Lula e Flávio Bolsonaro no debate da Band: checagem aponta erros sobre economia, INSS e Banco Master; veja os principais dados apurados

Primeiro confronto entre os candidatos no segundo turno foi marcado por acusações sobre corrupção, INSS, economia e segurança pública; checagens identificaram distorções e afirmações que precisam de contexto

Flávio tem se posicionado atrás do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quando o adversário fala diretamente para as câmeras. Foto: Reprodução/Band

Flávio tem se posicionado atrás do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quando o adversário fala diretamente para as câmeras. Foto: Reprodução/Band

O primeiro debate entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais de 2026, realizado pela Band no domingo (18), foi marcado por ataques pessoais, acusações de corrupção e questionamentos sobre investigações envolvendo familiares e aliados dos candidatos.

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O formato do debate, sobretudo no primeiro bloco, foi criticado por diversos internautas e portais especializados pela frequência de interrupções e pela predominância de ataques sobre propostas.

Em meio ao confronto, os dois também apresentaram números sobre economia, segurança pública e políticas sociais, posteriormente analisados por diversos portais de fact checking.

O que os dados mostram?

Um dos principais embates ocorreu quando Lula cobrou explicações de Flávio Bolsonaro sobre uma negociação de aproximadamente R$ 134 milhões com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, associada ao financiamento de um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.

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Flávio afirmou que os recursos seriam destinados à produção do longa-metragem e acusou Lula de envolvimento em supostos pagamentos irregulares ao Instituto Lula. O presidente, por sua vez, insistiu para que o senador explicasse a operação financeira.

Flávio também mencionou um áudio atribuído a Vorcaro no qual o ex-banqueiro supostamente falaria de R$ 30 milhões pagos ao Instituto Lula. Segundo a checagem do Aos Fatos, não havia comprovação documental pública que sustentasse a acusação de pagamento ilegal ao instituto. A autenticidade do áudio, que pode, inclusive, ter sido gravado posteriormente, não comprova que o conteúdo relatado seja verdadeiro.

Outro ponto foi a afirmação de Lula de que Vorcaro teria se tornado banqueiro durante o governo Bolsonaro e sido preso durante sua gestão. O ex-banqueiro assumiu o controle do banco que viria a se chamar Master em 2019, durante o governo Bolsonaro, e foi preso pela primeira vez em novembro de 2025, durante o governo Lula. No entanto, as decisões que permitiram a aquisição do banco e determinaram as prisões foram tomadas pelas autoridades competentes, e não diretamente pelos presidentes.

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Lula também mencionou prejuízos estimados em R$ 60 bilhões associados à quebra do Banco Master. O valor se refere a estimativas dos prejuízos relacionados ao caso, e não a uma fraude integralmente comprovada.

Caso do INSS: o que está comprovado?

As fraudes envolvendo descontos indevidos em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) também estiveram entre os principais assuntos do debate.

Flávio atribuiu o esquema ao governo Lula e afirmou que integrantes da gestão petista teriam responsabilidade pelas irregularidades. Lula, por sua vez, disse que a investigação identificou uma quadrilha e que o governo já havia recuperado R$ 6 bilhões.

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Há, porém, diferenças importantes entre os fatos e as declarações dos candidatos.

As investigações da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União identificaram um esquema de descontos indevidos que atingiu aposentados e pensionistas. As irregularidades ocorreram durante os governos Jair Bolsonaro e Lula, e os dados disponíveis não permitem determinar com precisão quando o esquema começou. O Ministério da Previdência recebeu alertas em 2023 e demorou a adotar medidas para combater as irregularidades.

Também é necessário diferenciar dinheiro bloqueado de dinheiro efetivamente recuperado. A Advocacia-Geral da União conseguiu bloquear aproximadamente R$ 6,1 bilhões em bens e recursos relacionados aos investigados. Esse montante, entretanto, não significa que todo o dinheiro tenha sido recuperado dos responsáveis. Os ressarcimentos aos beneficiários foram realizados com recursos públicos, enquanto a recuperação dos valores desviados depende dos procedimentos judiciais.

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Lula acertou ao afirmar que o governo já havia devolvido mais de R$ 3,5 bilhões aos aposentados e pensionistas que solicitaram a restituição e cumpriram os requisitos. Segundo informações divulgadas pelo Ministério da Previdência, o valor pago havia chegado a aproximadamente R$ 3,52 bilhões.

E o filho de Lula?

Flávio também questionou a atuação da Polícia Federal nas investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha. De acordo com as informações reunidas pelo Aos Fatos, o filho do presidente era investigado em três inquéritos abertos em 2026, com autorização do Supremo Tribunal Federal, por suspeitas de tráfico de influência e favorecimento de empresas em negociações com órgãos federais. A Polícia Federal obteve autorização judicial para acessar dados bancários, fiscais e telemáticos.

A existência de uma investigação, entretanto, não comprova culpa. Até o momento retratado nas checagens utilizadas nesta matéria, as suspeitas precisavam ser apuradas pelas autoridades. O presidente reforçou que seu filho está sob investigação e que deve enfrentar consequências caso acusações se provem reais.

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PIB só cresceu no governo Lula?

Na discussão econômica, Lula afirmou que o Brasil só voltou a registrar crescimento superior a 3% depois que ele retornou à Presidência. A declaração, porém, é incorreta.

Segundo a série histórica do Banco Central reunida pelo Aos Fatos, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu 3,97% em 2011, durante o governo Dilma Rousseff, e 4,6% em 2021 e 3,02% em 2022, durante o governo Jair Bolsonaro. Já em 2023 e 2024, sob Lula, o crescimento foi de 3,24% e 3,4%, respectivamente.

Lula também destacou o crescimento de 7,5% registrado em 2010. Nesse ponto, o número está correto: o PIB avançou aproximadamente 7,5% naquele ano do governo de Lula. O dado, porém, corresponde a um ano específico, e não à média de todo o período em que Lula governou o país entre 2003 e 2010, quando o crescimento médio anual ficou em torno de 4,1%.

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O presidente também afirmou que seu governo havia ampliado as reservas internacionais brasileiras para cerca de US$ 270 bilhões. O número é compatível com a evolução das reservas durante seus dois primeiros mandatos: elas passaram de US$ 37,8 bilhões em 2002 para US$ 288,6 bilhões em 2010, segundo dados do Banco Central.

Outro dado apresentado por Lula foi o número de microempreendedores individuais (MEIs) no país. Ele citou 17,5 milhões. A Receita Federal registrava 17.690.947 MEIs em outubro de 2026, o que torna a afirmação compatível com os números oficiais.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, afirmou que a dívida pública brasileira havia chegado a R$ 11 trilhões. O valor está próximo do registrado pelo Banco Central: a dívida bruta do governo geral alcançou R$ 11,1 trilhões em agosto de 2026, equivalente a 82,9% do PIB. Para contextualizar o dado, em dezembro de 2022, último mês do governo Bolsonaro, o indicador estava em aproximadamente R$ 7,2 trilhões, ou 73,5% do PIB.

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O senador também disse que as taxas de juros futuros haviam caído 2% após sua colocação à frente de Lula no primeiro turno. A afirmação simplifica o comportamento do mercado: as taxas variam conforme o vencimento dos contratos, e uma queda em pontos percentuais não equivale necessariamente a uma redução percentual de 2%. A eleição influenciou as expectativas, mas não foi o único fator a afetar as taxas.

Segurança pública: criminalidade não pode ser resumida a um único indicador

A segurança pública foi outro tema central. Flávio prometeu classificar facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e milícias como organizações narcoterroristas, endurecer as punições e construir mais de 500 mil vagas no sistema penitenciário.

O senador também afirmou que a criminalidade havia explodido no Brasil durante o governo Lula. A declaração, porém, generaliza diferentes indicadores. Segundo a checagem do Aos Fatos, as mortes violentas intencionais caíram desde 2021 e chegaram a uma taxa de 19,1 por 100 mil habitantes em 2025. Isso não significa que todos os crimes tenham diminuído: é necessário avaliar separadamente homicídios, roubos, tráfico e outras ocorrências.

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Flávio ainda afirmou que Lula recebeu 73% dos votos dos presidiários. O número se aproxima de um levantamento sobre seções eleitorais instaladas em presídios e unidades socioeducativas, nas quais Lula recebeu 72,6% dos votos válidos no primeiro turno. A apresentação, entretanto, omite uma informação essencial: presos condenados definitivamente não podem votar, e essas seções também recebem votos de funcionários prisionais e adolescentes internados. Portanto, o resultado não representa o conjunto da população carcerária brasileira.

Lula, por sua vez, defendeu maior integração entre União, estados e municípios no combate ao crime organizado e afirmou que o governo federal precisava ampliar sua capacidade de atuação na área. O presidente também mencionou a legislação antifacção aprovada durante seu mandato, que endureceu punições para integrantes de organizações criminosas.

Saúde e direitos das mulheres também entraram na discussão

Na área da saúde, Lula questionou Flávio sobre a condução da pandemia de Covid-19 durante o governo Jair Bolsonaro. O senador reconheceu que a gestão anterior não teve os melhores resultados no setor e afirmou que fazia um mea-culpa.

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Lula também questionou o voto de Flávio Bolsonaro, quando deputado estadual no Rio de Janeiro, contra uma proposta de ampliação da licença-maternidade para funcionárias públicas. A checagem do Aos Fatos confirma que, em maio de 2009, Flávio foi o único voto contrário à proposta na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Na ocasião, ele argumentou que a medida poderia aumentar a discriminação contra mulheres no mercado de trabalho.

Denúncias e ataques foram foco do debate

Especialistas não chegaram a um consenso sobre o vencedor deste debate. O primeiro bloco, com tempo livre para os candidatos se enfrentarem, foi marcado por interrupções, provocações e acusações pessoais. Nos blocos seguintes, o debate ficou mais organizado, mas continuou concentrado em denúncias e ataques.

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Na reta final antes do segundo turno, o confronto serviu para reforçar as estratégias já adotadas pelas campanhas. Para o eleitor, a principal tarefa é separar propostas, dados comprovados e investigações em andamento, sem tratar acusações como condenações nem números verdadeiros como prova automática de que a interpretação apresentada por um candidato está correta.

É possível conferir as propostas de governo dos candidatos diretamente no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A checagem publicada pelo Aos Fatos pode ser conferida na íntegra pelo site da organização junto da transcrição completa do debate.