Após o dia 02 de outubro de 2022 estabeleceu-se o abrasamento no debate a respeito da exatidão dos levantamentos de opinião pública com a finalidade de constatar “a fotografia do momento”, além de gerar prognósticos a respeito das contendas eleitorais. Asseclas transfigurados em arautos de uma determinada postulação ao cargo de Presidente da República, imbuídos de inúmeras convicções, mas sem qualquer conhecimento lastreado no rigor científico, lançaram-se na contestação sobre a validade desse instrumento na tarefa de mensurar com precisão os cenários em concursos.
Portanto, perante tantas elucubrações erráticas, considero conveniente propor reflexão sobre essa temática, com algumas considerações que qualifiquem as argumentações e explicitem as adversidades encontradas por todos aqueles que se dedicam exaustivamente a essa atividade.
Primeiro: as concepções das campanhas eleitorais modernas, especificamente as registradas a partir da virada do século XXI, foram notabilizadas por profissionais de marketing político que se apropriaram das aferições como instrumento fundamental na construção de narrativas, circunstância que comprometeu a isenção prática e a neutralidade axiológica na elaboração metodológica das sondagens.
Segundo: a fadiga sistêmica e conceitual vem prejudicando demasiadamente a acuidade dos dados compilados e comprometendo o vínculo fático dos trabalhos executados, uma vez que traz consigo a similaridade absoluta com as verificações desenvolvidas desde o período da redemocratização da nação, quando a divulgação dos embates se restringia à cobertura das redes de televisão aberta e emissoras de rádio, circunstância imensamente diferente do universo amplificado das redes e tribos sociais.
Terceiro: a obrigatoriedade de registro na Justiça Eleitoral tem estimulado as impugnações de formulários e contestações de planos amostrais, fato que promove o engessamento de processos experimentais que conseguiriam render a modernização de procedimentos e facilitar o avanço técnico-científico.
Quarto: para finalizar, a ausência de normas que obriguem as empresas de pesquisa a tornarem públicas as suas vinculações partidárias e políticas firmadas durante a disputa do pleito.
Todavia, não podemos transformar as publicações dos índices de intenção de voto em matéria típica da inquisição que levou Giordano Bruno à fogueira, ou seja, não devemos nos tornar vassalos medievais raivosos vociferando contra fenômenos que não compreendemos com clareza, por serem meramente estimulados pelo senhor feudal de plantão. Em outros termos, tal como em estudos de tendências econômicas, a oscilação no comportamento humano invariavelmente trará a necessidade duradoura de realinhamento nas previsões em decorrência de desvios de origens naturais, ocasionais ou temporais.
À vista disso sou capaz de dizer que as causas elencadas são as prováveis responsáveis pelos desvios que superaram as margens de erro dentro dos coeficientes de confiança previstos no instante da difusão jornalística. Assim, me parece que Karl Marx continua como meio cognitivo confiável na apreensão das dinâmicas sociais – “O constante revolucionar da produção, a ininterrupta perturbação de todas as relações sociais, a interminável incerteza e agitação distinguem a época burguesa de todas as épocas anteriores. Todas as relações fixas, imobilizadas, com sua aura de ideias e opiniões veneráveis, são descartadas; todas as novas relações recém-formadas tornam-se obsoletas antes que se ossifiquem. Tudo que é sólido desmancha no ar, tudo que é sagrado é profanado, e os homens são finalmente forçados a enfrentar com sentidos mais sóbrios suas reais condições de vida e sua relação com outros homens”.
Nilton C. Tristão
Cientista político
