Asfalto que vira voto: obras em ano eleitoral aumentam chances de reeleição no Brasil

Estudo revela que quase 70% dos prefeitos que ampliaram investimentos conseguiram manter o poder; houve queda de gastos na sequência

A correlação entre a obra entregue e o sucesso eleitoral é nítida

A correlação entre a obra entregue e o sucesso eleitoral é nítida | Guilherme Crippa/Divulgação

Um estudo desenvolvido pelo pesquisador Maurício Juvenal, no Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), revela que o aumento de gastos em obras públicas no ano da eleição é uma estratégia eficaz para a manutenção de prefeitos no poder.

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Ao analisar 78 ciclos eleitorais municipais nas 26 capitais brasileiras em 2016, 2020 e 2024, a pesquisa identificou que quase 70% dos casos houve um salto nos investimentos em infraestrutura justamente no ano em que os eleitores foram às urnas.

A correlação entre a obra entregue e o sucesso eleitoral é nítida. Na prática, a cada 10 gestores que “abriram o cofre” para obras, sete garantiram a continuidade política própria ou de um aliado.

“A infraestrutura funciona como um sinal imediato de ação governamental. É o que o eleitor vê e toca”, explica Juvenal no estudo, que utilizou dados oficiais do Siconfi (Sistema de Informações Contábeis e Fiscais do Setor Público Brasileiro) e do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

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O fenômeno da ‘ressaca’ orçamentária

O estudo também comprovou que o esforço financeiro parece ter data de validade. Assim que os portões das seções eleitorais se fecham, o ritmo das máquinas diminui drasticamente.

Em 82,7% dos ciclos analisados, houve uma queda significativa nos investimentos em infraestrutura já no primeiro ano após a eleição. 

Fachada do prédio do TSE (Tribunal Superior Eleitoral)Estudo utilizou dados do TSE/Luiz Roberto/Secom/TSE

Segundo o pesquisador, esse movimento sugere que o planejamento público é frequentemente preterido em favor do calendário eleitoral, priorizando obras de execução rápida e alta visibilidade em detrimento de projetos estruturantes de longo prazo.

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Enquanto os gestores de países como Estados Unidos e Alemanha costumam usar cortes de impostos ou transferências diretas para atrair o eleitor, mostra o estudo, no Brasil e em outros países em desenvolvimento a preferência é pela obra física.

Essa diferença, segundo o autor, está ligada à maturidade das instituições e ao nível de fiscalização.

Contrastes regionais

O impacto do investimento não é uniforme em todo o País. Segundo Juvenl, o Nordeste é onde as obras têm o maior peso no resultado eleitoral.

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Já o Sudeste é a região de maior volatilidade, no qual escândalos políticos e crises econômicas tendem a “anular” o efeito positivo das obras com mais facilidade.

No Norte e no Sul, por sua vez, há maior alternância de poder e padrões de investimento variados.