A Vila Itororó parece um lugar escondido em plena São Paulo. Entre ruínas arquitetônicas, memória urbana e programação cultural, ela guarda uma história rara: ali funcionou a primeira piscina privada de uso público da cidade.
Hoje, o espaço na Bela Vista virou ponto de descoberta para quem gosta de passeios com contexto, imagem forte e uma sensação de viagem no tempo sem sair do centro.
Por que a Vila Itororó chama atenção
Localizada na região central da cidade de São Paulo, na rua Maestro Cardim, 60, no bairro da Bela Vista, a Vila Itororó foi construída entre 1922 e 1929 por Francisco de Castro, filho de imigrantes portugueses.
Considerada a primeira vila urbana da Capital, ela reúne 37 casas e um palacete em uma área de 4,5 mil m². A construção aproveitou materiais de demolição e incorporou peças como carrancas e ornamentos do antigo Teatro São José, o que ajuda a explicar o visual único do conjunto.
Segundo informações da Secretaria Municipal de Cultura, Francisco comprou os terrenos aos poucos. O plano era morar no palacete e alugar as casas ao redor, criando um conjunto residencial incomum para a época.
A curiosidade que faz a história fugir do óbvio
Francisco queria mais do que uma vila de aluguel. O local também funcionaria como uma espécie de clube e chegou a abrigar a primeira piscina privada de uso público da cidade, abastecida pelas águas do riacho do Itororó, hoje canalizado sob a avenida 23 de Maio.
Entre ruínas e restauros, a Vila Itororó fascina pelo uso de materiais de demolição e ornamentos históricos, criando um cenário único na paisagem urbana de São Paulo. Foto: Acervo Milu Leite / Divulgação Secretaria Municipal de CulturaEsse detalhe muda completamente a leitura do lugar. A Vila Itororó deixa de ser apenas um conjunto antigo e passa a representar uma fase pouco lembrada da vida social paulistana.
Endividado e sem filhos, Francisco morreu em 1932, aos 55 anos, e aproveitou pouco o próprio projeto. Depois disso, a vila foi a leilão e passou a ser administrada por Augusto de Oliveira Camargo, ligado ao Hospital Beneficente Augusto de Oliveira Camargo, em Indaiatuba.
Augusto manteve a lógica dos aluguéis, inclusive no palacete, e a renda era destinada ao hospital. Com o tempo, porém, o espaço perdeu prestígio, saiu do circuito da elite e entrou em um processo de deterioração.
Da decadência ao renascimento cultural
Ao longo dos anos, a Vila Itororó deixou de ser endereço de famílias de classe média e passou a conviver com cortiços e invasões. O contraste entre esse passado e a situação atual é um dos pontos mais fortes da narrativa.
Em 2002, o Conpresp determinou o tombamento da Vila Itororó. Em 2005, o Condephaat também reconheceu o conjunto como patrimônio histórico.
No ano seguinte ao tombamento, a saída dos moradores foi definida por decreto estadual. Após conflitos e negociações, a remoção total das famílias foi concluída em 2013, com encaminhamento para moradias populares na região.
No mesmo ano, o Governo do Estado cedeu o uso do espaço à Prefeitura de São Paulo, que iniciou o processo de restauração. Parte da Vila passou a funcionar como centro cultural em setembro de 2021.
O que existe hoje na Vila Itororó
Desde então, o espaço recebe oficinas livres, residências artísticas, exposições e outras atividades culturais. O conjunto também abriga uma unidade do Fab Lab, com laboratório de fabricação digital, impressoras 3D, cortadora a laser, computadores e equipamentos de eletrônica e robótica.
Além disso, o Centro de Referência de Promoção da Igualdade Racial atua no local com atendimento e orientação multiprofissional em casos de discriminação racial. Ou seja, a Vila Itororó não vive só de memória: ela foi devolvida à cidade com uso público e função contemporânea.
É justamente essa combinação entre ruína, reinvenção e curiosidade histórica que transforma a visita em algo mais marcante do que um simples passeio. No centro de São Paulo, poucos lugares contam tantas camadas da cidade em um mesmo endereço.
Mais informações podem ser consultadas no site oficial da Vila, mantido pela Prefeitura de São Paulo.





