O agravamento das tensões no Oriente Médio, marcado por ataques diretos entre potências e o bloqueio de rotas marítimas vitais, converteu-se na mais eficiente “apólice de seguro” para o Kremlin em 2026.
Enquanto o Ocidente desloca recursos e atenção diplomática para o Golfo, o governo de Vladimir Putin colhe dividendos imediatos: em apenas duas semanas de conflito, a Rússia arrecadou cerca de US$ 10 bilhões extras com a disparada global dos preços do petróleo.
O cenário é tão favorável a Moscou que líderes europeus, como o presidente do Conselho Europeu, António Costa, são categóricos ao afirmar que, até o momento, a Rússia emerge como a única vencedora estratégica da crise. Para o Kremlin, o caos alheio não é apenas lucro; é o combustível para consolidar sua ofensiva na Ucrânia.
Como o petróleo financia a máquina de guerra de Moscou
O principal ganho russo com a instabilidade no Levante é puramente matemático. Com a paralisia parcial das remessas no Golfo Pérsico, os preços globais de energia dispararam, criando uma receita extra estimada em US$ 10 bilhões para o Kremlin em apenas duas semanas de conflito.
Esse fluxo de caixa inesperado é potencializado pelo fim do isolamento do petróleo tipo Urals: antes vendido com descontos severos devido às sanções ocidentais, o óleo russo voltou a ser disputado globalmente.
Pressionados pela escassez, países como a Índia obtiveram isenções estratégicas de Washington para adquirir o excedente de Moscou, garantindo que o financiamento da ofensiva na Ucrânia permaneça intocado, apesar do cerco econômico do G7.
Como o conflito no Golfo desvia armas e munições da Ucrânia
Para Kiev, a crise no Oriente Médio é um pesadelo logístico. A atenção do governo de Donald Trump e de seus aliados europeus está dividida.
Escassez de munição: Sistemas de defesa aérea, como os mísseis Patriot, que seriam destinados à Ucrânia, agora são priorizados para proteger bases americanas e ativos aliados contra drones e mísseis iranianos.
Fadiga diplomática: A “fadiga da Ucrânia” no Congresso americano e nos parlamentos europeus foi acelerada. A urgência de evitar uma Terceira Guerra Mundial no Golfo empurrou a resistência ucraniana para o segundo plano das manchetes e dos orçamentos.
Entre o pragmatismo com o Irã e a nova ordem multipolar
A relação entre Moscou e Teerã revela o pragmatismo frio que guia a política externa russa. Embora o Irã seja um fornecedor vital de drones Shahed para a guerra na Ucrânia, o Kremlin tem sido notavelmente cauteloso em sua defesa militar direta do aliado.
Para Putin, um Irã sob pressão ou ataque constante mantém os Estados Unidos atolados em uma crise de longa duração no Oriente Médio, sem que a Rússia precise esgotar seus próprios estoques militares para intervir.
No Conselho de Segurança da ONU, Moscou utiliza essa posição para se vender como o ‘broker’ (mediador) indispensável o único ator global capaz de transitar entre todas as partes do conflito, recuperando uma relevância diplomática que parecia perdida.
Essa instabilidade serve como o palco perfeito para a Rússia consolidar sua narrativa de um mundo multipolar. Ao projetar a ordem liderada por Washington como sinônimo de caos e guerras intermináveis, o Kremlin atrai nações do Sul Global que se veem forçadas a negociar com Moscou por pura necessidade de segurança energética e alimentar.
No fim, a crise no Golfo permite que a Rússia deixe de ser vista como a agressora isolada no Leste Europeu para se tornar uma peça fundamental no equilíbrio de poder global, vendendo estabilidade em um momento em que o Ocidente parece incapaz de garanti-la.
