Os rios podem parecer eternos, mas eles também envelhecem, mudam de rota e, às vezes, desaparecem. Ainda assim, alguns sistemas resistem por um tempo difícil de imaginar.
Entre eles, um rio australiano leva o título de mais antigo do mundo ainda existente: o Finke, chamado de Larapinta na língua indígena Arrernte, com idade estimada entre 300 e 400 milhões de anos. Apesar de bonito, ele não chega a ser um dos mais transparentes do mundo.
Essa história começa no centro árido do continente, onde o curso d’água não se comporta como um rio “clássico” o ano todo. Na maior parte do tempo, ele se fragmenta em poços isolados, mas continua sendo o mesmo sistema.
Onde fica o rio mais antigo do mundo
O rio Finke integra uma rede de rios e canais que se estende por mais de 640 quilômetros pelo Território do Norte e pela Austrália Meridional.
Como a região é seca, a água corre de forma intermitente. Em muitos meses, o Finke aparece mais como uma sequência de pontos d’água do que como um fluxo contínuo.
Mesmo assim, o sistema é tratado como um rio antigo porque seu traçado e seus depósitos preservam sinais de uma história muito longa no relevo e nas rochas ao redor.
Por que os cientistas estimam 300 a 400 milhões de anos
Para chegar a essa faixa de idade, pesquisadores combinaram registros geológicos, perfis de intemperismo e medições de radionuclídeos em sedimentos e rochas do entorno.
Com esses dados, o sistema foi datado entre o período Devoniano (419 milhões a 359 milhões de anos atrás) e o Carbonífero (359 milhões a 299 milhões de anos atrás).
Em outras palavras, é um rio que já existia muito antes dos dinossauros aparecerem, num planeta com ambientes e climas bem diferentes dos atuais.
A pista mais forte está no caminho “improvável” do Finke
Uma das evidências centrais é uma anomalia geológica chamada drenagem transversal. Em vez de seguir ao lado de rochas resistentes, o Finke corta formações duras ao cruzar a cordilheira MacDonnell.
Isso chama atenção porque “a água corrente” tende a buscar o caminho mais fácil. Cortar quartzito e atravessar estruturas resistentes parece contraintuitivo à primeira vista.
Para Victor Baker, geomorfólogo da Universidade do Arizona, a explicação está no passado do próprio relevo e na ordem em que as coisas aconteceram.
“Há indícios de que já existia uma drenagem pré-existente que fluía enquanto essa cordilheira se formava”, disse Baker à Live Science. “Isso se chama antecedente — basicamente, o rio já estava lá antes da formação das montanhas e, à medida que a crosta terrestre era elevada, o rio a escavava.”
Como as montanhas ajudam a datar o sistema
A cordilheira MacDonnell, chamada de Tjoritja em Arrernte, formou-se durante a Orogenia de Alice Springs, entre 300 e 400 milhões de anos atrás.
Se o rio já atravessava a área quando a crosta se elevou, ele precisa ser, no mínimo, tão antigo quanto esse evento tectônico associado à formação de montanhas.
Além disso, sinais de erosão e intemperismo deixam perfis químicos que registram como a superfície interagiu com a atmosfera e com o fluxo de água ao longo do tempo.
Ao medir assinaturas radioativas de isótopos e considerar que eles decaem em taxas fixas, cientistas estimam quando certas rochas e sedimentos se formaram.
Por que esse rio durou tanto tempo
Rios podem “sumir” quando são soterrados por sedimentos em grande volume ou quando a topografia muda a ponto de a água encontrar outro caminho.
“Os rios podem desaparecer se forem sobrecarregados por um influxo maciço de sedimentos (por exemplo, erupções vulcânicas) ou se a topografia mudar tão drasticamente que a água corrente tome um novo curso pela paisagem (por exemplo, avanço e recuo glacial)”, disse Ellen Wohl, geóloga da Universidade Estadual do Colorado, em um e-mail para o Live Science.
Wohl também lembra que clima e uso humano importam. “os rios podem parar de fluir devido às mudanças climáticas e/ou ao consumo humano de água”, disse Wohl.
No caso do Finke, a Austrália é descrita como uma paisagem estável por muito tempo. No centro da Placa Australiana, o continente quase não teve atividade tectônica significativa nos últimos 100 milhões de anos.
Com essa estabilidade, o sistema do rio Finke conseguiu se desenvolver e se expandir quase sem interrupções durante a maior parte de sua história.
O futuro do Finke e o “segundo colocado”
Mesmo um rio antigo não tem garantia de eternidade. A permanência depende do equilíbrio entre clima, relevo e o quanto de água é retirada do sistema.
“Rios de longa duração provavelmente continuarão a existir”, disse Wohl. No entanto, “muitos rios em terras secas” — como o Finke — “estão altamente alterados pelo consumo humano de água”.
Ela acrescentou que “é provável que isso aumente no futuro, à medida que o consumo global de água continue a crescer e o aquecimento global torne muitas regiões secas ainda mais secas”.
Se o Finke secar algum dia, o segundo lugar pode ficar com o rio New, que tem cerca de 300 milhões de anos e cruza a Virgínia, a Virgínia Ocidental e a Carolina do Norte.


