O sonho de todo pai é criar os filhos de modo que se tornem adultos funcionais, mas, nos tempos modernos, têm sido registrados cada vez mais distúrbios comportamentais em crianças e adolescentes. Especialistas apontam que a falta de independência pode ser um dos fatores mais preocupantes.
Artigo publicado no The Journal of Pediatrics busca estudar quais são os principais fatores responsáveis pelo aumento na incidência de jovens disfuncionais, e uma das principais conclusões é que, ao contrário de gerações nascidas em décadas anteriores, como os anos 1970 e 1980, as gerações mais novas possuem menor liberdade para conhecer o mundo, adquirir experiências e desenvolver habilidades.
Pássaros em gaiolas
Sob a ótica contemporânea, deixar os filhos livres para explorar o bairro sozinhos parece absurdo. A configuração urbana se alterou muito ao longo dos anos, e os ambientes não são mais os mesmos. Porém, a eliminação desses espaços sem supervisão parece ter afetado negativamente as crianças.
“Nossa tese é que uma das principais causas do aumento dos transtornos mentais é a diminuição, ao longo de décadas, das oportunidades para crianças e adolescentes brincarem, explorarem e se envolverem em outras atividades independentemente da supervisão e do controle direto de adultos”, afirmam os autores.
“Essas atividades independentes podem promover o bem-estar mental tanto por meio de efeitos imediatos, como uma fonte direta de satisfação, quanto por meio de efeitos a longo prazo, construindo características mentais que fornecem uma base para lidar eficazmente com o estresse da vida.”
Negligência benigna
Uma das frentes de análise dos pesquisadores se centra no LOC interno das crianças, o lócus de controle, que indica a crença no controle que a pessoa tem sobre a própria vida e suas habilidades de resolução de problemas.
Segundo a tese dos autores, esse tempo para brincadeiras fora do estrito controle dos adultos ajuda a desenvolver um alto lócus interno, que atua como uma ferramenta de estabilidade mental.
Ao serem expostos ao mundo, os jovens em formação tem a possibilidade de testar seus próprios limites e ter maior autoconsciência (Foto: Divulgação / IMDb)Reclusão digital
Na falta desses ambientes externos, os jovens em formação tendem a passar mais tempo em casa e, potencialmente, em maior contato com telas e redes sociais, que possuem efeitos negativos na saúde mental.
Uma meta-análise da JAMA Psychiatry revisou estudos que analisaram mais de 160 mil crianças de até doze anos e chegou à conclusão de que a hiperexposição digital está diretamente relacionada ao aumento de problemas internalizantes (como ansiedade/depressão) e externalizantes (como desatenção/agressividade).
Concomitantemente, a Justiça Federal dos EUA condenou nesta quarta-feira (25) as empresas de tecnologia Google e Meta por negligência. Segundo os juristas, as plataformas dessas empresas trazem malefícios aos usuários menores de idade ao implementar ferramentas que induzem ao vício, como o doomscrolling e algoritmos customizados.




