Se você está na casa dos 20 anos e é cronicamente online como eu, provavelmente já soltou um “vou me m*tar na sua frente” para alguém mais velho e recebeu um olhar de preocupação junto de apoio moral em retorno.
Depois de soltar a piada sem contexto nenhum para essa pessoa desconectada do nosso mundo, você tenta meio sem graça explicar que é um jeito de falar (enquanto a pessoa mais velha te diz que não se brinca com isso) e a situação acaba em um pequeno constrangimento.
Já passei por isso muitas vezes, com colegas, parentes e conhecidos, e não entendia como eles poderiam não achar graça nesse humor de exagero que gostamos tanto na internet, até chegar o bendito do six seven e a farmação de aura. Agora entendo eles.
As diferentes gírias entre gerações
Cada geração tem seu linguajar específico, e é natural que uma supere a outra com novidades. Estaremos sempre nesse ciclo: um dia você é o propagador da modinha e no outro está achando a nova tendência bem brega.
Mas de onde vem isso tudo? Segundo Cristiane Imperador, mestre em Estudos Culturais pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP (EACH-USP), o surgimento das gírias está diretamente associado à convivência diária e às chamadas “comunidades de fala”, grupos de pessoas que compartilham vivências e visões de mundo semelhantes.
“As gírias aparecem quando um grupo cria maneiras próprias de se expressar, seja para reforçar seus vínculos, seja para se diferenciar dos demais”, explica a especialista. “No início, a gíria funciona quase como um código que aproxima quem faz parte e estabelece uma fronteira simbólica entre ‘quem está dentro’ e ‘quem está fora’ daquela comunidade.”
Gírias atuais possuem prazo de validade menor
Na era digital, as formas de comunicação identitárias passam por um acelerador sem precedentes. Se antigamente uma expressão demorava anos para se espalhar por bairros ou cidades, hoje a dinâmica é instantânea.
De acordo com Cristiane, a internet transformou radicalmente o tempo de vida e o alcance dessas palavras. “A velocidade de circulação mudou: uma gíria criada em um grupo muito específico, como jogos on-line ou redes sociais, pode alcançar milhões de falantes em pouco tempo, sendo ressignificada por diferentes públicos”, aponta.
Essa rapidez na circulação também dita o ritmo do “prazo de validade” do repertório jovem. Quando uma gíria ultrapassa a bolha inicial e começa a ser usada em programas de TV ou pelos próprios pais, ela tende a perder seu valor identitário.
“Quando os adultos começam a usar uma gíria da moda, aquilo que diferenciava o grupo passa a circular em outros espaços. Por isso, é comum que os jovens abandonem essa expressão e criem outras. Não se trata de uma ‘guerra’ entre gerações, mas de um processo contínuo e natural de renovação que mantém a língua viva”, esclarece Cristiane.
Estrangeirismos e a Geração Alpha
Outro fenômeno marcante na linguagem atual é o uso de termos derivados do inglês, como cringe, slay ou o famoso verbo tankar (adaptado do universo dos games, que significa aguentar).
Segundo a pesquisadora, isso não representa uma ameaça de “extinção” das gírias regionais brasileiras. Trata-se de um processo clássico de empréstimo linguístico em convivência com o repertório local.
“O falante contemporâneo transita por diferentes repertórios. Uma mesma pessoa pode utilizar uma palavra popular da internet e, simultaneamente, continuar usando expressões características de sua cidade ou família. É um cenário de mistura, e não de substituição”, afirma.
Olhando para o futuro, a tendência com a Geração Alpha é que a fronteira entre texto, imagem e áudio fique cada vez mais fluida.
Cristiane destaca que uma gíria futura poderá ser “uma sigla, um emoji, um áudio, um gesto ou uma referência de meme”, expandindo o próprio conceito do que entendemos por vocabulário.
Muitas dessas expressões terão vida curta, porque a internet trabalha com novidades constantes e com uma lógica de circulação extremamente veloz.
Algumas, porém, poderão ultrapassar o ambiente digital e entrar no vocabulário comum, principalmente quando representarem experiências compartilhadas por muitas pessoas.
Essa linguagem está destruindo o português?
Para quem olha de fora e avalia esse ecossistema acelerado como uma “degradação” do português, a linguística traz um alívio: a constante mudança não é sinal de empobrecimento, mas de vitalidade.
“A língua não é fixa nem homogênea. O uso de gírias revela criatividade, inovação e a capacidade de produzir novos sentidos”, reforça Cristiane. “O mais importante é entender a adequação linguística. A escola e a sociedade não devem proibir as gírias, mas ensinar o falante a transitar por diferentes situações, sabendo a hora de usar o vocabulário espontâneo da internet e a hora de aplicar a norma-padrão.”
O objetivo da educação linguística deve ser ampliar possibilidades de comunicação e dar ao estudante autonomia para escolher a variedade mais adequada a cada contexto.
As gírias, portanto, podem ser compreendidas como manifestações legítimas da vitalidade da língua, relacionadas à renovação linguística, à expressão cultural e à construção de identidades.
Em vez de enxergá-las como sinais de empobrecimento, é mais produtivo compreendê-las como parte da diversidade e da constante transformação do português. Cristiane também reforça que não existe um único lugar de onde as gírias surgem.
Elas podem nascer na fala cotidiana, em comunidades periféricas, em grupos profissionais, em músicas, em programas de televisão e, claro, com enorme velocidade, nas redes sociais e nos jogos on-line.






