Gaeco prende delegados e doleiros da Lava Jato em operação na Polícia Civil

Investigações apontam que a organização criminosa contava com a colaboração de agentes públicos para encerrar inquéritos e ocultar recursos ilícitos

Entre os detidos estão três policiais civis, incluindo um delegado, e uma doleira

Entre os detidos estão três policiais civis, incluindo um delegado, e uma doleira | Divulgação/Agência SP

Nove pessoas suspeitas de integrarem um esquema de corrupção sistêmica e lavagem de dinheiro foram presas nesta quinta-feira (5/3), durante uma operação conjunta entre o Ministério Público de São Paulo e a Corregedoria Geral da Polícia Civil.

Entre os detidos estão três policiais civis, incluindo um delegado, e uma doleira. O grupo, segundo investigações, estaria instalado em departamentos estratégicos da Polícia Civil.

A ação ainda está em andamento e é conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público. A operação envolve a participação de policiais, advogados e operadores financeiros.

Segundo decisão do juiz Paulo Fernando Deroma de Mello, os suspeitos teriam transformado delegacias especializadas em um centro de negociações para garantir a impunidade de criminosos.

A investigação ainda aponta que o grupo utilizava métodos sofisticados para ocultar a origem de recursos ilícitos. Entre os principais estão: empresas de fachada e simulação de operações de importação.

Desta forma, a organização criminosa tinha como pontos centrais a conversão de dinheiro em espécie em créditos de vale-refeição, elaborada por meio de estabelecimentos comerciais fictícios.

A operação autorizou prisões preventivas, mandados de busca e apreensão e o bloqueio de bens e valores dos investigados.

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública informou que a Corregedoria da Polícia Civil atua na operação e que “a Polícia Civil não compactua com desvios de conduta por parte de seus integrantes e adotará todas as medidas legais e disciplinares cabíveis caso sejam confirmadas quaisquer irregularidades”.

Investigados

Os doleiros Leonardo Meirelles e Meire Poza, alvos da Operação Lava Jato, são apontados como operadores do grupo. A rede contava com a colaboração de agentes públicos para evitar fiscalização e encerrar inquéritos depois do pagamento de propina, conforme apurado pelo Ministério Público.

Meire foi detida durante a ação desta quinta-feira. Também há um mandado de prisão contra Meirelles, condenado em outro processo. Ele ainda não foi localizado pelos agentes.

Como funcionava o esquema

Policiais solicitavam relatórios de inteligência financeira (RIFs) sobre potenciais alvos de cobrança de propina.

A partir dos documentos, os criminosos enviavam intimações e cobravam dinheiro para não dar andamento às investigações.

O processo aponta que doleiros que tomavam conhecimento de investigações ofereciam propina para que os trabalhos fossem interrompidos. A investigação identificou destruição de provas e trocas de HDs apreendidos por dispositivos vazios.

Em um dos casos relatados, investigados teriam tido acesso às dependências do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC) para substituir um disco rígido (HD) apreendido por dispositivos sem provas incriminatórias.

As investigações que resultaram na operação foram um desdobramento da Operação Recidere, deflagrada em 2023 contra um esquema bilionário de dinheiro ilícito ao exterior. Na época, as autoridades identificaram que os operadores do esquema movimentaram, em dois anos, R$ 4 bilhões por meio de dezenas de contas de fachada.

O principal alvo da Operação Recidere foi justamente o doleiro Leonardo Meirelles.