Já disse em algumas oportunidades, inclusive nesta coluna, que gosto mais de Copa do Mundo do que da seleção brasileira, apesar de sempre torcer pelo sucesso do Brasil. O sonho do hexa continua e a Copa termina domingo, entregando muito do que se esperava.
É interessante observar que as zebras dão as caras em todas as edições, mas quase sempre a final é disputada pelas mesmas seleções tradicionais. Apesar da epopeia de Marrocos, o jogo duro da Croácia – que já pode ser considerada uma seleção pedra no sapato – valeu a tradição e teremos uma grande final entre França X Argentina, que muitos colocaram como possível decisão nos bolões da vida. Dentro de alguns dias teremos uma nova seleção tricampeã do mundo, o que é muito interessante.
No primeiro texto que falei sobre Copa por aqui, admiti que não seria incômodo nenhum ver Lionel Messi campeão do mundo com a seleção argentina. Não nutro nenhum tipo de rivalidade com os argentinos. Um duelo entre Brasil X Argentina numa semifinal teria tudo para ser o maior jogo da história das Copas. Seria maravilhoso ganhar. Não pela rivalidade, mas pela tradição das duas seleções, as maiores do continente sul-americano.
A culpa desse jogo não existir é “nossa”. Os hermanos fizeram a parte deles e muito bem. Paramos numa Croácia fria e pouco inspirada. Ainda é difícil apontar o que aconteceu e querer eleger culpados. Talvez a figura do treinador seja tão importante no futebol, justamente para simplificar a bronca num momento de dor na derrota, ainda mais da forma como foi.
Ainda assim, aposto que versões sobre a derrota virão à tona e alguma narrativa vai acabar emplacando.
Dá minha parte, mantenho todas as críticas que fiz aos métodos de escolha de Tite com relação ao elenco. Escolhas pontuais, como o descaso com o futebol jogado no Brasil, que vive um momento interessante com Palmeiras e Flamengo dominando o cenário sul-americano, mas que tiveram seus mais decisivos jogadores ignorados por Tite ao longo do tão importante e falado CICLO do treinador. Gabigol, Scarpa e Dudu, além do goleiro Cássio, do Corinthians, deveriam ter espaço na seleção.
Confesso não ver muita diferença entre jogadores que atuam em clubes medianos da Europa e jogam na seleção, como Paquetá, do West Ham e Bruno Guimarães, do Newcastle. Não contesto especificamente a convocação desses jogadores, mas sim a supervalorização de atletas que atuam em clubes que não são protagonistas, em detrimento a outros que estão acostumados a grandes decisões como finais de Libertadores. Mesmo que o próximo técnico seja estrangeiro, ideia que defendo, é preciso acabar com essa cultura de que apenas o jogador que atua em solo europeu é o que presta.
Outro fator que me incomoda é essa história de ciclo de Copa. Uma preparação que dura longos quatro anos, onde muita coisa muda. Querer criar um elenco sólido e entrosado nessa eternidade é ignorar a melhor liberdade que um treinador de seleção pode ter, que é justamente contar com qualquer jogador da nacionalidade do país. Se apegar a ciclos e ignorar o momento de cada jogador, me parece uma grande bobagem.
A sensação da Copa, Marrocos, arrumou um treinador poucos meses antes do torneio. O motivo? O até então técnico, que classificou a seleção pra Copa, era brigado com os principais jogadores de Marrocos, de fora do tal ciclo até então. A solução? Sai o treinador, entram os craques. E o novo ciclo, de apenas 3 meses, levou Marrocos a fazer história, sendo a primeira seleção africana a chegar numa fase de semifinal da Copa.
O que o Tite conseguiu em um longo ciclo de 6 anos? Parar duas vezes na fase de quartas de final, com a mais tradicional seleção do mundo, de fora de uma final desde 2002.
Querem culpar a dança, os cabelos, a carne de ouro, mas a Copa do Mundo é definida nos detalhes, nas pequenas escolhas, num torneio de apenas 7 jogos para o campeão. Um ciclo de 6 anos não cabe num torneio tão curto.
Deixando a seleção de lado, a exaltação do futebol através de histórias individuais, é o que mais me encanta numa Copa do Mundo. Imaginar uma consagração de Lionel Messi como o maior pós Pelé e Maradona (pra não ficar entrando em polêmica) me parece a principal história a ser contata por essa Copa, que marca justamente a saída de cena dos personagens que fizeram o futebol dos últimos 15 anos.
A última Copa de Messi e Cristiano Ronaldo. O argentino continua sonhando acordado com a consagração máxima, uma obsessão, enquanto o gajo ficou pelo caminho e ainda com o gosto amargo de ter virado reserva ao longo do torneio. Para muitos, a última dança de ambos em Copas foi determinante para cravar a superioridade de Lionel pra cima de CR7. Tem quem ache que apenas o título colocará Messi um degrau acima de Ronaldo. Não vejo dessa forma.
E acredito que a Argentina terá de fazer um jogo perfeito para ser campeã do mundo, enquanto do outro lado, Mbappé terá de ter uma jornada ruim para perder o título. Apesar da força criada pelos argentinos ao longo do torneio, com Lionel ganhando ótimos coadjuvantes como Enzo Fernández e Julian Álvarez, vejo a França mais pronta para ser campeã de novo. Quero estar enganado. Ver Messi campeão seria o ápice pra quem ama o futebol mais do que tudo.
Independente do resultado domingo, essa final representa uma passagem de bastão. Messi e Mbappé representam exatamente o que de melhor temos no futebol. O passado, o presente e o futuro em campo. Neymar, aos 30, queria ser Messi, ficou no meio do caminho entre o argentino e o francês, e vai assistir a Copa do Mundo da casa dele, fazendo festa. Escolhas. Messi, aos 36 anos, carrega uma nação nas costas e ainda sonha com a maior glória da carreira. Mbappé, com quase 24, pode ser bicampeão do mundo como protagonista. Algo surreal. Neymar nunca jogou uma semi-final de Copa.
Quem vencer domingo, será eleito o melhor jogador da Copa. Mbappé e Messi tiveram desempenhos parecidos no torneio. Protagonistas. Será uma passagem de bastão daquelas.
E pra você que chegou até aqui, vai minha seleção da Copa, antes da final:
Bounou (Marrocos)
Hakimi (Marrocos)
Gvardiol (Croácia)
Otamendi (Argentina)
Theo Hernandez (França)
Amrabat (Marrocos)
Tchouaméni (França)
Griezmann (França)
Enzo Fernandez (Argentina)
Messi (Argentina)
Mbappé (França)
