Natália Boulos avisa que a direita ‘vai ter que engolir’ seu mandato e faz duras críticas a Ricardo Nunes e Tarcísio de Freitas

Natália Boulos, eleita deputada federal, diz que a direita “vai ter que engolir” seu mandato e critica as gestões de Nunes e Tarcísio

Eleita deputada federal por São Paulo, Natália Boulos (PSOL) promete chegar ao Congresso Nacional em 2027 disposta a enfrentar a extrema-direita e defender pautas como moradia, combate ao feminicídio, saúde e direitos das mulheres. Foto: Yasmin Martildes/Gazeta de S.Paulo

Eleita deputada federal por São Paulo, Natália Boulos (PSOL) promete chegar ao Congresso Nacional em 2027 disposta a enfrentar a extrema-direita e defender pautas como moradia, combate ao feminicídio, saúde e direitos das mulheres.

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Natália Boulos participou do programa ‘De Olho no Poder’, exibido pela TV GMG, e afirmou que os parlamentares de direita “vão ter que me engolir”. A futura deputada também disse que pretende representar em Brasília as mulheres e a população da periferia.

Durante o bate-papo, Natália Boulos também avaliou as gestões do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), e do governador reeleito do Estado, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Crítica aos dois governos, a deputada federal eleita apontou problemas que, segundo ela, vão desde a falta de serviços públicos básicos na Capital até decisões estaduais nas áreas de saneamento, mobilidade e segurança pública.

Natália Boulos foi eleita deputada federal por São Paulo com 114.552 votos, o equivalente a 0,48% dos votos válidos no Estado. Os deputados federais eleitos em 2026 tomam posse em 1º de fevereiro de 2027, para mandatos de quatro anos. Confira trecho da entrevista.

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Nas suas caminhadas durante a campanha, o que você sentiu? Quais eram as principais demandas da população?

Uma das coisas que ficou muito nítida para mim nessa eleição é que nós precisamos investir muito no processo de educação no nosso País.

Há muita confusão por parte do povo brasileiro, do eleitor, de todas as classes sociais, sobre qual é a função de cada agente público. Nas minhas caminhadas, especialmente nas periferias da capital de São Paulo, na região metropolitana e nos bairros mais pobres do interior que visitei, ficou muito nítida uma ausência de gestão pública das prefeituras.

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A eleição anterior mostrou uma crescente da extrema-direita assumindo prefeituras nos municípios. E o significado disso é que as cidades estão largadas. Existe uma demanda muito forte, no nosso Estado de São Paulo, de cuidado, de um olhar cuidadoso de quem está no poder, para as demandas mais urgentes e emergentes das pessoas.

Isso não significa que não tenhamos coisas que podemos fazer como deputado federal, ou eu como deputada federal eleita. Podemos contribuir para melhorar a educação, lutar por mais investimentos na educação e na saúde e contribuir para que existam mais leis que protejam as mulheres.

O tema da violência, sem dúvida nenhuma, é o que mais preocupa hoje, não só as mulheres, mas as famílias nas periferias e nas cidades como um todo. Há um aumento imenso do feminicídio no Estado de São Paulo.

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Nosso papel em Brasília vai ser, além de aprovar leis, ajudar para que elas sejam executadas. Cobrar que sejam executadas nos estados e municípios, que cheguem à ponta, e abrir caminhos para que essa população que não está sendo escutada tenha voz.

As pessoas sabem o que estão sentindo e o que precisam, mas não há muita escuta. A expectativa é que a gente consiga ampliar as vozes dessas pessoas que estão se sentindo descuidadas no Parlamento, no Congresso Nacional, levando a urgência, a emergência e a indignação da população para que o que é importante seja pautado.

São Paulo enfrenta problemas graves de saúde e segurança, principalmente nas periferias, que muitas vezes são esquecidas. Qual é a sua avaliação da gestão de Ricardo Nunes na capital e também de Tarcísio de Freitas como governador?

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Ricardo Nunes é uma tragédia, aliás, uma tragédia anunciada. A gente falou durante toda a eleição de 2024 o que significaria a vitória do Ricardo Nunes. Foi uma escolha da população de São Paulo. A gente respeita o resultado das urnas, mas, infelizmente, a população agora está colhendo aquilo que a gente disse que ele estava plantando, que é o descaso.

Inclusive, há indícios de participação da Prefeitura de São Paulo, dos agentes de São Paulo, de facilitação em esquemas como o do Banco Master, por exemplo.

O que a gente percebe é que os problemas não só não foram resolvidos, como se ampliaram, desde as ruas, o buraco na rua, o farol e a iluminação pública, até a precarização da educação, das escolas.

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Vou dar um exemplo que quem é de São Paulo vai identificar. As escolas municipais hoje têm um problema seríssimo, que é o de receber as crianças PCDs. É um problema seríssimo de inclusão.

O que o prefeito Ricardo Nunes e o governador Tarcísio estão fazendo é criminoso, porque estão tirando o direito dessas crianças de irem para a escola. As mães atípicas estão acumulando uma função, porque essas crianças não vão para a escola e não há nenhum outro lugar que receba essas crianças.

Então, elas perdem o emprego, perdem a possibilidade de se profissionalizar, de terminar uma faculdade ou um estudo para ficar cuidando dessas crianças.

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Isso é resultado de uma prefeitura e de um governo do Estado que não investiram e não priorizaram, por exemplo, a educação inclusiva, que hoje é um direito das crianças PCDs e das famílias atípicas.

O Tarcísio conseguiu piorar a situação, por exemplo, da água. Privatizou a Sabesp. Ele, como governador, e aqui em São Paulo o prefeito Ricardo Nunes obviamente faz parte disso, dessa privatização, aceitou a privatização no município. A água está mais cara, a taxa está absurda e a qualidade da água está pior.

Esse é o legado do Tarcísio, além dos pedágios e de uma polícia altamente despreparada. A violência policial é muito alta aqui no Estado de São Paulo.

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Uma das suas bandeiras é o combate ao feminicídio. Temos visto discursos de eleitos, inclusive da direita, dizendo que o feminicídio não existe e que, quando um homem mata uma mulher, seria um homicídio. Qual é a sua visão sobre isso?

Acho que o feminicídio é uma conquista muito recente no nosso país. O feminicídio se tornou feminicídio há pouco tempo no Brasil.

Antes, ele era tratado como um homicídio com uma qualificadora. A conquista do feminicídio não só nomeia o que é essa violência específica contra a mulher, como também aumentou a pena de quem comete o feminicídio.

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O feminicídio não é uma escolha. Um parlamentar que tem como prioridade disputar se o feminicídio existe ou não existe, na minha opinião, não é sério. O feminicídio é um dado científico. Quem nega isso reflete um momento difícil que estamos vivendo no nosso país, de negação da realidade.

O feminicídio não é uma luta política. É uma tipificação penal. Foram os legisladores que definiram isso a partir de uma realidade no Brasil.

E não é qualquer realidade. A Maria da Penha foi uma mulher que tomou um tiro, ficou na cadeira de rodas. Essa mulher foi lutar fora do Brasil, foi pedir proteção fora do Brasil. E aí se reconheceu que existia uma violência específica contra a mulher que tinha relação com o fato de ela ser mulher.

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Há uma ideia forte no nosso sistema e na nossa sociedade de que a mulher é propriedade de alguém. Bater numa mulher é reflexo de uma relação de poder. E isso não acontece entre os homens. Por isso essa tipificação é importante.

Acho que o que as urnas mostraram é que nós vamos ter muita luta pela frente para que a gente não perca direitos e para que possamos viver em um país em que as mulheres tenham a liberdade de ser o que quiserem, tenham a profissão que quiserem, tenham autonomia para tomar as decisões da vida delas.

É isso que está em jogo: que não sejam mortas simplesmente pelo fato de não aceitarem ser submissas, no sentido literal da palavra. Submissas no sentido de estar sempre recebendo ordens e não poder falar, se expressar ou escolher os próprios caminhos.

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Você também já defendeu publicamente o direito ao aborto. Em que ponto o Estado deve entrar nessa questão, especialmente em um país religioso?

A primeira coisa que quero dizer é que acho que esse é um tema em que as mulheres precisam ter protagonismo. Isso não é excluir nada, não é achar que as mulheres são melhores que os homens. É porque a gente sabe o que é carregar um filho no ventre.

A gente sabe o que é fazer um pré-natal sem um marido ou acompanhante. A gente sabe o que é ter um filho sem o registro do pai. Acredito que esse é um tema em que as mulheres precisam ter protagonismo e precisam ser escutadas.

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A segunda coisa é que defendo o aborto legal, algo que hoje no Brasil muitos parlamentares eleitos são contra. Tem muita gente que vai estar fazendo lei e que acha que uma mulher que sofreu um abuso, que sofreu um estupro, ou uma criança de 11 ou 12 anos deve ser obrigada a carregar essa gravidez.

Eu acredito que isso é um crime: obrigar uma mulher a carregar uma gravidez, em especial uma gravidez fruto de uma violência.

Acho que o Estado tem que intervir quando o que está em risco é a saúde da mulher, quando o que está em risco é a vida da mulher. E o Estado deve, neste caso do aborto, na minha opinião, permitir que a mulher faça a escolha.

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Acho engraçado que uma parcela dos meus opositores da extrema-direita adora falar de liberdade, de Estado mínimo, de que o Estado não tem que se meter na vida das pessoas. E, quando é a vida da mulher, eles querem que o Estado se meta, que diga como a mulher tem que fazer e o que deve fazer.

Minha posição é extremamente coerente com o que penso. Acho que as mulheres têm que ter autonomia, têm que ter liberdade e que o Estado precisa assegurar a saúde e a vida das pessoas. É isso que acredito que deve ser o papel do Estado.

Você chega à Câmara dos Deputados a partir do próximo ano, em um Congresso dominado por partidos de direita e extrema-direita. Como pretende construir sua relação com esses parlamentares? Será uma política do diálogo ou do confronto?

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Quem votou em mim pode esperar que eu estarei no Congresso Nacional incomodando todos e todas que estiverem trabalhando contra o povo.

Tenho 20 anos de história. Essa foi a primeira vez que fui candidata e a primeira vez que vou exercer esse papel como deputada, mas estou na luta política há muitos anos. Entrei com 17 anos de idade.

Passei toda a minha vida, desde os 17 anos até muito recentemente, lutando no Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, um movimento que faz a luta por moradia em um país em que temos tantas pessoas precisando de casa e tanta casa vazia, com a especulação imobiliária lucrando com tantas casas vazias, enquanto uma parcela importante das pessoas vive em condição tão precária de moradia.

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Nesse tempo da minha vida, entregamos no MTST mais de 20 mil casas. Já estive à frente de grandes mobilizações da luta do MTST, nas ruas, fazendo enfrentamento, assim como já estive na mesa negociando com o proprietário e com o poder público.

O que as pessoas podem esperar de mim é que eu não irei titubear nenhum minuto para defender aqueles e aquelas que mais precisam, para honrar os votos que tive, para enfrentar com coragem a extrema-direita e, ao mesmo tempo, trabalhar para aprovar coisas importantes para o nosso país.

Vou lutar pela manutenção e ampliação do Minha Casa, Minha Vida, pelo fim do feminicídio e pela criminalização da misoginia, pela saúde e pelo SUS, para a manutenção do SUS como ele existe e para sua melhoria.

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Ao mesmo tempo, quero deixar claro que nós não iremos tolerar o desrespeito, o machismo e a povofobia. Eles vão ter que me engolir, vão ter que me tolerar.

Eu vim da periferia e é isso que quero representar no Congresso Nacional: as mulheres que mais precisam.

Obviamente, em um Congresso com maioria da extrema-direita, vamos ter muita luta e trabalhar muito para assegurar nossos direitos, ampliar esses direitos e aprovar projetos importantes para o nosso País.