emocional”.






