Um estudo desenvolvido pelo pesquisador Maurício Juvenal, no Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), revela que o aumento de gastos em obras públicas no ano da eleição é uma estratégia eficaz para a manutenção de prefeitos no poder.
Ao analisar 78 ciclos eleitorais municipais nas 26 capitais brasileiras em 2016, 2020 e 2024, a pesquisa identificou que quase 70% dos casos houve um salto nos investimentos em infraestrutura justamente no ano em que os eleitores foram às urnas.
A correlação entre a obra entregue e o sucesso eleitoral é nítida. Na prática, a cada 10 gestores que “abriram o cofre” para obras, sete garantiram a continuidade política própria ou de um aliado.
“A infraestrutura funciona como um sinal imediato de ação governamental. É o que o eleitor vê e toca”, explica Juvenal no estudo, que utilizou dados oficiais do Siconfi (Sistema de Informações Contábeis e Fiscais do Setor Público Brasileiro) e do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
O fenômeno da ‘ressaca’ orçamentária
O estudo também comprovou que o esforço financeiro parece ter data de validade. Assim que os portões das seções eleitorais se fecham, o ritmo das máquinas diminui drasticamente.
Em 82,7% dos ciclos analisados, houve uma queda significativa nos investimentos em infraestrutura já no primeiro ano após a eleição.
Estudo utilizou dados do TSE/Luiz Roberto/Secom/TSESegundo o pesquisador, esse movimento sugere que o planejamento público é frequentemente preterido em favor do calendário eleitoral, priorizando obras de execução rápida e alta visibilidade em detrimento de projetos estruturantes de longo prazo.
Enquanto os gestores de países como Estados Unidos e Alemanha costumam usar cortes de impostos ou transferências diretas para atrair o eleitor, mostra o estudo, no Brasil e em outros países em desenvolvimento a preferência é pela obra física.
Essa diferença, segundo o autor, está ligada à maturidade das instituições e ao nível de fiscalização.
Contrastes regionais
O impacto do investimento não é uniforme em todo o País. Segundo Juvenl, o Nordeste é onde as obras têm o maior peso no resultado eleitoral.
Já o Sudeste é a região de maior volatilidade, no qual escândalos políticos e crises econômicas tendem a “anular” o efeito positivo das obras com mais facilidade.
No Norte e no Sul, por sua vez, há maior alternância de poder e padrões de investimento variados.
