O relógio mais estranho já feito pode revelar um mistério invisível do Universo

Novo avanço da física transforma um núcleo atômico em relógio nuclear e abre caminho para investigar forças ainda desconhecidas

Equipamento de relógio atômico usa lasers e componentes ópticos para medir o tempo com precisão extrema, tecnologia que inspira a nova geração de relógios nucleares. (Foto: Wikimedia Commons/G.E. Marti/JILA/NIST)

O relógio mais intrigante da ciência atual não fica no pulso, na parede nem na tela do celular. Ele funciona dentro do núcleo de um átomo e pode transformar a forma como os cientistas investigam o tempo, o Universo e a matéria escura.

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A novidade chama atenção porque não se limita a marcar segundos com precisão. O chamado relógio nuclear usa o isótopo tório-229, um tipo raro de átomo capaz de responder à luz de laser de maneira especial.

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Com isso, pesquisadores deram um passo importante para criar uma ferramenta capaz de perceber alterações extremamente pequenas na natureza. Essas mudanças podem indicar fenômenos que ainda escapam dos telescópios e dos detectores tradicionais.

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O relógio nuclear

Os relógios atômicos mais precisos do mundo medem o tempo observando mudanças nos elétrons, que ficam ao redor do núcleo dos átomos. Já o novo relógio nuclear mira uma região ainda mais protegida: o próprio núcleo atômico.

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Essa diferença importa porque o núcleo sofre menos influência de ruídos externos, como campos elétricos e magnéticos. Por isso, a tecnologia pode se tornar mais estável do que sistemas usados hoje em medições de altíssima precisão.

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O avanço foi possível porque o tório-229 tem uma característica rara. Seu núcleo consegue mudar de estado de energia com uma quantidade relativamente baixa de luz, algo que pode ser provocado e medido com lasers ultravioleta.

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Por que isso importa

À primeira vista, um relógio ainda mais preciso parece uma curiosidade distante. No entanto, medições de tempo sustentam tecnologias usadas todos os dias, como GPS, telecomunicações, internet, satélites e sistemas financeiros.

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Quando a precisão aumenta, a ciência ganha uma régua mais sensível. Pequenas variações que antes passavam despercebidas podem começar a aparecer, inclusive em experimentos sobre gravidade, partículas e constantes fundamentais da física.

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O próprio desenvolvimento do relógio mostra a dificuldade do feito. “Tendo trabalhado nesta área por mais de 15 anos, é simplesmente lindo ver como uma ideia muito ‘selvagem’, como manipular um núcleo atômico com um laser, se tornou realidade”, afirmou Thorsten Schumm, à Live Science, pesquisador ligado ao projeto.

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Caça à matéria escura

A matéria escura é uma das maiores incógnitas da ciência. Ela não emite luz, não aparece diretamente em telescópios e só é percebida pelos efeitos gravitacionais que exerce sobre galáxias e estruturas do Universo.

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Uma das apostas é que esse material invisível possa causar oscilações muito sutis em propriedades dos átomos. Um relógio nuclear sensível o bastante poderia registrar essas pequenas mudanças como alterações no ritmo da própria medição do tempo.

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Assim, o equipamento não funcionaria como uma “câmera” para fotografar a matéria escura. Ele atuaria mais como um sensor delicado, capaz de procurar sinais escondidos em variações quase imperceptíveis da natureza.

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Próximos passos

Apesar do entusiasmo, o relógio nuclear ainda está em fase inicial. Ele representa uma prova de conceito importante, mas precisa evoluir para competir com os melhores relógios ópticos já usados em laboratórios.

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Mesmo assim, o avanço inaugura uma nova etapa. Ao usar o núcleo dos átomos como referência, a ciência ganha um instrumento que pode testar limites do Modelo Padrão, procurar forças desconhecidas e investigar se o tempo guarda pistas sobre aquilo que ainda não conseguimos ver.