Os segredos da cidade inundada de propósito no Brasil

Vila Amaury abrigou 16 mil candangos e está debaixo d'água de propósito; uma joia arqueológica escondida pelas águas da capital

As ruínas da Vila Amaury repousam sob o Lago Paranoá, guardando a memória submersa dos 16 mil operários que construíram Brasília.

As ruínas da Vila Amaury repousam sob o Lago Paranoá, guardando a memória submersa dos 16 mil operários que construíram Brasília. | Beto Barata

Sob as águas do Lago Paranoá, a Vila Amaury resiste como uma “cidade fantasma” submersa que abrigou 16 mil operários da capital. Onde hoje barcos e lanchas deslizam, repousam ruínas e memórias dos candangos que ergueram Brasília. Um passado invisível que o tempo e o concreto não conseguiram apagar. 

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O êxodo forçado: água nos joelhos e pressa no adeus 

A Vila Amaury não era apenas um canteiro de obras; era uma cidade viva, com escolas, igrejas e um comércio estabelecido.

No entanto, sua localização geográfica, no fundo de um vale, selou seu destino desde o primeiro traço do projeto urbanístico. 

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Em 1959, com a conclusão da barragem, o inevitável aconteceu. A professora Maria Fernanda Derntl, da UnB, observa que a natureza do lugar era intrinsecamente provisória. 

Contudo, a transição foi dramática. Muitos moradores resistiram, exigindo garantias de moradia antes de abandonar seus lares.  

O ultimato da Novacap veio de forma literal: as famílias precisaram ser retiradas quando a água já batia nos joelhos. 

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O fechamento das comportas impôs um ritmo frenético. Registros do Arquivo Público do DF revelam que o nível da água subiu mais rápido que o previsto, forçando uma fuga desesperada.  

Hoje, no local, só se encontram alicerces de alvenaria, escadarias intactas, objetos pessoais, como sapatos e brinquedos. 

Mergulho no escuro: o desafio técnico da memória  

Para os entusiastas do mergulho, a Vila Amaury é a “Atlântida Brasileira”, mas explorá-la exige nervos de aço.  

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Os postes da Vila Amaury hoje iluminam apenas o silêncio no fundo do lago.Os postes da Vila Amaury hoje iluminam apenas o silêncio no fundo do lago. Foto: Beto Barata

O fotógrafo Beto Barata, que se especializou na modalidade para registrar o sítio, descreve um cenário de visibilidade restrita e mergulho técnico

“A visibilidade é baixa, o que torna o mergulho muito mais complexo e técnico que em outras regiões do país”, explica Barata.

A profundidade pode chegar a 40 metros próximo à barragem. Em suas expedições, Barata e outros mergulhadores já localizaram estruturas perdidas, como um antigo píer a quase 37 metros de profundidade, um monumento ao esforço humano que foi engolido pela modernização. 

‘Encheu, viu?’: a teimosia de JK 

A existência do Lago Paranoá foi fruto de uma obsessão pessoal de Juscelino Kubitschek. Para o fundador, uma Brasília sem sua “moldura líquida” era inconcebível. 

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O projeto enfrentou ceticismo técnico e político; críticos afirmavam que o solo não reteria a água e que o lago jamais passaria de um lamaçal seco. 

A construção, iniciada em 1957 pela americana Raymond Concrete Pile of the Americas, acabou tomando rumos diferentes. Após vistoriar o local e constatar atrasos, a Novacap determinou a rescisão do contrato e assumiu o comando da obra.  

A estatal dividiu as tarefas com construtoras brasileiras, como a Camargo Corrêa (responsável pela barragem principal), Rabello, Engenharia Civil e Portuária, além da CCBE e Rodobras. 

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Quando o vale finalmente se transformou em lago, JK não perdeu a oportunidade de alfinetar o colunista Gustavo Corção, do jornal O Globo, que não acreditava que o lago encheria por conta do terreno arenoso do Planalto Central.

O presidente enviou uma mensagem curta e direta: ‘Encheu, viu?” 

Hoje, enquanto a Ponte JK é celebrada como um ícone estético mundial, as fundações da Vila Amaury permanecem na escuridão do fundo do lago, servindo como um lembrete silencioso de que, para Brasília nascer, uma cidade inteira precisou submergir.