Queda na libido e disposição? Mito comum sobre a falta de testosterona masculina esconde perigos para a sua saúde

Desejo masculino é uma engrenagem muito mais sensível e complexa do que maioria das pessoas sabem; entenda

Falta de libido masculina é multifatorial/ Foto: Gonzalo/ Pexels

Falta de libido masculina é multifatorial/ Foto: Gonzalo/ Pexels

Um dos maiores mitos sobre a saúde masculina é a ideia de que qualquer oscilação na disposição, no humor ou na vida sexual é sinônimo imediato de falta de testosterona. Essa associação automática transformou o hormônio em uma espécie de poção mágica para a juventude e a performance, alimentando um mercado de exames por conta própria, suplementos e terapias hormonais sem critério. 

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No entanto, a ciência e a prática médica mostram que o desejo masculino é uma engrenagem muito mais sensível e complexa.

Especialistas estimam que o quadro de baixa libido atinge cerca de 20% dos homens ao longo de suas trajetórias de vida.  Trata-se de uma questão frequente e perfeitamente tratável, mas que continua soterrada por tabus.

A masculinidade em silêncio e as marcas do estigma

A maior barreira para a saúde sexual do homem ainda é o preconceito. A exigência social por um desempenho impecável a qualquer hora faz com que a perda do desejo seja interpretada como uma falha pessoal ou perda de virilidade. 

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O homem é construído culturalmente como um personagem de apetite sexual insaciável, onde a perda de desempenho é vista como a pior condenação possível, se sobrepondo a qualquer outra preocupação com a saúde. Dentro desse imaginário, o homem reprime e esconde suas inseguranças.

Mas deixar o assunto para lá acaba custando caro. Além de provocar crises conjugais, ansiedade de desempenho e sintomas depressivos, a vergonha impede que o paciente descubra a real origem do problema. Em muitos casos, a baixa libido é apenas o primeiro sinal de alerta do corpo para condições mais graves, como alterações cardiovasculares ou diabetes em estágio inicial.

O problema do diagnóstico apressado

A busca por soluções milagrosas tem levado muitos homens aos consultórios já exigindo receitas de reposição hormonal. O problema é que a testosterona raramente atua sozinha na regulação do desejo.

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A cientista e especialista em saúde hormonal Izabelle Gindri, farmacêutica com doutorado em Engenharia Biomédica pela Universidade do Texas em Dallas e CEO da Bio Meds Brasil, destaca que essa visão simplificada faz com que muitos pacientes comecem tratamentos com hormônios antes mesmo de passarem por uma investigação clínica séria.

“O diagnóstico da deficiência de testosterona não deve ser baseado apenas em sintomas inespecíficos. O cansaço, a perda de disposição e a redução da libido podem ter inúmeras origens. A confirmação depende da combinação entre avaliação clínica detalhada, histórico do paciente, exame físico e dosagens hormonais realizadas corretamente, preferencialmente em mais de uma ocasião e nos horários recomendados”, reforça a especialista.

Izabelle Gindri pondera também que as taxas hormonais variam significativamente ao longo do dia e sofrem impacto direto de fatores passageiros, como uma noite de sono ruim, estresse agudo, hábitos alimentares ou infecções recentes. Portanto, um único exame de sangue alterado não é suficiente para comprovar uma deficiência crônica.

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A perda do desejo natural

O envelhecimento traz transformações fisiológicas naturais. A partir dos 30 ou 40 anos, a produção de testosterona passa a cair de forma lenta e gradativa, a uma taxa média de 1% ao ano. Por volta dos 50 anos, essa diminuição pode atingir um limiar clínico conhecido como Deficiência Androgênica do Envelhecimento Masculino, popularmente chamada de andropausa.

Para contornar essa queda fisiológica, quando se torna realmente necessário, a recuperação exige acompanhamento médico com endocrinologista ou urologista para avaliar a Terapia de Reposição de Testosterona (TRT), combinado à prática constante de treinos de força (musculação) e ao controle do peso e da saúde metabólica.

Entretanto, a perda da libido deixou de ser um assunto exclusivo da terceira idade. Estatísticas revelam que a redução prolongada do desejo sexual atinge uma parcela dos homens jovens, afetando 2,4% daqueles entre 18 e 25 anos e apenas 1,5% na faixa dos 26 aos 40 anos.

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Cerca de 1% a 14% dos jovens com menos de 40 anos podem experimentar episódios de disfunção erétil (geralmente por causas psicológicas, como ansiedade de desempenho) e nessa faixa etária o problema quase nunca é de origem hormonal, estando fortemente associado ao estresse profissional, à ansiedade de desempenho, ao uso excessivo de telas/pornografia e às rotinas desreguladas de sono.

Nesses casos precoces, a solução passa por ajustar hábitos e a mente: regular o sono para otimizar a produção hormonal, reduzir o consumo de telas e pornografia para recalibrar a dopamina, manejar o estresse e, se necessário, buscar suporte psicológico para tratar a ansiedade de desempenho.

O que realmente apaga o desejo?

Investigar a baixa libido exige olhar para o corpo de forma integrada. As causas mais comuns dividem-se em quatro eixos principais:

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  • Doenças crônicas e metabólicas: Diabetes, hipertensão, colesterol alto e síndromes cardiovasculares reduzem a circulação sanguínea e provocam fadiga constante. A obesidade também merece atenção: o excesso de gordura corporal favorece a conversão de testosterona em estrogênio, além de gerar processos inflamatórios que interferem na produção hormonal.
  • Efeitos colaterais de medicamentos: Antidepressivos, alguns anti-hipertensivos, remédios para ansiedade, opioides e tratamentos para a próstata ou calvície podem reduzir a libido como efeito adverso.
  • Saúde emocional: Depressão, ansiedade, síndrome de burnout e conflitos no relacionamento afetam diretamente os neurotransmissores associados ao prazer e à motivação.
  • Estilo de vida e sono: Sedentarismo, tabagismo, consumo excessivo de álcool e noites mal dormidas comprometem o equilíbrio metabólico. Como o pico de testosterona é sintetizado durante o sono profundo, homens com insônia ou apneia podem apresentar queda hormonal funcional mesmo sem ter uma deficiência permanente.

Riscos da reposição desnecessária e os passos para o tratamento

Usar hormônios sem indicação precisa traz riscos sérios. Izabelle Gindri adverte que a reposição indevida pode causar o aumento da produção de glóbulos vermelhos (elevando o risco de eventos cardiovasculares como tromboses), provocar o agravamento de doenças na próstata, suprimir a produção natural de testosterona e causar infertilidade.

O caminho seguro para recuperar a vitalidade sexual exige uma abordagem médica séria e individualizada:

  • Mapeamento completo: Avaliação detalhada do histórico do paciente, nível de estresse, hábitos de vida e revisão dos medicamentos em uso.
  • Tratamento da causa raiz: Substituição de medicações que afetem a libido (sob orientação médica), suporte psicológico quando necessário, melhora da higiene do sono e prática regular de exercícios.
  • Terapia hormonal consciente: Restrita estritamente aos casos em que o hipogonadismo orgânico for devidamente comprovado em mais de uma coleta laboratorial, mantendo acompanhamento médico permanente.

Tratar a baixa libido não é uma busca por números ideais em exames de laboratório, mas sim um processo de reequilíbrio entre corpo, mente e estilo de vida.