O que Lula e Flávio Bolsonaro fizeram no poder? Compare o histórico de governo de cada candidato à presidência antes de votar

Análise comparativa entre os 12 anos de mandato executivo de Lula e a atuação de 23 anos de Flávio Bolsonaro no Congresso coloca dados de economia, segurança, meio ambiente e produção legislativa frente a frente

Lula x Flávio Bolsonaro: o que cada um já produziu para a populaçao brasileira / Arte/Gazeta de S.Paulo

Lula x Flávio Bolsonaro: o que cada um já produziu para a populaçao brasileira / Arte/Gazeta de S.Paulo / Gabriela Biló/Folhapress / Marcelo Camargo/Agência Brasil

Comparar a trajetória pública dos dois candidatos no segundo turno das eleições para o princial cargo do País exige uma ressalva metodológica de partida: enquanto Lula (PT) acumula 12 anos de experiência na Presidência da República (2003-2010 e 2023-2026), Flávio Bolsonaro (PL) construiu toda a sua carreira no Poder Legislativo, somando 16 anos como deputado estadual no Rio de Janeiro e sete como senador.

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Como a campanha do parlamentar se apresenta como a continuidade do governo do pai (2019-2022), o raio-X dos postulantes exige a medição de três dimensões distintas: o histórico executivo do PT, as entregas da gestão Jair Bolsonaro e o resultado prático de mais de duas décadas de parlamento da família Bolsonaro.

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O cruzamento de dados oficiais realizado pela “Crime Brasil“, exclusivo à Gazeta, que analisou informações de órgãos como o IBGE, Banco Central, INPE e Senado revela contradições que desmontam discursos de ambos os lados, mostrando desde os picos de desmatamento até a disparada da população carcerária sob Lula, além da falta de leis federais aprovadas por Flávio e os números reais da economia e da pobreza nos dois projetos de País.

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Histórico de governo: o que cada um já fez com poder na mão

Aviso de método: Lula tem 12 anos de Presidência para ser medido (2003-2010 e 2023-2026). Flávio Bolsonaro nunca governou nada: 16 anos como deputado estadual e sete como senador. Comparar Lula com Flávio em “resultado de governo” é comparar um currículo executivo com um legislativo.

Mas o próprio Flávio se apresenta como continuidade do governo do pai (2019-2022). Por isso este capítulo mede três coisas: o que Lula fez em 12 anos, o que o governo Bolsonaro fez em quatro, e o que Flávio produziu em 23 anos de parlamento.

Flávio no Congresso: 23 anos de mandato, zero lei federal de autoria própria

 Alerj (2003-2018)Senado (2019-2026)
Proposições apresentadas208445, das quais 66 como autor principal (53 PLs, 4 PECs, 5 PDLs, 3 PLPs e 1 PRS); 91 PECs e 7 PLs como coautor
Transformadas em lei51Nenhuma como autor principal

Fonte: Folhapress (30/05/2026), Brasil de Fato (02/04/2026), API de Dados Abertos do Senado (senador 5894, consulta em 16/10/2026).

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  • Dois projetos dele passaram no Senado e estão parados na Câmara: PL 3071/2019 (loterias para a ABBR) e PL 2327/2021 (baterias de veículos elétricos).
  • Duas normas levam a assinatura dele como coautor, entre dezenas de signatários: a Lei 15.364/2026 (microcrédito), de autoria de Esperidião Amin, e a Emenda Constitucional 137/2025 (isenção de IPVA para veículos com 20 anos ou mais).
  • Das 60 matérias de autoria principal com tramitação consultável na API do Senado, 31 aguardam designação de relator, 8 estão com relator, 7 aguardam despacho, 1 foi rejeitada (PLP 132/2019), 1 prejudicada e 2 retiradas por ele mesmo. A PEC 32/2019, que reduz a maioridade penal e é a bandeira de segurança mais antiga dele, aguarda relator desde 2019 (última movimentação em 13/05/2026). O PL 2175/2019, sobre réplicas de armas, também aguarda relator.
  • O pai teve dois projetos aprovados em 171 apresentados em quase 30 anos de Câmara.
  • Em 2019, primeiro ano no Senado: nove discursos e nenhum projeto aprovado (Congresso em Foco).
  • Cargos: 3º secretário da Mesa (2019-2020); vice-líder do governo no Congresso (2020-2023); líder da Minoria no Congresso (2023-2025); presidente da Comissão de Segurança Pública do Senado desde 19/02/2025. Relator em plenário do projeto que acabou com as saídas temporárias (2024), que virou lei.

Como votou (painel do Senado):

MatériaDataVoto
Reforma da Previdência (PEC 6/2019)01 e 22/10/2019Sim
PEC Emergencial (auxílio + teto)03-04/03/2021Sim
PEC dos Precatórios02/12/2021Sim
Arcabouço fiscal21/06/2023Não
Reforma tributária (PEC 45)08/11/2023Não
Regulamentação da reforma tributária (PLP 68)12/12/2024Não
PL do crime organizado (5582/2025)10/12/2025Sim
PL da Dosimetria (2162/2023, reduz penas do 8/1)17/12/2025Sim
PEC do fim da jornada 6×114/10/2026Sim
Marco Temporal (PL 2903/2023)27/09/2023Não registrou voto

O voto no fim da escala 6×1, onze dias antes do 2º turno, contraria a posição anterior do próprio senador e do partido. Não encontramos registro do voto dele na anistia do 8 de janeiro, na isenção do IR até R$ 5 mil nem em presença e uso da cota parlamentar: esses pontos ficam fora da análise por falta de fonte verificada.

Economia: a régua por mandato

Neste capítulo, Dilma é 2011-2015; 2016 (impeachment em agosto) fica fora das médias de economia e desmatamento. Na tabela de homicídios, 2016 está com Dilma.

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Fontes: IBGE via Banco Central (SGS 7326, 433, 24369, 10777, 1619, 13762, 5793), Focus de 09/10/2026. Médias e acumulados calculados pelo Crime Brasil sobre as séries anuais.

GovernoPIB, média anualPIB acumuladoIPCA, média anualDívida bruta, fim do período
Lula 1 (2003-2006)3,5%14,8%6,4%55,5% do PIB (2006)
Lula 2 (2007-2010)4,6%19,7%5,1%51,8%
Dilma (2011-2015)1,2%5,8%7,1%65,5%
Temer (2017-2018)1,6%3,1%3,4%75,3%
Bolsonaro (2019-2022)1,4%5,7%6,2%71,7%
Lula 3 (2023-2025)3,0%9,2%4,6%78,6% (2025); 82,9% em ago/2026
  • Lula 1 e 2 cresceram mais, com inflação maior e dívida caindo. Superávit primário de 2% a 3,7% do PIB em todos os anos. Vento a favor: o maior ciclo de commodities da história recente.
  • Bolsonaro: pior crescimento médio desde Dilma, com pandemia no meio. 2020 caiu 3,3%; 2021 subiu 4,8%; 2022, 3,0%. O IPCA de 2021 (10,06%) foi o maior desde 2015. Primário de 2020: déficit de 9,2% do PIB, o maior da série; em 2022, superávit de 1,25%, o primeiro desde 2013. A dívida caiu de 86,9% (2020) para 71,7% (2022), em parte por inflação alta e crescimento nominal.
  • Lula 3: crescimento acima de Bolsonaro, inflação na meta, dívida em disparada. PIB médio de 3,0% em 2023-2025, com 2026 desacelerando (1,9% acumulado em 4 trimestres até o 2º tri; Focus 1,85%). IPCA em 4,26% (2025) e 4,58% em 12 meses até setembro de 2026. Mas a dívida bruta saiu de 71,7% para 82,9% do PIB em três anos e oito meses, 11,2 pontos, a maior alta em um mandato desde Dilma (51,8% em 2010 para 69,8% em 2016). Déficit primário em todos os anos (−2,28%, −0,40%, −0,43%; −0,62% em 12 meses até agosto de 2026).

Desemprego (PNAD Contínua, trimestre outubro-dezembro): 2018 11,7% → 2020 14,2% → 2022 7,9% → 2025 5,1%. Junho-agosto de 2026: 5,3%. É o menor desemprego da série histórica, iniciada em 2012. Cerca de dois terços da queda desde o pico da pandemia aconteceram sob Bolsonaro (14,2 → 7,9) e um terço sob Lula 3 (7,9 → 5,1). Nenhum dos dois lados costuma dizer isso.

Salário mínimo real (deflacionado pelo INPC, R$ de set/2026): Lula 1 +38,3%; Lula 2 +17,4%; Dilma +15,7%; Temer +2,2%; Bolsonaro −1,2% (único governo desde 2003 em que o mínimo perdeu para a inflação); Lula 3 +13,9%.

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Pobreza, desigualdade e fome

Pobreza (linha do Banco Mundial de US$ 6,85/dia, PPC 2017):

AnoBanco Mundial (PIP)IBGE (SIS 2025)
200348,7%—
200641,4%—
201129,9%—
201424,4%—
201826,8%—
201926,3%32,6%
202018,8% (auxílio emergencial)31,1%
202128,4%36,8%
202223,4%31,6%
202321,6%27,3%
202418,9%23,1% (48,9 milhões de pessoas)

As duas séries usam metodologias diferentes e não se misturam. O movimento é o mesmo nas duas: queda forte em Lula 1 e 2 (de 48,7% para cerca de 30%, quase 20 pontos em oito anos), estagnação de 2014 a 2019, o pior ano da série recente em 2021 (36,8% pelo IBGE, 9,0% em extrema pobreza) quando o auxílio emergencial acabou, queda em 2022 com o Auxílio Brasil de R$ 600 em ano eleitoral, e o menor nível da série em 2024 (23,1%; extrema pobreza 3,5%, 7,4 milhões de pessoas).

Gini (IBGE, renda domiciliar per capita): 2012 0,540 → 2018 0,545 → 2019 0,543 → 2021 0,543 → 2022 0,517 → 2024 0,504 (menor da série) → 2025 0,511 (voltou a subir). Antes de 2012, pela PNAD via Banco Mundial: 2003 0,576 → 2011 0,529. Em quatro anos de Bolsonaro, o Gini caiu 0,028 (0,545 → 0,517), em boa parte por efeito das transferências de 2020-2022. Em 2025, sob Lula 3, piorou pela primeira vez desde 2021.

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Fome. Aqui há duas réguas, e a disputa política usa a que convém:

  • Rede PENSSAN (pesquisa domiciliar independente): 19,1 milhões em insegurança alimentar grave em dezembro de 2020; 33,1 milhões entre novembro de 2021 e abril de 2022. É o número “33 milhões de brasileiros passando fome” da campanha de 2022.
  • IBGE (PNAD Contínua): 8,5 milhões em insegurança grave em 2023; 6,5 milhões em 2024 (3,2% dos domicílios, mesmo patamar de 2013, melhor marca da série). O IBGE não mediu 2021-2022, e o próprio instituto avisa que as pesquisas não são comparáveis entre si.
  • FAO: o Brasil saiu do Mapa da Fome em 2014, voltou durante a pandemia e saiu de novo no relatório SOFI de 28/07/2025 (subalimentação abaixo de 2,5% no triênio 2022-2024). Saiu do mapa no relatório de 2014 (Dilma), voltou no relatório de 2022, durante o governo Bolsonaro (triênio 2019-2021), e saiu de novo em 2025 (Lula 3).

Bolsa Família / Auxílio Brasil: 1,15 milhão de famílias em outubro de 2003 → 12,8 milhões em 2010 → 14,1 milhões em dezembro de 2018 (R$ 186,78 de benefício médio) → 21,6 milhões em dezembro de 2022 (R$ 607,14), após o Auxílio Brasil de R$ 600 aprovado em julho de 2022, três meses antes da eleição → 19,4 milhões em 2025 (R$ 675,52 médio; R$ 691,37 em dezembro). O programa que Bolsonaro chamou de “esmola” em 2017 saiu do governo dele com o maior número de famílias e o maior valor da história até então.

Amazônia: o dado que inverte o rótulo dos dois

Desmatamento na Amazônia Legal (PRODES/INPE, km² por ano, agosto a julho):

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GovernoSérieMédia anual
Lula 1 (2003-2006)25.396 · 27.772 · 19.014 · 14.28521.617
Lula 2 (2007-2010)11.651 · 12.911 · 7.464 · 7.0009.757
Dilma (2011-2015)6.418 · 4.571 · 5.891 · 5.012 · 6.2075.620
Temer (2017-2018)6.947 · 7.5367.242
Bolsonaro (2019-2022)10.129 · 10.851 · 13.038 · 11.59411.403
Lula 3 (2023-2025)9.064 · 6.518 · 5.7317.104

O governo que mais desmatou a Amazônia neste século foi Lula 1. 2004 teve 27.772 km², o segundo pior ano da série do PRODES (atrás só de 1995). A média de Lula 1 é quase o dobro da de Bolsonaro.

  • Lula 2 reduziu a média para menos da metade (9.757), e Dilma chegou ao mínimo histórico (4.571 km² em 2012).
  • Bolsonaro reverteu a tendência: +57% na média contra Temer, pico de 13.038 km² em 2021, pior ano desde 2006.
  • Lula 3 voltou a derrubar: 5.731 km² em 2025 (consolidado em março de 2026), menor valor desde 2014.

Os dois lados usam o recorte que convém: o PT fala de 2023-2025, o bolsonarismo fala do pico de 2004. O dado completo é: Lula desmatou muito e depois aprendeu a frear; Bolsonaro soltou o freio; Lula 3 pisou de novo.

Pandemia

  • Mortes por Covid-19 até 01/01/2023, fim do governo Bolsonaro: 693.853 (OMS). Total até 27/09/2026: 704.092. O Brasil é o segundo País do mundo em mortes absolutas, atrás só dos Estados Unidos (1,24 milhão) e à frente da Índia, que tem seis vezes a população brasileira.
  • A CPI da Covid aprovou em 26/10/2021 (7 votos a 4) relatório com 80 pedidos de indiciamento. A Bolsonaro, nove crimes (entre eles epidemia com resultado morte, charlatanismo, prevaricação e crimes contra a humanidade). Flávio Bolsonaro, Eduardo e Carlos constam da lista, por incitação ao crime. A PGR não ofereceu denúncia contra o presidente nem contra os filhos com base no relatório.

Prisões

População carcerária (Sisdepen/Senappen, Anuário FBSP 2026, sistema penitenciário, sem custódia policial):

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2003201020142018202220242025
240.203445.705584.758725.332826.740905.843960.976
  • Lula 1 e 2 quase dobraram a população presa: +86% em oito anos, o maior crescimento de qualquer governo desde 2003. Bolsonaro: +14% em quatro anos. Lula 3: 961 mil em 2025, mas a série quebra em 2024, quando o Sisdepen passou a contar prisão domiciliar (233.081 em 2025; 727.301 em celas), o que impede comparar com 2022.
  • O discurso “a esquerda solta bandido” não aparece no número: o Brasil prendeu mais sob Lula do que sob qualquer outro presidente, e tem hoje uma das três maiores populações carcerárias do mundo (World Prison Brief).

Levantamento da Crime Brasil exclusivo à Gazeta

Os dados analisados fazem parte de um levantamento realizado pela plataforma Crime Brasil exclusivo à Gazeta. O objetivo não é induzir o eleitor a votar em um deles. Ela põe lado a lado, com fonte e data, o que a Justiça, o IBGE, o Ministério da Saúde, o Banco Central, o INPE, o TSE e os institutos de pesquisa registraram sobre os dois candidatos.