Os passageiros do transporte público em São Paulo estão acostumados com greves, panes e atrasos. Não só pela paralisação dos motoristas e cobradores de ônibus esta semana, o cotidiano do paulistano que depende de condução é sempre sofrido. Paga-se caro para atravessar a cidade de um lado ao outro e a esmagadora maioria dos trabalhadores precisa percorrer grandes distâncias para chegar ao local de trabalho. Saem das periferias e regiões mais afastadas do centro da Capital e precisam de duas ou mais conduções.
Ciente do grande desafio que é a mobilidade urbana em uma megalópole como São Paulo, o poder público tenta modernizar o serviço desde 2013, quando o então prefeito Fernando Haddad (PT) tentou, sem sucesso, realizar a licitação para contratar o serviço de ônibus para a cidade. O processo se arrasta desde lá e a prefeitura já gastou
R$ 15 bilhões com contratos emergenciais.
O mais novo capítulo desta novela é a nova licitação proposta por Bruno Covas (PSDB). Considerado o mais cara do País, no valor de R$ 71 bilhões, o projeto que prevê redução do número de ônibus e também a diminuição da quantidade de linhas, foi barrado pela Justiça. Um dos pontos contestados pelo Tribunal de Contas do Município (TCM), é o prazo de 20 anos de validade do contrato. Antes, a lei previa 15 anos. A extensão do prazo foi proposta pelos vereadores. O legislativo paulistano tem forte representação dos donos das empresas de ônibus da cidade. Antes de ser barrada, em maio deste ano, a prefeitura divulgou o as empresas que ganharam a licitação são as mesmas que já operam na cidade há décadas. Sem conseguir tirar a licitação do papel, a prefeitura começou a fazer algumas das mudanças previstas do edital, como diminuir o número de ônibus das linhas e reorganizar o sistema. Menos ônibus circulando, mas de uma forma mais eficiente é o que a prefeitura prevê, além disso a tecnologia deve contribuir em outros pontos como a cobrança automatizada. Progresso aliado à automação significa na prática desemprego, assim como acontece em outros setores. Do lado dos empresários do setor, pesa o alto custo do investimento em tecnologia e em veículos menos poluentes, como prevê a licitação. O impasse sobre o futuro do transporte na cidade criou um clima de tensão. Temendo demissões e crise financeira das empresas, motoristas e cobradores resolveram parar o transporte esta semana, prejudicando milhares de passageiros. Pressionado Covas disse que deve reduzir o prazo do contrato para 15 anos. Se o TCM não barrar o processo novamente, a licitação desta vez deve sair do papel, mas na prática só deve garantir que o transporte não pare. Já a modernidade deve demorar a chegar.