Lembro de um momento em que jornalistas e críticos cobravam por posicionamentos firmes dos jogadores brasileiros em relação a temas sociais, que fazem parte do debate político. Não faz tanto tempo assim. A cobrança veio depois dos atletas da NBA entrarem com tudo no movimento Black Lives Matter, que explodiu após o cruel assassinato de George Floyd pelas mãos da polícia dos Estados Unidos. Praticamente todos os jogadores protestaram e repudiaram o que aconteceu. Um dos maiores jogadores da liga, Lebron James, entrou de cabeça, usando uma camiseta com a frase “ I CAN´T BREATHE”, dita por Floyd enquanto era asfixiado pelos policiais.
Podemos dizer que o basquete nos EUA seria como o futebol por aqui. O esporte é praticado na rua por crianças e adolescentes. No Brasil, basta um par de chinelos e temos um golzinho na rua. O reflexo disso é que os jogadores, em sua maioria, têm a origem cravada na miséria. O futebol foi um meio de fugir da pobreza. Talvez o único para aqueles que conseguiram se profissionalizar e obter sucesso. Os jogadores da NBA parecem ter plena noção de onde vieram e que, se não fosse o basquete, o destino deles poderia ser parecido com o de George Floyd. Por isso a indignação.
Por que o mesmo não vale para os atletas brasileiros do futebol? Num país onde a polícia não raro é acusada de assassinar pessoas da pele preta que vivem em favelas – de onde vieram parte considerável desses jogadores – o silêncio impera no esporte mais popular do país.
Porém, nos últimos meses, o tão esperado posicionamento começou a aparecer por parte de atletas e ex-jogadores. E não é exatamente o que gostaríamos de ver, sabendo justamente da origem dessas pessoas. O período eleitoral mais crítico de todos os tempos levou o futebol, o esporte do povo, para o campo da extrema-direita. Ouso dizer que, talvez, seja o segmento da sociedade mais homogêneo quando o assunto é o apoio ao atual presidente do Brasil e candidato à reeleição, Jair Bolsonaro.
É espantoso pensar que o jogador de futebol deseje isso. São inúmeras as falas públicas de Bolsonaro fazendo referência a grupos de extermínio, de menosprezo ao pobre e à população negra e de exaltação às chacinas nos morros. Recentemente, no debate da Band, o candidato pareceu se referir à população do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, como traficantes que estavam ao lado do seu adversário, Luiz Inácio Lula da Silva, numa generalização absurda. Fala que deveria indignar qualquer brasileiro, mas principalmente aqueles que vivem ou já viveram numa favela. Porém, nada muda o apoio maciço vindo dos jogadores a Jair Bolsonaro.
É difícil entender, mas é possível trazer algumas questões que se aproximam de uma explicação para esse fenômeno. Acredito que o ponto central esteja numa obviedade, que é a questão da educação. Não tenho síndrome de vira-lata e nem estou aqui pra ficar exaltando um país como os Estados Unidos, mas é inegável que falhamos na educação do nosso povo. Bolsonaro é mais uma consequência disso.
Sendo breve: enquanto por lá a prática esportiva e a formação intelectual andam de mãos dadas, por aqui é preciso abdicar de um para conseguir obter sucesso no outro. Dificilmente vamos encontrar um jogador que concluiu o ensino médio, enquanto lá, dificilmente vamos encontrar um atleta que não é oriundo do meio escolar e acadêmico, simplesmente por conta de um método que estimula o atleta a ter um desempenho satisfatório em sala de aula para ter espaço no time e se desenvolver como jogador.
É muito difícil agregar consciência de classe e origem em um indivíduo que passou longe de uma aula de sociologia, que nunca teve a oportunidade de estudar a história do seu país e nem de aprender formalmente a língua portuguesa. Eu, como uma pessoa branca que teve acesso a todo tipo de informação através de livros e professores, dentro de uma estrutura que me permitiu estudar em escola particular, tenho mais obrigação de furar minha bolha de privilégios e lutar por um mundo mais igual do que um jogador de futebol.
Aí entramos no segundo ponto. A rápida ascensão social desses atletas cria uma nova bolha que afasta o jogador de suas origens. O excesso de dinheiro rompe automaticamente qualquer laço com a origem humilde. A partir do momento que o cara consegue tirar a família da quebrada, o elo está rompido. Ele venceu, aquilo não pertence mais a ele. O alto salário permite ações filantrópicas que permeiam o sono dos justos. Os amigos já não são os mesmos, quem ficou para trás é porque escolheu o caminho errado. Agora aquele garoto de origem humilde é cercado de bajuladores, gente branca, com grana, que o tratam como um ser especial, diferente dos que não conseguiram sair da favela. Romper com tudo isso parece algo bem difícil.
É importante lembrar também que o futebol é um segmento estruturalmente racista, mesmo que formado em boa parte por atletas negros. Fora de campo, o esporte é tocado por dirigentes e empresários brancos, donos da grana. Como explicar a ausência de treinadores e presidentes de clubes negros na elite do nosso futebol? O racismo estrutural explica. Mas por qual motivo os jogadores se rebelariam contra isso, se estão enchendo o bolso de dinheiro como operários da bola? Onde está o racismo se ele tem tantos amigos brancos?
Por último e mais importante, a religião jogou o atleta no colo do bolsonarismo. E todos os pontos expostos nesse texto levam a essa conclusão final. A rápida ascensão de um indivíduo sem estrutura gera grandes questões comportamentais. Do dia pra noite, o menino pobre de 17 anos assina um contrato que vai render muita grana, quase que infinita num primeiro momento. Aquele ser que nunca teve estrutura e educação passa a viver um novo mundo cheio de armadilhas e dificilmente não vai se perder. O reflexo vem dentro de campo. É quando entra a religião. Um refúgio para quem se perdeu, a chance de se reencontrar, e entregar a carreira nas mãos de Deus.
Não vejo problema nenhum nisso. De fato, a igreja é um mecanismo importante na recuperação do ser humano, ainda mais na ausência do estado. O grande problema é que, nos últimos tempos, a fé cristã foi sequestrada pela ideologia bolsonarista, que passa longe da essência de Jesus Cristo, mas que foi incorporada nas igrejas. Parte dos pastores deixou de ser apenas um guia espiritual e, incorporado ao bolsonarismo, passou a ser um guru comportamental para os fiéis. Ir contra a autoridade de uma congregação significa a exclusão para o fiel. A louca vida de um jogador de futebol que ascendeu rapidamente, o coloca no colo da igreja, que por sua vez está no colo da ideologia bolsonarista. É possível detectar através das redes sociais a presença constante de pastores que realizam cultos dentro das concentrações e centros de treinamentos. Para o jogador, estar inserido ali é estar inserido no grupo, é estar entrosado com o time dentro e fora de campo. E repito: o problema não está na fé. Ela é importante. A questão é como ela vem sendo usada como instrumento para a manutenção e consolidação de uma ideologia destrutiva, que passa longe dos ensinamentos de Cristo.
Creio que essas questões apontam para o apoio tão grande por parte de atletas e ex-jogadores ao presidente Bolsonaro, mesmo depois de uma gestão irresponsável e catastrófica durante a pandemia. Figuras como os ex-jogadores Raí, Casagrande, Craque Neto e Juninho Pernambucano são raríssimas. E é possível contar nos dedos os atletas em atividade que se posicionam contra o atual governo. No momento, consigo lembrar apenas do lateral Igor Julião, que está no futebol português, e do atacante Paulinho, ex-Vasco, que está na Alemanha. Richarlison, atacante da seleção, não se posiciona claramente na política, mas tem falas e atitudes que também o colocam no campo progressista.
Mesmo tendo plena consciência do comportamento de manada dos atletas, me espanta um pouco o engajamento do principal jogador brasileiro em atividade, Neymar, na campanha de reeleição do atual presidente. Seja qual for o motivo, não me parece inteligente da parte dele tomar partido a menos de um mês pra Copa, com o país claramente dividido. Confesso que meu ânimo em torcer pela seleção baixou bastante desde que nosso craque resolveu virar cabo eleitoral de uma figura que considero caótica, mentirosa e desumana.
Essa é uma eleição que vai muito além de uma escolha política. Estamos falando de uma escolha humana. Achar que falta humanidade ao nosso camisa 10 me entristece e me desanima. Quem sabe isso possa mudar a partir do próximo domingo. Queremos pacificar o Brasil e a torcida pela seleção na Copa pode ser vital para isso, mas é preciso que os fatores externos colaborem.
