Comparar a trajetória pública dos dois candidatos no segundo turno das eleições para o princial cargo do País exige uma ressalva metodológica de partida: enquanto Lula (PT) acumula 12 anos de experiência na Presidência da República (2003-2010 e 2023-2026), Flávio Bolsonaro (PL) construiu toda a sua carreira no Poder Legislativo, somando 16 anos como deputado estadual no Rio de Janeiro e sete como senador.
Como a campanha do parlamentar se apresenta como a continuidade do governo do pai (2019-2022), o raio-X dos postulantes exige a medição de três dimensões distintas: o histórico executivo do PT, as entregas da gestão Jair Bolsonaro e o resultado prático de mais de duas décadas de parlamento da família Bolsonaro.
O cruzamento de dados oficiais realizado pela “Crime Brasil“, exclusivo à Gazeta, que analisou informações de órgãos como o IBGE, Banco Central, INPE e Senado revela contradições que desmontam discursos de ambos os lados, mostrando desde os picos de desmatamento até a disparada da população carcerária sob Lula, além da falta de leis federais aprovadas por Flávio e os números reais da economia e da pobreza nos dois projetos de País.
Histórico de governo: o que cada um já fez com poder na mão
Aviso de método: Lula tem 12 anos de Presidência para ser medido (2003-2010 e 2023-2026). Flávio Bolsonaro nunca governou nada: 16 anos como deputado estadual e sete como senador. Comparar Lula com Flávio em “resultado de governo” é comparar um currículo executivo com um legislativo.
Mas o próprio Flávio se apresenta como continuidade do governo do pai (2019-2022). Por isso este capítulo mede três coisas: o que Lula fez em 12 anos, o que o governo Bolsonaro fez em quatro, e o que Flávio produziu em 23 anos de parlamento.
Flávio no Congresso: 23 anos de mandato, zero lei federal de autoria própria
| Alerj (2003-2018) | Senado (2019-2026) | |
| Proposições apresentadas | 208 | 445, das quais 66 como autor principal (53 PLs, 4 PECs, 5 PDLs, 3 PLPs e 1 PRS); 91 PECs e 7 PLs como coautor |
| Transformadas em lei | 51 | Nenhuma como autor principal |
Fonte: Folhapress (30/05/2026), Brasil de Fato (02/04/2026), API de Dados Abertos do Senado (senador 5894, consulta em 16/10/2026).
- Dois projetos dele passaram no Senado e estão parados na Câmara: PL 3071/2019 (loterias para a ABBR) e PL 2327/2021 (baterias de veículos elétricos).
- Duas normas levam a assinatura dele como coautor, entre dezenas de signatários: a Lei 15.364/2026 (microcrédito), de autoria de Esperidião Amin, e a Emenda Constitucional 137/2025 (isenção de IPVA para veículos com 20 anos ou mais).
- Das 60 matérias de autoria principal com tramitação consultável na API do Senado, 31 aguardam designação de relator, 8 estão com relator, 7 aguardam despacho, 1 foi rejeitada (PLP 132/2019), 1 prejudicada e 2 retiradas por ele mesmo. A PEC 32/2019, que reduz a maioridade penal e é a bandeira de segurança mais antiga dele, aguarda relator desde 2019 (última movimentação em 13/05/2026). O PL 2175/2019, sobre réplicas de armas, também aguarda relator.
- O pai teve dois projetos aprovados em 171 apresentados em quase 30 anos de Câmara.
- Em 2019, primeiro ano no Senado: nove discursos e nenhum projeto aprovado (Congresso em Foco).
- Cargos: 3º secretário da Mesa (2019-2020); vice-líder do governo no Congresso (2020-2023); líder da Minoria no Congresso (2023-2025); presidente da Comissão de Segurança Pública do Senado desde 19/02/2025. Relator em plenário do projeto que acabou com as saídas temporárias (2024), que virou lei.

Como votou (painel do Senado):
| Matéria | Data | Voto |
| Reforma da Previdência (PEC 6/2019) | 01 e 22/10/2019 | Sim |
| PEC Emergencial (auxílio + teto) | 03-04/03/2021 | Sim |
| PEC dos Precatórios | 02/12/2021 | Sim |
| Arcabouço fiscal | 21/06/2023 | Não |
| Reforma tributária (PEC 45) | 08/11/2023 | Não |
| Regulamentação da reforma tributária (PLP 68) | 12/12/2024 | Não |
| PL do crime organizado (5582/2025) | 10/12/2025 | Sim |
| PL da Dosimetria (2162/2023, reduz penas do 8/1) | 17/12/2025 | Sim |
| PEC do fim da jornada 6×1 | 14/10/2026 | Sim |
| Marco Temporal (PL 2903/2023) | 27/09/2023 | Não registrou voto |
O voto no fim da escala 6×1, onze dias antes do 2º turno, contraria a posição anterior do próprio senador e do partido. Não encontramos registro do voto dele na anistia do 8 de janeiro, na isenção do IR até R$ 5 mil nem em presença e uso da cota parlamentar: esses pontos ficam fora da análise por falta de fonte verificada.
Economia: a régua por mandato
Neste capítulo, Dilma é 2011-2015; 2016 (impeachment em agosto) fica fora das médias de economia e desmatamento. Na tabela de homicídios, 2016 está com Dilma.
Fontes: IBGE via Banco Central (SGS 7326, 433, 24369, 10777, 1619, 13762, 5793), Focus de 09/10/2026. Médias e acumulados calculados pelo Crime Brasil sobre as séries anuais.
| Governo | PIB, média anual | PIB acumulado | IPCA, média anual | Dívida bruta, fim do período |
| Lula 1 (2003-2006) | 3,5% | 14,8% | 6,4% | 55,5% do PIB (2006) |
| Lula 2 (2007-2010) | 4,6% | 19,7% | 5,1% | 51,8% |
| Dilma (2011-2015) | 1,2% | 5,8% | 7,1% | 65,5% |
| Temer (2017-2018) | 1,6% | 3,1% | 3,4% | 75,3% |
| Bolsonaro (2019-2022) | 1,4% | 5,7% | 6,2% | 71,7% |
| Lula 3 (2023-2025) | 3,0% | 9,2% | 4,6% | 78,6% (2025); 82,9% em ago/2026 |
- Lula 1 e 2 cresceram mais, com inflação maior e dívida caindo. Superávit primário de 2% a 3,7% do PIB em todos os anos. Vento a favor: o maior ciclo de commodities da história recente.
- Bolsonaro: pior crescimento médio desde Dilma, com pandemia no meio. 2020 caiu 3,3%; 2021 subiu 4,8%; 2022, 3,0%. O IPCA de 2021 (10,06%) foi o maior desde 2015. Primário de 2020: déficit de 9,2% do PIB, o maior da série; em 2022, superávit de 1,25%, o primeiro desde 2013. A dívida caiu de 86,9% (2020) para 71,7% (2022), em parte por inflação alta e crescimento nominal.
- Lula 3: crescimento acima de Bolsonaro, inflação na meta, dívida em disparada. PIB médio de 3,0% em 2023-2025, com 2026 desacelerando (1,9% acumulado em 4 trimestres até o 2º tri; Focus 1,85%). IPCA em 4,26% (2025) e 4,58% em 12 meses até setembro de 2026. Mas a dívida bruta saiu de 71,7% para 82,9% do PIB em três anos e oito meses, 11,2 pontos, a maior alta em um mandato desde Dilma (51,8% em 2010 para 69,8% em 2016). Déficit primário em todos os anos (−2,28%, −0,40%, −0,43%; −0,62% em 12 meses até agosto de 2026).

Desemprego (PNAD Contínua, trimestre outubro-dezembro): 2018 11,7% → 2020 14,2% → 2022 7,9% → 2025 5,1%. Junho-agosto de 2026: 5,3%. É o menor desemprego da série histórica, iniciada em 2012. Cerca de dois terços da queda desde o pico da pandemia aconteceram sob Bolsonaro (14,2 → 7,9) e um terço sob Lula 3 (7,9 → 5,1). Nenhum dos dois lados costuma dizer isso.
Salário mínimo real (deflacionado pelo INPC, R$ de set/2026): Lula 1 +38,3%; Lula 2 +17,4%; Dilma +15,7%; Temer +2,2%; Bolsonaro −1,2% (único governo desde 2003 em que o mínimo perdeu para a inflação); Lula 3 +13,9%.
Pobreza, desigualdade e fome
Pobreza (linha do Banco Mundial de US$ 6,85/dia, PPC 2017):
| Ano | Banco Mundial (PIP) | IBGE (SIS 2025) |
| 2003 | 48,7% | — |
| 2006 | 41,4% | — |
| 2011 | 29,9% | — |
| 2014 | 24,4% | — |
| 2018 | 26,8% | — |
| 2019 | 26,3% | 32,6% |
| 2020 | 18,8% (auxílio emergencial) | 31,1% |
| 2021 | 28,4% | 36,8% |
| 2022 | 23,4% | 31,6% |
| 2023 | 21,6% | 27,3% |
| 2024 | 18,9% | 23,1% (48,9 milhões de pessoas) |

As duas séries usam metodologias diferentes e não se misturam. O movimento é o mesmo nas duas: queda forte em Lula 1 e 2 (de 48,7% para cerca de 30%, quase 20 pontos em oito anos), estagnação de 2014 a 2019, o pior ano da série recente em 2021 (36,8% pelo IBGE, 9,0% em extrema pobreza) quando o auxílio emergencial acabou, queda em 2022 com o Auxílio Brasil de R$ 600 em ano eleitoral, e o menor nível da série em 2024 (23,1%; extrema pobreza 3,5%, 7,4 milhões de pessoas).
Gini (IBGE, renda domiciliar per capita): 2012 0,540 → 2018 0,545 → 2019 0,543 → 2021 0,543 → 2022 0,517 → 2024 0,504 (menor da série) → 2025 0,511 (voltou a subir). Antes de 2012, pela PNAD via Banco Mundial: 2003 0,576 → 2011 0,529. Em quatro anos de Bolsonaro, o Gini caiu 0,028 (0,545 → 0,517), em boa parte por efeito das transferências de 2020-2022. Em 2025, sob Lula 3, piorou pela primeira vez desde 2021.
Fome. Aqui há duas réguas, e a disputa política usa a que convém:
- Rede PENSSAN (pesquisa domiciliar independente): 19,1 milhões em insegurança alimentar grave em dezembro de 2020; 33,1 milhões entre novembro de 2021 e abril de 2022. É o número “33 milhões de brasileiros passando fome” da campanha de 2022.
- IBGE (PNAD Contínua): 8,5 milhões em insegurança grave em 2023; 6,5 milhões em 2024 (3,2% dos domicílios, mesmo patamar de 2013, melhor marca da série). O IBGE não mediu 2021-2022, e o próprio instituto avisa que as pesquisas não são comparáveis entre si.
- FAO: o Brasil saiu do Mapa da Fome em 2014, voltou durante a pandemia e saiu de novo no relatório SOFI de 28/07/2025 (subalimentação abaixo de 2,5% no triênio 2022-2024). Saiu do mapa no relatório de 2014 (Dilma), voltou no relatório de 2022, durante o governo Bolsonaro (triênio 2019-2021), e saiu de novo em 2025 (Lula 3).
Bolsa Família / Auxílio Brasil: 1,15 milhão de famílias em outubro de 2003 → 12,8 milhões em 2010 → 14,1 milhões em dezembro de 2018 (R$ 186,78 de benefício médio) → 21,6 milhões em dezembro de 2022 (R$ 607,14), após o Auxílio Brasil de R$ 600 aprovado em julho de 2022, três meses antes da eleição → 19,4 milhões em 2025 (R$ 675,52 médio; R$ 691,37 em dezembro). O programa que Bolsonaro chamou de “esmola” em 2017 saiu do governo dele com o maior número de famílias e o maior valor da história até então.
Amazônia: o dado que inverte o rótulo dos dois
Desmatamento na Amazônia Legal (PRODES/INPE, km² por ano, agosto a julho):
| Governo | Série | Média anual |
| Lula 1 (2003-2006) | 25.396 · 27.772 · 19.014 · 14.285 | 21.617 |
| Lula 2 (2007-2010) | 11.651 · 12.911 · 7.464 · 7.000 | 9.757 |
| Dilma (2011-2015) | 6.418 · 4.571 · 5.891 · 5.012 · 6.207 | 5.620 |
| Temer (2017-2018) | 6.947 · 7.536 | 7.242 |
| Bolsonaro (2019-2022) | 10.129 · 10.851 · 13.038 · 11.594 | 11.403 |
| Lula 3 (2023-2025) | 9.064 · 6.518 · 5.731 | 7.104 |

O governo que mais desmatou a Amazônia neste século foi Lula 1. 2004 teve 27.772 km², o segundo pior ano da série do PRODES (atrás só de 1995). A média de Lula 1 é quase o dobro da de Bolsonaro.
- Lula 2 reduziu a média para menos da metade (9.757), e Dilma chegou ao mínimo histórico (4.571 km² em 2012).
- Bolsonaro reverteu a tendência: +57% na média contra Temer, pico de 13.038 km² em 2021, pior ano desde 2006.
- Lula 3 voltou a derrubar: 5.731 km² em 2025 (consolidado em março de 2026), menor valor desde 2014.
Os dois lados usam o recorte que convém: o PT fala de 2023-2025, o bolsonarismo fala do pico de 2004. O dado completo é: Lula desmatou muito e depois aprendeu a frear; Bolsonaro soltou o freio; Lula 3 pisou de novo.
Pandemia
- Mortes por Covid-19 até 01/01/2023, fim do governo Bolsonaro: 693.853 (OMS). Total até 27/09/2026: 704.092. O Brasil é o segundo País do mundo em mortes absolutas, atrás só dos Estados Unidos (1,24 milhão) e à frente da Índia, que tem seis vezes a população brasileira.
- A CPI da Covid aprovou em 26/10/2021 (7 votos a 4) relatório com 80 pedidos de indiciamento. A Bolsonaro, nove crimes (entre eles epidemia com resultado morte, charlatanismo, prevaricação e crimes contra a humanidade). Flávio Bolsonaro, Eduardo e Carlos constam da lista, por incitação ao crime. A PGR não ofereceu denúncia contra o presidente nem contra os filhos com base no relatório.
Prisões
População carcerária (Sisdepen/Senappen, Anuário FBSP 2026, sistema penitenciário, sem custódia policial):
| 2003 | 2010 | 2014 | 2018 | 2022 | 2024 | 2025 |
| 240.203 | 445.705 | 584.758 | 725.332 | 826.740 | 905.843 | 960.976 |
- Lula 1 e 2 quase dobraram a população presa: +86% em oito anos, o maior crescimento de qualquer governo desde 2003. Bolsonaro: +14% em quatro anos. Lula 3: 961 mil em 2025, mas a série quebra em 2024, quando o Sisdepen passou a contar prisão domiciliar (233.081 em 2025; 727.301 em celas), o que impede comparar com 2022.
- O discurso “a esquerda solta bandido” não aparece no número: o Brasil prendeu mais sob Lula do que sob qualquer outro presidente, e tem hoje uma das três maiores populações carcerárias do mundo (World Prison Brief).
Levantamento da Crime Brasil exclusivo à Gazeta
Os dados analisados fazem parte de um levantamento realizado pela plataforma Crime Brasil exclusivo à Gazeta. O objetivo não é induzir o eleitor a votar em um deles. Ela põe lado a lado, com fonte e data, o que a Justiça, o IBGE, o Ministério da Saúde, o Banco Central, o INPE, o TSE e os institutos de pesquisa registraram sobre os dois candidatos.






