O Brasil é o país com a maior população negra do mundo depois da Nigéria, com 116 milhões de pessoas autodeclaradas pretas ou pardas, segundo o IBGE. Somos, ao mesmo tempo, uma das nações que parecem mais ter dificuldade para analisar e discutir o racismo e as suas consequências. É um assunto escondido, velado, deixado para depois. Uma hora, porém, não dará mais para o Brasil fingir que a conversa não é consigo.
Dos 520 anos desta nação, pelo 350 foram vividos sob o signo da escravidão, uma violência comparada às piores atrocidades da humanidade. A duração foi longa, com direitos a muitas revoltas dos escravizados, e teve seu fim oficial em 1888, após a assinatura da Lei Áurea. E sem direito a nenhuma política de reparação.
Pior: em vez de serem integrados ao “mercado de trabalho” que havia à época, os fazendeiros e industriais passaram a importar mão de obra europeia. Aos negros, na grande maioria, sobraram a pobreza da pobreza, os piores bairros e vilarejos e o estigma.
A política de cotas para pretos e pardos foi a primeira ação pública que iniciou uma transformação de uma realidade tão desigual. Elas sozinhas, porém, ainda são pouco quando se vê favelas cheias de pretos e pardos e bairros nobres parecendo uma filial de alguma cidade europeia.
Qualquer pessoa pobre, branca ou negra, tem dificuldades sociais, é evidente. Mas o racismo traz características específicas que afetam não só o bolso, mas também a confiança, a auto-estima e a segurança física dos negros. Esse grupo é lembrado quase diariamente que é negro, seja porque alguém atravessou a rua com medo de assalto ou por receber qualquer estereotipização disfarçada de elogio.
Pois bem. Há pouco mais de uma semana uma onda de protestos tomou conta dos Estados Unidos após a morte do negro George Floyd, acusado de cometer um crime. Um policial branco se ajoelhou sobre seu pescoço e não saiu de lá, mesmo com o homem suplicando que não conseguia respirar. Floyd morreu, e os Estados Unidos – e depois o mundo – pegaram fogo.
Desde então, brasileiros também prestam solidariedade aos protestos norte-americanos. Entre esses, diversas pessoas que passaram a vida dizendo que se levantar contra o racismo é “mimimi” e que davam justificativa a violências injustas sofridas pelos negros. Não podemos esquecer de Floyd. E nem da nossa história escravocrata. E sequer deixar de lembrar de João Pedro, Agatha, os 9 jovens do baile de Paraisópolis e tantos outros brasileiros que perderam a vida de forma violenta e que, por coincidência, tinham a mesma cor.
