A operadora de planos de saúde Hapvida Notredame Intermédica negou ou atrasou o atendimento para 4,6 mil crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) ao longo de 40 meses. Os dados, publicados inicialmente pela coluna de Andreza Matais, do Metrópoles, são de um levantamento da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), realizado a pedido do Ministério Público Federal (MPF).
O estudo reúne informações sobre pacientes menores de 18 anos com TEA que apresentaram demandas de cobertura contra a operadora de 2022 a 2025. A empresa é a maior operadora de saúde da América Latina, com 15,9 milhões de beneficiários.
O conglomerado tem histórico de problemas com o Ministério Público. Em 2024, o Ministério Público de São Paulo (MPSP) apontou que a empresa descumpriu decisões judiciais que determinam o fornecimento de medicamentos e tratamentos aos clientes.
Com isso, a empresa chegou a registrar em janeiro daquele ano a maior queda do Ibovespa até então. Com o tombo. a operadora perdeu R$ 2,2 bilhões em valor de mercado em apenas um pregão. Naquela altura, a Hapvida valia R$ 30,1 bilhões na Bolsa.
Em 2021, quando anunciaram a fusão, Hapvida e Notre Dame Intermédica valiam juntas mais de R$ 100 bilhões na Bolsa.
Em novembro de 2025 ações desabaram novamente. A queda veio após a companhia anunciar um lucro líquido de R$ 338 milhões no terceiro trimestre do ano passado, uma alta de 12,7% em comparação ao registrado no mesmo período de 2024.
Sobre a falta ou demora de atendimento a autistas, a operadora alega que esses pedidos não significam que o atendimento foi dificultado.
Em nota enviada à coluna de Andreza Matais, a Hapvida disse que apresentou comprovação do atendimento do paciente alvo do MPF, e que não houve suspensão sistemática de atendimentos a beneficiários com TEA, “mantendo a assistência de forma contínua, em conformidade com a regulação da ANS e as diretrizes técnicas vigentes, mantendo sempre um diálogo contínuo com as famílias”.
“É incorreto afirmar que o número de 4.660 registros represente suspensão ou interrupção de atendimentos a beneficiários com Transtorno do Espectro Autista. Esse quantitativo corresponde ao total de demandas administrativas protocoladas na Agência Nacional de Saúde Suplementar, em âmbito nacional, no período analisado”, continuou a nota.
Além disso, a operadora afirmou que “os dados oficiais demonstram que a maior parte dessas demandas foi encerrada no âmbito da mediação administrativa, seja pela efetiva prestação do serviço, seja pela ausência de retorno do próprio reclamante”.
Um inquérito civil público foi instaurado para investigar uma suposa irregularidade envolvendo uma criança com autismo em Pernambuco. Foi nessa ação que o MP descobriu que eram quatro mil queixas de negativa de atendimento para o público com TEA.
Em novembro de 2025, a investigação foi arquivada pela Subprocuradoria-Geral da República.
Caso suspeito em Manaus
Uma polêmica recente da empresa envolve a capital do Amazonas. A Hapvida teve o contrato renovado para 2026 como operadora responsável pela cobertura dos planos de saúde dos servidores da Prefeitura de Manaus por mais que o dobro do preço oferecido na licitação, em dezembro de 2024.
Segundo documentos obtidos pela Rede Amazônica, o valor, que deveria ser de R$ 45 milhões, foi para R$ 119 milhões em 2026, após uma manobra no pregão eletrônico e o acréscimo de aditivo.
Ainda segundo Rede Amazônica, a concessionária apresentou proposta inicial de R$ 108 milhões. Durante a disputa, uma concorrente ofertou R$ 48 milhões para a prestação do serviço, levando a Hapvida a reduzir o lance para R$ 45 milhões, valor que garantiu a vitória.
Após o encerramento da licitação, uma decisão favorável no Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM) permitiu que o contrato com a Hapvida retornasse ao valor de R$ 108 milhões inicialmente proposto.
A documentação analisada também aponta que, em dezembro passado, a prefeitura manauara prorrogou o contrato com a seguradora por mais 12 meses. Além disso, foi autorizado um aditivo de 10%, o que elevou o valor total da contratação para R$ 119 milhões.
Em nota, a Hapvida informou que a licitação foi regularmente publicada em dezembro de 2023, com realização de pregão eletrônico em janeiro de 2024, em conformidade com a legislação e com ampla concorrência. A companhia venceu o certame de forma legítima, disse ainda a nota.
