O Brasil que empreende estará no centro das eleições

Quando os brasileiros forem às urnas em 2026, quatro temas devem dominar o debate público: segurança, economia, corrupção e empreendedorismo

Brasil que empreende estará no centro das eleições. Foto: Divulgação

Por: Maurício Juvenal

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Quando os brasileiros forem às urnas em 2026, quatro temas devem dominar o debate público: segurança, economia, corrupção e empreendedorismo.

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Os três primeiros são previsíveis. O quarto, nem tanto. Mas talvez seja justamente o tema que melhor ajude a explicar o Brasil contemporâneo.

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Durante décadas, a discussão sobre trabalho no país esteve concentrada na relação entre empregado e empregador. Essa continua sendo uma agenda fundamental. O problema é que o Brasil mudou.

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Hoje convivemos com cerca de 45 milhões de trabalhadores com carteira assinada e um contingente semelhante de brasileiros que atuam como microempreendedores, autônomos ou trabalhadores informais.

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Estamos falando de dezenas de milhões de pessoas que acordam todos os dias sem a garantia de um salário ao final do mês e cuja renda depende diretamente da própria capacidade de produzir, vender, negociar e sobreviver.

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É impossível compreender o Brasil sem compreender esse universo.

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Há quem enxergue o empreendedorismo apenas como uma história de sucesso individual. Nos últimos anos, uma indústria de promessas vendeu a ideia de que basta acreditar para prosperar. Como se houvesse fórmulas mágicas para transformar qualquer pessoa em um empresário bem-sucedido. A realidade é mais complexa.

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Boa parte dos empreendedores brasileiros não abriu um negócio porque identificou uma oportunidade extraordinária de mercado. Abriu porque precisava continuar vivendo. São empreendedores da sobrevivência. Homens e mulheres que transformaram a necessidade em atividade econômica.

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Eles não aparecem nas capas de revistas de negócios. Estão nas periferias, nos bairros, nos pequenos municípios. Vendem alimentos, prestam serviços, consertam equipamentos, cortam cabelo, reformam casas, dirigem veículos de aplicativo e movimentam a economia real.

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São brasileiros que muitas vezes vendem o almoço para garantir a janta. Por isso, o verdadeiro debate sobre empreendedorismo não é sobre motivação. É sobre produtividade.

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O desafio nacional não é criar mais CNPJs. O Brasil já demonstrou enorme capacidade de formalização. O desafio é fazer com que os pequenos negócios cresçam, produzam mais, acessem novos mercados, utilizem melhor a tecnologia e gerem renda de maior qualidade.

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Hoje, cerca de 80% das empresas brasileiras possuem faturamento bruto anual de até R$ 360 mil. Uma parcela significativa sequer ultrapassa R$ 180 mil por ano.

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Quando descontados custos operacionais, impostos e despesas diversas, sobra uma renda que, em muitos casos, varia entre R$ 4 mil e R$ 8 mil mensais, quando o negócio é bem administrado.

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É pouco para quem sustenta uma família. É pouco para quem pretende investir. É pouco para quem sonha crescer.

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A pergunta central que surge, então, é sobre como transformar sobrevivência em prosperidade? A resposta passa por cinco agendas que deveriam interessar a qualquer governo, independentemente de ideologia.

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A primeira é crédito. Não apenas mais crédito, mas crédito orientado. Recursos financeiros desacompanhados de planejamento podem se transformar em endividamento. Quando associados à capacitação e a mecanismos garantidores, tornam-se instrumentos de expansão.

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A segunda é acesso a mercado. Nenhuma empresa cresce sem clientes. A ampliação da participação dos pequenos negócios nas compras governamentais e a redução de barreiras comerciais podem criar oportunidades inéditas para milhões de empreendedores.

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A terceira é simplificação burocrática. O Simples Nacional representou uma revolução ao facilitar a formalização. Mas ainda existe um longo caminho para reduzir custos de conformidade, integrar sistemas e tornar o ambiente de negócios mais amigável para quem produz.

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A quarta é produtividade. Nem toda inovação precisa ser disruptiva. Às vezes, produtividade significa uma planilha financeira bem-organizada, um maquinário simples que reduz desperdícios ou uma ferramenta digital que melhora a gestão.

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A quinta é internacionalização. Durante muito tempo, exportar foi visto como privilégio de grandes empresas. Essa percepção precisa mudar. O pequeno empreendedor brasileiro também pode alcançar mercados globais. Em um mundo conectado por acordos comerciais e cadeias produtivas cada vez mais integradas, exportar deixou de ser exceção para se tornar possibilidade concreta.

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O acordo entre Mercosul e União Europeia ilustra a dimensão dessa oportunidade. Estamos falando de um mercado que reúne centenas de milhões de consumidores e uma das maiores áreas econômicas do planeta.

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Para acessá-lo, porém, será necessário elevar padrões de qualidade, sustentabilidade e competitividade. E isso beneficia tanto quem vende para fora quanto quem atende o mercado interno.

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No fundo, o empreendedorismo brasileiro não pede privilégios. Pede condições. Condições para produzir. Condições para competir. Condições para crescer.

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O Brasil que empreende não é um nicho. É uma das maiores forças econômicas e sociais do País. Está presente nas capitais e no interior, nos bairros populares e nos centros comerciais, nas oficinas, nos salões, nas padarias, nos pequenos comércios e nas empresas que sonham se tornar médias e grandes. E por isso mesmo, empreendedorismo estará no centro das próximas eleições.

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Não como slogan. Não como peça publicitária. Não como promessa fácil. Mas como uma das respostas mais concretas para o desafio permanente de gerar renda, ampliar oportunidades e construir um país onde o trabalho continue sendo o principal instrumento de mobilidade social.

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Quem compreender essa realidade terá melhores condições de compreender o Brasil.

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Maurício Juvenal é jornalista, mestre em Letras, mestrando em Ciência Política e Relações Internacionais, pelo IDP de Brasília, e secretário nacional de Ambiente de Negócios, do Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte.