Conheça o rio mais antigo do universo, com belezas únicas

Sistema fluvial australiano tem 300 a 400 milhões de anos e desafia o "ciclo de vida" comum dos rios

Evidências geológicas e um traço raro no relevo ajudam a explicar por que o finke ainda existe

Evidências geológicas e um traço raro no relevo ajudam a explicar por que o finke ainda existe | Reprodução/Youtube

Os rios podem parecer eternos, mas eles também envelhecem, mudam de rota e, às vezes, desaparecem. Ainda assim, alguns sistemas resistem por um tempo difícil de imaginar.

Continua após a publicidade

Entre eles, um rio australiano leva o título de mais antigo do mundo ainda existente: o Finke, chamado de Larapinta na língua indígena Arrernte, com idade estimada entre 300 e 400 milhões de anos. Apesar de bonito, ele não chega a ser um dos mais transparentes do mundo.

Essa história começa no centro árido do continente, onde o curso d’água não se comporta como um rio “clássico” o ano todo. Na maior parte do tempo, ele se fragmenta em poços isolados, mas continua sendo o mesmo sistema.

Onde fica o rio mais antigo do mundo

O rio Finke integra uma rede de rios e canais que se estende por mais de 640 quilômetros pelo Território do Norte e pela Austrália Meridional.

Continua após a publicidade

Como a região é seca, a água corre de forma intermitente. Em muitos meses, o Finke aparece mais como uma sequência de pontos d’água do que como um fluxo contínuo.

Mesmo assim, o sistema é tratado como um rio antigo porque seu traçado e seus depósitos preservam sinais de uma história muito longa no relevo e nas rochas ao redor.

Por que os cientistas estimam 300 a 400 milhões de anos

Para chegar a essa faixa de idade, pesquisadores combinaram registros geológicos, perfis de intemperismo e medições de radionuclídeos em sedimentos e rochas do entorno.

Continua após a publicidade

Com esses dados, o sistema foi datado entre o período Devoniano (419 milhões a 359 milhões de anos atrás) e o Carbonífero (359 milhões a 299 milhões de anos atrás).

Em outras palavras, é um rio que já existia muito antes dos dinossauros aparecerem, num planeta com ambientes e climas bem diferentes dos atuais.

A pista mais forte está no caminho “improvável” do Finke

Uma das evidências centrais é uma anomalia geológica chamada drenagem transversal. Em vez de seguir ao lado de rochas resistentes, o Finke corta formações duras ao cruzar a cordilheira MacDonnell.

Continua após a publicidade

Isso chama atenção porque “a água corrente” tende a buscar o caminho mais fácil. Cortar quartzito e atravessar estruturas resistentes parece contraintuitivo à primeira vista.

Para Victor Baker, geomorfólogo da Universidade do Arizona, a explicação está no passado do próprio relevo e na ordem em que as coisas aconteceram.

“Há indícios de que já existia uma drenagem pré-existente que fluía enquanto essa cordilheira se formava”, disse Baker à Live Science. “Isso se chama antecedente — basicamente, o rio já estava lá antes da formação das montanhas e, à medida que a crosta terrestre era elevada, o rio a escavava.”

Continua após a publicidade

Como as montanhas ajudam a datar o sistema

A cordilheira MacDonnell, chamada de Tjoritja em Arrernte, formou-se durante a Orogenia de Alice Springs, entre 300 e 400 milhões de anos atrás.

Se o rio já atravessava a área quando a crosta se elevou, ele precisa ser, no mínimo, tão antigo quanto esse evento tectônico associado à formação de montanhas.

Além disso, sinais de erosão e intemperismo deixam perfis químicos que registram como a superfície interagiu com a atmosfera e com o fluxo de água ao longo do tempo.

Continua após a publicidade

Ao medir assinaturas radioativas de isótopos e considerar que eles decaem em taxas fixas, cientistas estimam quando certas rochas e sedimentos se formaram.

Por que esse rio durou tanto tempo

Rios podem “sumir” quando são soterrados por sedimentos em grande volume ou quando a topografia muda a ponto de a água encontrar outro caminho.

“Os rios podem desaparecer se forem sobrecarregados por um influxo maciço de sedimentos (por exemplo, erupções vulcânicas) ou se a topografia mudar tão drasticamente que a água corrente tome um novo curso pela paisagem (por exemplo, avanço e recuo glacial)”, disse Ellen Wohl, geóloga da Universidade Estadual do Colorado, em um e-mail para o Live Science.

Continua após a publicidade

Wohl também lembra que clima e uso humano importam. “os rios podem parar de fluir devido às mudanças climáticas e/ou ao consumo humano de água”, disse Wohl.

No caso do Finke, a Austrália é descrita como uma paisagem estável por muito tempo. No centro da Placa Australiana, o continente quase não teve atividade tectônica significativa nos últimos 100 milhões de anos.

Com essa estabilidade, o sistema do rio Finke conseguiu se desenvolver e se expandir quase sem interrupções durante a maior parte de sua história.

Continua após a publicidade

O futuro do Finke e o “segundo colocado”

Mesmo um rio antigo não tem garantia de eternidade. A permanência depende do equilíbrio entre clima, relevo e o quanto de água é retirada do sistema.

“Rios de longa duração provavelmente continuarão a existir”, disse Wohl. No entanto, “muitos rios em terras secas” — como o Finke — “estão altamente alterados pelo consumo humano de água”.

Ela acrescentou que “é provável que isso aumente no futuro, à medida que o consumo global de água continue a crescer e o aquecimento global torne muitas regiões secas ainda mais secas”.

Continua após a publicidade

Se o Finke secar algum dia, o segundo lugar pode ficar com o rio New, que tem cerca de 300 milhões de anos e cruza a Virgínia, a Virgínia Ocidental e a Carolina do Norte.