Os antibióticos revolucionaram a medicina moderna e salvaram milhões de vidas ao longo das últimas décadas. No entanto, eles já não conseguem resolver todos os casos de infecção.
Por isso, uma alternativa antiga voltou a chamar atenção: o uso de vírus para combater bactérias. A estratégia utiliza bacteriófagos, vírus capazes de identificar bactérias específicas, invadir essas células e destruí-las.
Embora pareça uma tecnologia recente, a chamada terapia fágica existe há mais de cem anos. Ela volta ao debate científico agora por causa do aumento das chamadas superbactérias, microrganismos que resistem a diversos antibióticos.
Como funciona essa terapia
Diferentemente de muitos medicamentos tradicionais, os bacteriófagos atuam de forma bastante direcionada. Eles reconhecem apenas determinadas bactérias e não infectam células humanas.
Isso faz com que a terapia seja vista como uma ferramenta de maior precisão no combate a infecções.
Entre as possíveis vantagens, especialistas destacam:
- Atuação direcionada contra bactérias específicas
- Possibilidade de uso combinado com antibióticos
- Menor impacto sobre o microbioma, conjunto de bactérias benéficas do organismo
- Potencial para tratar infecções resistentes a medicamentos
Resultados que chamaram atenção
Um estudo publicado em 2025 na revista científica Nature Medicine investigou o uso da terapia em pacientes com fibrose cística que sofriam com infecção pulmonar causada pela bactéria Pseudomonas aeruginosa, conhecida pela resistência a diversos antibióticos.
A pesquisa acompanhou nove adultos que receberam bacteriófagos por inalação, em um tratamento personalizado. Após a terapia, os pesquisadores observaram:
- Redução da quantidade de bactérias no escarro
- Melhora na função pulmonar
- Ausência de efeitos colaterais relevantes
Embora o estudo seja pequeno, os resultados ajudaram a ampliar o interesse na abordagem.
Por que essa técnica demorou a avançar
Apesar de existir há décadas, a terapia fágica ficou fora do centro da medicina ocidental por vários motivos. Um deles é que os antibióticos são mais simples de produzir em grande escala e podem ser aplicados em muitos pacientes da mesma forma.
Já os fagos costumam exigir um processo mais individualizado, que inclui:
- Identificar a bactéria responsável pela infecção
- Testar quais vírus conseguem destruí-la
- Criar um “coquetel” específico para cada caso
- Acompanhar a resposta do paciente
Esse modelo personalizado não se encaixa facilmente nos padrões tradicionais da indústria farmacêutica.
O que dizem as pesquisas mais recentes
Durante muito tempo, a maior parte das evidências sobre a terapia fágica vinha de relatos isolados de pacientes. Agora, o número de estudos científicos começa a crescer.
Uma revisão publicada em 2025 analisou 130 pesquisas envolvendo 1.115 pacientes com infecções difíceis de tratar. Os resultados indicaram:
- Cerca de 71% de melhora clínica
- Aproximadamente 51% de erradicação das bactérias
Mesmo assim, os próprios cientistas alertam que ainda existem muitas diferenças entre os estudos, o que exige mais pesquisas para confirmar os resultados.
Um caminho promissor, mas ainda em desenvolvimento
A terapia com bacteriófagos não substitui os antibióticos e ainda está longe de ser uma solução universal. Atualmente, ela costuma ser usada como alternativa em casos mais complexos ou quando os tratamentos tradicionais não funcionam. E em meio à crise das superbactérias, ela pode se tornar uma peça importante no futuro do combate às infecções.


