A imagem mais conhecida do sertão costuma ser marcada pelo solo seco, pela caatinga e por longos períodos de pouca chuva. Em Petrolina, porém, basta se aproximar do Rio São Francisco para encontrar uma paisagem bem diferente.
Às margens do Velho Chico, extensas áreas verdes avançam pelo semiárido pernambucano. Parreirais, mangueiras e outras plantações ocupam terras irrigadas onde a produção agrícola se tornou uma das principais forças econômicas da região.
Foi essa combinação entre sol praticamente o ano inteiro, água disponível e técnicas de irrigação que ajudou Petrolina a conquistar uma característica rara no Brasil: a possibilidade de produzir uvas em diferentes períodos do ano e realizar até duas colheitas anuais.
O resultado também transformou a experiência de quem visita a cidade. Hoje, vinhedos, passeios pelo rio, gastronomia sertaneja e uma estrutura urbana movimentada dividem espaço em um destino que passou a ser conhecido como parte da chamada “Califórnia Sertaneja”.
O rio mudou Petrolina
O São Francisco está no centro dessa transformação. Além de marcar a paisagem, suas águas sustentam os sistemas de irrigação responsáveis por tornar produtivas áreas inseridas em pleno clima semiárido.
Na cidade, essa relação com o rio também aparece fora das plantações. A Orla de Petrolina reúne bares, restaurantes e áreas para caminhada, enquanto a Ponte Presidente Dutra atravessa o São Francisco e conecta o município a Juazeiro, na Bahia.
A agricultura irrigada ajudou ainda a movimentar hotéis, restaurantes, comércio e outros serviços. Com o crescimento da produção de frutas e uvas, propriedades rurais começaram a abrir as portas para visitantes interessados em conhecer de perto uma atividade pouco associada, à primeira vista, ao sertão.
Uvas em pleno semiárido
Nos vinhedos do Vale do São Francisco, o calendário funciona de maneira diferente daquele encontrado em regiões tradicionais produtoras de vinho.
A combinação de luminosidade intensa e irrigação controlada permite organizar os ciclos das videiras e chegar a até duas colheitas de uva por ano. Essa característica fez do vinho um dos elementos mais curiosos do turismo local.
Entre os passeios associados à produção estão visitas a vinícolas como Rio Sol e Miolo. Outro roteiro conhecido é o Vapor do Vinho, que combina navegação pelo Lago de Sobradinho com experiências relacionadas às uvas e à fabricação de vinhos.
É nesse cenário que surgiu a comparação com a Califórnia. Em vez de reproduzir a paisagem norte-americana, entretanto, Petrolina construiu uma versão própria, marcada pelo encontro dos parreirais com o São Francisco, o calor do sertão e as tradições nordestinas.
Muito além dos vinhedos
O vinho pode despertar a curiosidade, mas não resume uma viagem a Petrolina. A própria presença do rio criou outros pontos de interesse.
A Ilha do Fogo, situada entre Petrolina e Juazeiro, é procurada por visitantes para momentos de lazer próximos à água. No centro da cidade, a Catedral do Sagrado Coração de Jesus chama atenção pela arquitetura neogótica e pelos vitrais.
Quem procura uma experiência mais ligada à história regional encontra o Museu do Sertão, com referências ao cangaço, à religiosidade e à vida no campo.
Já no Balneário de Pedrinhas, restaurantes próximos ao São Francisco ajudam a aproximar o visitante da culinária local.
O sertão também está à mesa
A gastronomia é outra parte importante da identidade de Petrolina. No Bodódromo, complexo conhecido na cidade, pratos preparados com bode e carneiro ocupam lugar de destaque nos cardápios.
Peixes de água doce também aparecem nas mesas, ao lado justamente das frutas que ajudaram a projetar economicamente o Vale do São Francisco, como manga e uva.
Essa mistura talvez seja uma das melhores maneiras de entender Petrolina. O município não abandonou sua identidade sertaneja para se tornar uma região de vinhos e grandes plantações.
Fez o contrário.
Usou as águas do São Francisco para transformar parte de uma paisagem semiárida em uma das áreas agrícolas mais conhecidas do Nordeste. Hoje, o visitante pode atravessar vinhedos pela manhã, caminhar às margens do Velho Chico à tarde e terminar o dia diante de um prato típico sertanejo.
É justamente essa convivência entre elementos aparentemente tão diferentes que tornou Petrolina um destino difícil de encaixar na imagem tradicional do sertão.






