O começo do ano costuma virar ponto de partida para voltar à academia, correr na rua ou retomar um esporte. O problema aparece quando o entusiasmo atropela a segurança. No Janeiro Dourado, médicos alertam que treinar sem check-up pode esconder riscos.
A campanha chama atenção para dois pontos que passam despercebidos: lesões por sobrecarga e problemas no coração. Eles podem surgir quando a intensidade sobe de forma brusca, sobretudo em quem estava sedentário.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta a inatividade física como um dos principais fatores de risco para doenças crônicas e estima milhões de mortes por ano no mundo. No Brasil, dados do Ministério da Saúde indicam que quase metade dos adultos é insuficientemente ativa.
Por que janeiro concentra mais lesões
O movimento nas academias aumenta, as inscrições em corridas de rua disparam e o esporte recreativo ganha espaço nas férias. O efeito colateral é previsível, mais gente se machuca. Em geral, isso ocorre por falta de preparo e progressão de carga.
Segundo o ortopedista Nivaldo Cardozo, coordenador do Serviço de Ortopedia do Hospital Mater Dei Salvador (HMDS) e do Hospital Mater Dei EMEC (HMDE), a procura por atividade física em janeiro costuma vir com alta no número de lesões.
“O entusiasmo do início do ano é positivo, mas precisa ser equilibrado. Lesões musculares, entorses, tendinites e dores articulares são comuns quando há excesso de carga, falta de preparo físico ou execução inadequada dos movimentos”, explica Cardozo.
Na prática, o erro mais comum é tentar compensar o tempo parado em poucos dias. Quem ficou meses sedentário aumenta volume e intensidade rápido demais, repete movimentosiscos e ignora sinais como dor persistente e limitação de mobilidade.
Nesse cenário, medidas simples de prevenção, como aquecimento e ajuste gradual do treino, costumam reduzir afastamentos e dores, como apontado nesta reportagem sobre cuidados para evitar lesões comuns no verão.
Avaliação ortopédica ajuda a prevenir afastamentos
Para Cardozo, a avaliação ortopédica antes de começar, ou intensificar, o treino funciona como um mapa do corpo. Ela ajuda a identificar limitações articulares, desequilíbrios musculares e alterações posturais que podem virar lesão quando a carga sobe.
“O objetivo não é impedir a prática esportiva, mas adaptar o exercício à realidade de cada corpo. Quando respeitamos esse limite, evitamos afastamentos prolongados e até a necessidade de procedimentos cirúrgicos”, afirma.
Orientação adequada, fortalecimento muscular e progressão gradual de carga reduzem o risco de lesões em musculação, corrida e esportes coletivos. O histórico de dores antigas também pesa, como lombalgia recorrente, joelho sensível ao subir escadas e torções mal reabilitadas.
Saúde do coração entra no radar do Janeiro Dourado
O alerta do Janeiro Dourado não fica só no risco ortopédico. A campanha também chama atenção para o sistema cardiovascular, porque exercícios mais intensos podem desencadear eventos cardíacos em pessoas sedentárias ou com fatores de risco.
A cardiologista Marianna Andrade, coordenadora do Serviço de Cardiologia do HMDS, lembra que o corpo pode dar poucos sinais antes de um problema aparecer. “Muitas vezes, o indivíduo se sente disposto, mas desconhece condições como hipertensão, arritmias ou doença coronariana silenciosa”, explica.
Ela reforça que a avaliação cardiológica é um passo de segurança antes de treinos mais pesados. “Exames simples, como eletrocardiograma, teste ergométrico ou avaliação clínica, ajudam a identificar riscos e orientam a prática segura do exercício”, destaca.
Em situações específicas, o esforço pode revelar arritmias e outras condições que estavam “quietas”, como mostra esta matéria sobre arritmia e impacto na prática esportiva.
O que costuma aumentar o risco ao treinar
Nem todo mundo precisa do mesmo tipo de avaliação, mas alguns fatores pedem atenção redobrada. Sedentarismo, idade e histórico familiar podem elevar o risco quando o treino começa no máximo.
Também merecem cuidado quem tem hipertensão, colesterol alto, diabetes, sobrepeso, tabagismo ou sintomas como falta de ar fora do normal, palpitações e dor no peito. Nesses casos, o check-up vira parte do plano de treino.
Situações comuns que elevam o risco: voltar em alta intensidade após meses parado; aumentar carga e volume sem progressão; insistir em dor articular persistente; ter pressão alta ou histórico familiar; ignorar tontura, palpitações e falta de ar anormal.
Medicina do esporte: quando ortopedia e cardiologia trabalham juntas
Para quem quer treinar com regularidade e segurança, a campanha destaca a integração entre áreas. A ideia é alinhar prevenção de lesões, condicionamento e proteção cardiovascular, especialmente quando o objetivo é aumentar performance e intensidade.
Segundo o cardiologista do Esporte do HMDS, Eduardo Lisboa, o acompanhamento multidisciplinar ajuda a individualizar o plano. “O exercício físico é um poderoso aliado da saúde, desde que seja individualizado. Quando há acompanhamento médico, os benefícios superam amplamente os riscos”, conclui.
Isso envolve ajustar carga, frequência, descanso e técnica ao histórico de cada pessoa. Em vez de repetir o treino do colega, o caminho mais seguro é construir consistência e evolução gradual, com orientação e metas realistas.
Como começar a treinar com mais segurança em janeiro
Para sair do sedentarismo, o melhor começo costuma ser simples, caminhada, fortalecimento e progressão aos poucos. Para quem já treina, a dica é resistir à pressa de compensar e priorizar constância e técnica.
O recado vale para o ano inteiro, mover o corpo faz bem, mas o corpo precisa de contexto. Com avaliação ortopédica e cardiológica, quando indicada, a chance de abandonar o treino por dor ou susto diminui.
O entusiasmo de janeiro pode ser o empurrão que faltava. Com check-up, orientação e progressão gradual, a promessa de ano novo tem mais chance de virar hábito que dura.
