A Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência será realizada em todo o Brasil entre 1º e 8 de fevereiro. A data, prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente, coloca em pauta os desafios constantes para a manutenção dos direitos de jovens, além da ampliação de debates e o incentivo à educação sexual.
O projeto acontece em meio ao número elevado de gravidezes precoces, responsáveis por revelar uma profunda desigualdade social e de acesso à informação em diversas regiões do território nacional.
Um estudo recente publicado pelo Observatório da Saúde Pública no final de 2025 apontou que uma em cada 23 adolescentes entre 15 e 19 anos se torna mãe ao ano. A taxa é considerada significativamente alta quando comparada com países desenvolvidos, onde apenas uma em cada 90 jovens dessa faixa etária faz essa transição para a maternidade atualmente.
Órgãos especializados e profissionais apontam riscos para a gestante
A professora de psiquiatria da infância e adolescência da Afya Educação Médica de Montes Claros, Dra. Carla Caroline Vieira, alerta que a gravidez durante a juventude, principalmente antes dos 15 anos, representa “uma crise no desenvolvimento que força uma sobreposição de papéis para a qual a jovem não possui maturidade psíquica ou neurológica”.
Associação Internacional de Psiquiatria da Infância e da Adolescência (IACAPAP), por sua vez, alerta que a gestação nessa idade é considerada um alto risco biopsicossocial. O órgão aponta que, nesta faixa etária, o cérebro está em processo de mielinização (especialmente o córtex pré-frontal, responsável pelo julgamento e controle de impulsos).
Por causa disso, o estresse tóxico causado durante esse período pode ocasionar três fatores:
- Interrupção do Desenvolvimento: A menina é forçada a saltar a fase de exploração, individuação e socialização com pares para assumir um papel de cuidadora adulta. Isso gera um “luto” pela infância perdida.
- Transtornos de Ansiedade e Humor: O medo do parto (tocofobia), a vergonha social e a rejeição familiar elevam o risco de quadros como transtornos ansiosos e episódios depressivos.
- Dissociação e Negação: Em meninas muito jovens, é comum a negação da gravidez até estágios avançados, um mecanismo de defesa psíquica contra uma realidade insuportável.
Além disso, entre 2020 e 2022, mais de 1 milhão de adolescentes tiveram filhos, incluindo mais de 49 mil meninas entre 10 e 14 anos, algo que, conforme a legislação brasileira, é classificado como estupro de vulnerável.
Gravidez na adolescência e os riscos da prematuridade neonatal.
A Dra. Carla reforça a necessidade de atenção ao possível desenvolvimento de Transtorno de Estresse Pós-Traumático, já que a gravidez pode funcionar como uma materialização contínua do trauma. Outros fatores destacados foram o sofrimento psíquico e o medo intenso, gerado principalmente em crianças entre 10 e 12 anos.
Já a médica ginecologista e professora da Afya Itajubá, Dra. Júlia Reis, esclarece que a gravidez em garotas muito jovens está associada ao risco de parto prematuro e outras complicações obstétricas, levando em conta o sistema reprodutor pouco desenvolvido.
“O útero pode não estar totalmente desenvolvido e o sistema hormonal ainda não se encontra plenamente regulado, já que o eixo hormonal da paciente não amadureceu por completo. Por essas razões, trata-se de uma gestação de alto risco. Em extremos de idade, há maior risco de abortamento, de pré-eclâmpsia e de mola hidatiforme, que é um tipo de malformação. Esses riscos são mais frequentes em meninas muito jovens, especialmente abaixo dos 16 anos.”
A ginecologista também afirma que o principal risco ligado ao bebê está relacionado com a prematuridade extrema. O risco de nascimento antecipado pode existir caso o colo uterino seja extremamente curto, o que pode gerar a necessidade de internação do recém-nascido na UTI neonatal por desnutrição, falta de peso, etc.
