O diagnóstico da Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) no criador de conteúdo Lito Sousa, do canal Aviões e Músicas, gerou diálogo em diferentes redes sociais. A complexidade do estado de saúde de Lito alerta sobre os desafios enfrentados pela medicina na identificação precoce de enfermidades neurodegenerativas e causa pânico generalizado. “Como esse tipo de doença aparece e eu posso ter?”.
Apesar da gravidade de condições como a de Lito Sousa, o universo das patologias que atingem o sistema nervoso central é amplo e heterogêneo. Enquanto doenças priônicas progridem silenciosamente até um quadro grave, outras condições neurodegenerativas e autoimunes dão sinais prévios que, se investigados no momento certo, mudam o rumo do tratamento e evitam sequelas incapacitantes.
Como funcionam e como são investigadas as doenças neurodegenerativas?
A capacidade de identificar uma doença neurológica antes do avanço significativo dos sintomas varia de acordo com o mecanismo biológico envolvido em cada patologia:
- Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ): na fase inicial, costuma apresentar sintomas inespecíficos, como tontura, tremores ou alterações discretas de comportamento e da visão. O diagnóstico formal combina avaliação clínica rigorosa, exames de ressonância magnética, eletroencefalograma e análise do líquido cefalorraquidiano (líquor) em busca de proteínas marcadoras.
- Esclerose Múltipla (EM): uma condição autoimune e inflamatória que afeta o sistema nervoso central. Na EM, a atividade inflamatória costuma ser mais alta nas fases iniciais, o que torna a identificação precoce indispensável para conter a evolução da doença e proteger a funcionalidade do paciente.
- Outras Doenças Neurodegenerativas (como Alzheimer e Parkinson): avanços na neurologia moderna trouxeram testes de biomarcadores sanguíneos e exames de imagem de alta precisão (como o PET-CT), capazes de detectar depósitos proteicos anormais no cérebro antes mesmo do surgimento de um declínio cognitivo acentuado.
Sinais sutis que merecem atenção médica
Muitas condições neurológicas começam com manifestações discretas que nem sempre são associadas de imediato a um problema grave no cérebro ou na medula. Especialistas reforçam a necessidade de buscar avaliação neurológica diante de alterações persistentes ou recorrentes, tais como:
- Alterações sensitivas e motoras: formigamento contínuo nas extremidades, sensação de “dor em choque”, fraqueza muscular repentina, rigidez ou perda de força.
- Acometimento visual e de equilíbrio: visão dupla ou embaçada, tontura frequente, perda inexplicável do equilíbrio e dificuldades na marcha.
- Mudanças cognitivas e comportamentais: lapsos de memória que atrapalham a rotina, lentificação do raciocínio, desorientação e alterações repentinas de humor sem causa aparente.
Esclerose Múltipla: a importância do diagnóstico precoce e do tratamento
Ao contrário da DCJ, muitas patologias do sistema nervoso central contam hoje com um arsenal terapêutico amplo capaz de modificar o curso da doença. É o caso da Esclerose Múltipla, uma condição neurológica que atinge com frequência adultos jovens e pode se manifestar de formas muito variadas.
De acordo com a Sara Terrim, neurologista da clínica EV CITI, o principal perigo está na facilidade com que esses primeiros sinais são negligenciados pelo paciente. “A esclerose múltipla pode se apresentar com sintomas muito diferentes, como fraqueza, formigamento, tontura, dor em choque, alterações da visão, da marcha e do equilíbrio. Por isso, é importante se atentar a qualquer sintoma novo e persistente”, explica a especialista.
Identificar esses indícios e iniciar a investigação rapidamente é fundamental para conter os danos, já que os tratamentos atuais atuam diretamente na resposta inflamatória do organismo. “Atualmente, temos muitas opções de tratamento para a esclerose múltipla, e iniciar a terapia precocemente é importante para controlar a atividade inflamatória da doença e reduzir o risco de acúmulo de incapacidade ao longo do tempo”, afirma a neurologista.
Outro ponto destacado pela medicina é a necessidade de desmistificar os impactos desses diagnósticos na vida do paciente. Com as terapias modernas e o acompanhamento adequado, é possível manter a qualidade de vida e a autonomia.
“Um dos principais mitos é acreditar que o diagnóstico necessariamente levará a sequelas permanentes ou incapacidade. A esclerose múltipla é uma doença tratável, e o acompanhamento adequado busca controlar sua atividade e preservar a funcionalidade e a autonomia do paciente”, ressalta a neurologista.
Além do uso de medicamentos específicos, o manejo dessas patologias envolve frequentemente uma abordagem multidisciplinar com fisioterapeutas, fonoaudiólogos e outros profissionais. Diante de qualquer alteração neurológica atípica e persistente, a consulta especializada e a realização de exames complementares continuam sendo o único caminho seguro para obter um diagnóstico correto e iniciar o tratamento adequado o quanto antes.






