Nos últimos anos, famosas passaram a falar abertamente sobre procedimentos íntimos femininos, tema que durante muito tempo foi tratado como tabu no Brasil.
Entre os nomes que já abordaram o assunto estão Manu Bahtidão, Gracyanne Barbosa e Gretchen. Gracyanne atualmente participa do quadro “Dança dos Famosos”, da Globo, atração comandada por Luciano Huck.
Gretchen, por sua vez, já falou publicamente sobre procedimentos realizados na região íntima.
Em entrevista exclusiva à Gazeta, a médica ginecologista e obstetra Fernanda Nassar falou sobre o aumento na procura por procedimentos íntimos. A profissional é apontada como referência nacional em cirurgia íntima e estética genital feminina a laser.
Nassar é fundadora da Clínica La Femme, apontada como a primeira clínica do Brasil dedicada exclusivamente a procedimentos de estética e cirurgia íntima, com atendimentos em Santos e São Paulo.
Confira entrevista abaixo:
O que é, de fato, o procedimento íntimo que virou tendência entre as famosas e quais resultados ele pode proporcionar?
Quando falamos em procedimentos íntimos, não estamos falando de uma única técnica. Existem procedimentos cirúrgicos, como a ninfoplastia e a perineoplastia, e tratamentos não cirúrgicos, como tecnologias a laser e outras fontes de energia.
A indicação depende da queixa de cada mulher. Podemos tratar alterações anatômicas, excesso de tecido, desconforto, flacidez e determinadas alterações funcionais.
No caso das tecnologias vaginais, existem estudos avaliando melhora de aspectos como qualidade do tecido, lubrificação e sintomas geniturinários, embora a qualidade das evidências ainda seja limitada para várias dessas indicações.
Esse procedimento realmente promove um “rejuvenescimento” da vagina ou o termo é mais uma forma de apresentar o tratamento ao público?
Na prática, prefiro explicar exatamente o que estamos tratando. Dependendo da tecnologia e da indicação, o objetivo pode ser atuar sobre características do tecido vaginal, sintomas relacionados à secura, desconforto ou outras queixas. Portanto, não significa deixar a vagina “jovem novamente”. É mais correto falar em tratamento de uma alteração específica da região íntima.
Quais mulheres podem se beneficiar do procedimento e em quais casos ele não é recomendado?
Primeiro precisamos entender qual é a queixa. Uma mulher que apresenta uma alteração anatômica que provoca dor ou desconforto tem uma necessidade completamente diferente de uma mulher na menopausa com ressecamento vaginal, por exemplo.
Por isso, a avaliação ginecológica individual é fundamental. Também precisamos investigar infecções, lesões, alterações dermatológicas e outras condições antes de indicar qualquer procedimento. E quando a motivação é exclusivamente estética, é especialmente importante alinhar expectativas e explicar que existe uma enorme variação normal na anatomia genital feminina.
Quais são os riscos de realizar um procedimento íntimo apenas por motivos estéticos?
Qualquer procedimento médico possui riscos, mesmo quando realizado por uma questão estética. Em cirurgias íntimas, podem ocorrer sangramento, infecção, cicatrização inadequada, alteração de sensibilidade, dor, cicatrizes e dor durante a relação sexual.
Nos tratamentos vaginais com laser ou outras fontes de energia, também existem riscos descritos, incluindo queimaduras, cicatrização e dor persistente ou durante as relações. Por isso, a indicação, a tecnologia utilizada e a experiência do profissional são fundamentais.
Depois da menopausa, o procedimento pode ajudar em problemas como ressecamento vaginal e dor durante a relação?
Esses sintomas são muito comuns na chamada síndrome geniturinária da menopausa, que pode provocar ressecamento, ardência, desconforto e dor durante as relações.
Tecnologias como o laser vaginal vêm sendo estudadas para esses sintomas e alguns estudos observacionais demonstraram melhora. Entretanto, quando analisamos os estudos randomizados de melhor qualidade, a evidência ainda é considerada insuficiente ou de baixa certeza.
Uma revisão sistemática publicada em 2025 concluiu que o laser de CO₂ pode apresentar pouca ou nenhuma diferença em alguns desfechos quando comparado ao placebo ou ao estrogênio vaginal.
Portanto, não devemos apresentar o laser como uma solução garantida ou como substituto universal das terapias já estabelecidas. Existem opções como hidratantes e lubrificantes vaginais e, quando indicado, tratamentos hormonais locais, entre outras possibilidades.
O resultado é permanente ou a mulher precisa repetir o procedimento depois de algum tempo?
Depende completamente do procedimento. Em uma cirurgia que modifica uma estrutura anatômica, como uma ninfoplastia, o resultado tende a ser duradouro, embora o organismo continue sofrendo alterações naturais relacionadas ao envelhecimento, variações de peso, gestação e parto.
Já nos tratamentos baseados em energia, não devemos prometer um resultado permanente. Os protocolos variam e ainda faltam evidências robustas para estabelecer com precisão a duração dos benefícios e a necessidade ideal de manutenção a longo prazo.
Procedimentos íntimos não devem ser tratados como uma moda. A região íntima apresenta enorme diversidade anatômica e nem toda característica estética precisa ser corrigida.
O mais importante é entender se existe uma queixa real, avaliar a saúde da mulher e, somente então, definir se existe indicação e qual tratamento apresenta a melhor relação entre benefício e risco.






