Embora seja comum associar a longevidade extrema a países como Japão e Mônaco, o Brasil também abriga um número significativo de pessoas que ultrapassam os 100 anos.
Esse fato, porém, ainda é pouco conhecido fora do meio científico. E vem ganhando espaço quando pesquisadores olham para o que existe por aqui.
Um artigo de opinião publicado no Genomic Psychiatry chama atenção para esse cenário.
O texto foi assinado por Mayana Zatz, professora titular de Genética do Instituto de Biociências da USP, em parceria com pesquisadores do Centro de Pesquisa do Genoma Humano e Células-Tronco da USP.
O que dizem os pesquisadores
No estudo, os autores defendem que o Brasil pode ser um dos contextos mais relevantes para investigar a longevidade humana extrema. Ao mesmo tempo, é um dos mais subestimados.
Além do fator biológico, pesa o ambiente em que se envelhece, já que condições de vida, acesso a serviços e qualidade do cotidiano também fazem diferença, como aponta o ranking das melhores cidades para envelhecer.
A repercussão foi ampla na imprensa internacional. Veículos como El País (Espanha e Uruguai), The Times of India, Página/12 (Argentina) e a revista científica Nature (Reino Unido) destacaram os achados.
Segundo essas reportagens, a composição genética singular da população brasileira pode ajudar a explicar casos de pessoas que vivem além dos 110 anos.
O segredo por trás da longevidade do Brasil
A formação populacional brasileira criou um cenário genético incomum. A colonização portuguesa, a chegada forçada de cerca de 4 milhões de africanos escravizados e, mais tarde, as ondas migratórias europeias e japonesas produziram uma diversidade rara no mundo.
Pesquisas genômicas anteriores já haviam identificado milhões de variantes genéticas desconhecidas, ausentes em bancos de dados internacionais, mas presentes no corpo de cada brasileiro.
Para os cientistas, esse “patrimônio biológico” pode esconder mecanismos ligados à proteção e à longevidade, tema que costuma gerar dúvidas sobre o peso dos genes, como no debate do dia do DNA.
Quem são os centenários
A equipe brasileira montou um dos acervos mais raros do mundo, com mais de 160 centenários e 20 supercentenários confirmados. Entre eles estava a Irmã Inah, considerada até 2025 a pessoa mais velha do mundo, aos 116 anos.
Chama atenção que muitos desses idosos mantiveram autonomia e lucidez, mesmo tendo vivido grande parte da vida sem acesso amplo à medicina moderna.
As famílias também contam histórias reveladoras. Em um caso específico, uma mulher de 110 anos tem três sobrinhas com 100, 104 e 106 anos, e a mais velha ainda compete em torneios de natação.
Segundo os pesquisadores, parentes próximos de centenários têm até 17 vezes mais chances de alcançar idades muito avançadas.
Imunidade e alcance global
Os exames indicam que muitos centenários possuem um sistema imunológico com características de pessoas mais jovens. Processos de renovação celular seguem ativos, enquanto certas células de defesa mostram funcionamento mais intenso.
Durante a pandemia de Covid-19, três centenários brasileiros adoeceram antes das vacinas e se recuperaram, desenvolvendo respostas imunológicas potentes.
Hoje, três dos dez homens mais velhos do mundo com idade verificada são brasileiros. Isso chama atenção porque a longevidade extrema é menos comum entre homens.
Os cientistas acreditam que estudar mais esses grupos brasileiros pode ajudar a criar abordagens mais justas e eficazes na medicina, considerando a diversidade genética humana.


