Califórnia sertaneja: oásis do sertão produz uvas duas vezes por ano e virou destino para quem quer conhecer vinhedos no Nordeste

No sertão pernambucano, águas do São Francisco ajudam a criar vinhedos, permitem até duas colheitas de uva por ano e impulsionam o turismo

Ilha do Fogo ocupa trecho do Rio São Francisco entre Petrolina e Juazeiro e integra a paisagem turística da região (Foto: Sitenl/Wikimedia Commons)

Ilha do Fogo ocupa trecho do Rio São Francisco entre Petrolina e Juazeiro e integra a paisagem turística da região (Foto: Sitenl/Wikimedia Commons)

A imagem mais conhecida do sertão costuma ser marcada pelo solo seco, pela caatinga e por longos períodos de pouca chuva. Em Petrolina, porém, basta se aproximar do Rio São Francisco para encontrar uma paisagem bem diferente.

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Às margens do Velho Chico, extensas áreas verdes avançam pelo semiárido pernambucano. Parreirais, mangueiras e outras plantações ocupam terras irrigadas onde a produção agrícola se tornou uma das principais forças econômicas da região.

Foi essa combinação entre sol praticamente o ano inteiro, água disponível e técnicas de irrigação que ajudou Petrolina a conquistar uma característica rara no Brasil: a possibilidade de produzir uvas em diferentes períodos do ano e realizar até duas colheitas anuais.

O resultado também transformou a experiência de quem visita a cidade. Hoje, vinhedos, passeios pelo rio, gastronomia sertaneja e uma estrutura urbana movimentada dividem espaço em um destino que passou a ser conhecido como parte da chamada “Califórnia Sertaneja”.

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O rio mudou Petrolina

O São Francisco está no centro dessa transformação. Além de marcar a paisagem, suas águas sustentam os sistemas de irrigação responsáveis por tornar produtivas áreas inseridas em pleno clima semiárido.

Na cidade, essa relação com o rio também aparece fora das plantações. A Orla de Petrolina reúne bares, restaurantes e áreas para caminhada, enquanto a Ponte Presidente Dutra atravessa o São Francisco e conecta o município a Juazeiro, na Bahia.

A agricultura irrigada ajudou ainda a movimentar hotéis, restaurantes, comércio e outros serviços. Com o crescimento da produção de frutas e uvas, propriedades rurais começaram a abrir as portas para visitantes interessados em conhecer de perto uma atividade pouco associada, à primeira vista, ao sertão.

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Uvas em pleno semiárido

Nos vinhedos do Vale do São Francisco, o calendário funciona de maneira diferente daquele encontrado em regiões tradicionais produtoras de vinho.

A combinação de luminosidade intensa e irrigação controlada permite organizar os ciclos das videiras e chegar a até duas colheitas de uva por ano. Essa característica fez do vinho um dos elementos mais curiosos do turismo local.

Entre os passeios associados à produção estão visitas a vinícolas como Rio Sol e Miolo. Outro roteiro conhecido é o Vapor do Vinho, que combina navegação pelo Lago de Sobradinho com experiências relacionadas às uvas e à fabricação de vinhos.

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É nesse cenário que surgiu a comparação com a Califórnia. Em vez de reproduzir a paisagem norte-americana, entretanto, Petrolina construiu uma versão própria, marcada pelo encontro dos parreirais com o São Francisco, o calor do sertão e as tradições nordestinas.

Muito além dos vinhedos

O vinho pode despertar a curiosidade, mas não resume uma viagem a Petrolina. A própria presença do rio criou outros pontos de interesse.

A Ilha do Fogo, situada entre Petrolina e Juazeiro, é procurada por visitantes para momentos de lazer próximos à água. No centro da cidade, a Catedral do Sagrado Coração de Jesus chama atenção pela arquitetura neogótica e pelos vitrais.

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Quem procura uma experiência mais ligada à história regional encontra o Museu do Sertão, com referências ao cangaço, à religiosidade e à vida no campo.

Já no Balneário de Pedrinhas, restaurantes próximos ao São Francisco ajudam a aproximar o visitante da culinária local.

O sertão também está à mesa

A gastronomia é outra parte importante da identidade de Petrolina. No Bodódromo, complexo conhecido na cidade, pratos preparados com bode e carneiro ocupam lugar de destaque nos cardápios.

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Peixes de água doce também aparecem nas mesas, ao lado justamente das frutas que ajudaram a projetar economicamente o Vale do São Francisco, como manga e uva.

Essa mistura talvez seja uma das melhores maneiras de entender Petrolina. O município não abandonou sua identidade sertaneja para se tornar uma região de vinhos e grandes plantações.

Fez o contrário.

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Usou as águas do São Francisco para transformar parte de uma paisagem semiárida em uma das áreas agrícolas mais conhecidas do Nordeste. Hoje, o visitante pode atravessar vinhedos pela manhã, caminhar às margens do Velho Chico à tarde e terminar o dia diante de um prato típico sertanejo.

É justamente essa convivência entre elementos aparentemente tão diferentes que tornou Petrolina um destino difícil de encaixar na imagem tradicional do sertão.