Faltam professores para 17% das aulas do novo ensino médio em SP

A falta de profissionais foi constatada por estudo feito pela Rede Escola Pública e Universidades

Proporcionalmente, há um agente para cada 143 alunos, ou 4,6 agentes para cada uma das cerca de 5.300 unidades no estado

Sala de aula | Adriano Vizoni/Folhapress

 O novo ensino médio começou a ser implantado na rede estadual de São Paulo com falta de professores e menos opções no currículo para os alunos mais pobres, mostra estudo.

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No total, 17% das aulas nos chamados itinerários formativos –parte do ensino médio que os estudantes podem escolher de acordo com os seus interesses- estão sem um professor atribuído.

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A falta de profissionais foi constatada por estudo feito pela Repu (Rede Escola Pública e Universidade), que apontou também desigualdade na possibilidade de escolha entre escolas com melhor e pior nível socioeconômico.

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A Repu reúne pesquisadores de universidades paulistas que estudam a rede estadual. O trabalho sobre o novo ensino médio é assinado por Ana Paula Corti, do Instituto Federal de São Paulo, Débora Goulart, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), e Fernando Cássio, da UFABC (Universidade Federal do ABC).

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Com dados da própria Secretaria da Educação obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação, eles constataram que, até o dia 8 de abril, ou seja, ao final do primeiro bimestre letivo, 22,1% das aulas dos itinerários formativos do segundo ano do ensino médio não tinham sido atribuídas a nenhum professor -eles só serão ofertados no terceiro ano a partir de 2023.

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À Folha de S.Paulo a pasta afirmou que o índice atualmente é de 17% das aulas, ou seja, o equivalente a quase um dia por semana.

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Segundo o coordenador de ensino médio da secretaria, Gustavo Mendonça, essas aulas vagas têm sido preenchidas com conteúdo gravado, do acervo do Centro de Mídias, transmitido aos alunos nas escolas com a presença de um professor coordenador, vice-diretor ou diretor da escola.

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Mendonça relacionou a falta de professores à maior oferta de aulas no novo ensino médio e à ampliação do PEI (Programa Ensino Integral), vitrine eleitoral do governador Rodrigo Garcia (PSDB). Desde 2019, o número de escolas de tempo integral no programa passou de 364 para 2.050.

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“No próprio ensino médio, a gente teve expansão da carga horária, tem a expansão das [escolas] PEIs, é muito mais aula para ser atribuída para a mesma quantidade de professores”, afirmou o coordenador. “A gente tem uma quantidade de aulas muito grande, e a conta acaba não fechando.”

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A ampliação da quantidade de aulas no ensino médio está ligada à reforma aprovada em 2017 na gestão do então presidente Michel Temer (MDB).

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Ela ampliou a carga horária total e passou a prever que os alunos escolham disciplinas de aprofundamento, os chamados itinerários. A lei prevê cinco áreas: linguagem, matemática, ciências da natureza, ciências humanas e sociais e a formação técnica e profissional.

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A justificativa para a criação desses itinerários era tornar os conteúdos mais atrativos e incentivar o protagonismo juvenil.

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O estudo da Repu mostra, porém, que na rede estadual paulista não só a possibilidade de escolha é restrita como ela é desigualmente distribuída de acordo com o nível socioeconômico dos alunos.

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Durante o processo de escolha, no ano passado, a Secretaria da Educação realizou uma enquete online na qual os alunos do primeiro ano do ensino médio deveriam elencar 6 opções entre 35 disponíveis: quatro de cada uma das áreas de conhecimento; seis das áreas integradas (matemática e ciências humanas, por exemplo); quatro com as áreas combinadas a cursos profissionais de curta duração; e 21 cursos profissionalizantes de longa duração.

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O número amplo de opções oferecidas na enquete, no entanto, não se traduziu na prática.

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Com dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação, os pesquisadores mostraram que 37% das escolas estaduais paulistas passaram a oferecer neste ano apenas dois itinerários aos alunos, o mínimo exigido. Dessas, mais de 70% oferecem os mesmos dois: um de linguagem e ciências humanas e outro de matemática e ciências da natureza.

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Há ainda 37 unidades que disponibilizam apenas um itinerário. Dessas, 26 são classes instaladas em unidades da Fundação Casa.

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Entre os 334 municípios paulistas (51,8% das cidades do estado) que só têm uma escola de ensino médio pública, a concentração de itinerários é ainda maior. Nesse grupo, 50,3% das escolas estaduais têm no máximo dois itinerários

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Ao se cruzar dados da oferta de itinerários com o perfil socioeconômico dos alunos declarado no Saresp, avaliação oficial da rede estadual, os pesquisadores concluem que os estudantes de maior renda e com pais mais escolarizados tendem a ter mais opções de itinerários.

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Nas escolas que ofertam dois itinerários, por exemplo, 22,6% dos alunos têm renda familiar mensal de até um salário mínimo; nas que têm seis itinerários, essa proporção cai para 14,5%.

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Já a parcela de estudantes com renda familiar maior que dois salários mínimos é de 37,4% nas unidades com dois itinerários e de 46,6% nas que dão seis opções.

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Chega-se à mesma constatação ao se observar o Índice de Nível Socioeconômico (Inse) por escola.

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Os pesquisadores observaram uma tendência de melhor nível socioeconômico à medida que aumenta o número de itinerários nas escolas.
A situação é visível nas duas pontas do Inse.

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Nas duas escolas estaduais da capital com melhor nível socioeconômico, a Antônio Alves Cruz, na Vila Madalena (zona oeste), e a Prof. João Borges, no Tatuapé (zona leste), há seis opções de itinerários.

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Já na de menor nível socioeconômico, a Profa. Regina Miranda Brant de Carvalho, em Marsilac, o número de opções cai para duas.

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Para Fernando Cássio, um dos autores do estudo, a desigualdade de oferta de opções está relacionada à falta de investimentos para implantar o novo ensino médio, que tem consequências mais graves nas escolas que atendem alunos mais pobres.

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“Qualquer reforma educacional que aumenta a possibilidade de escolha pressupõe melhorar as condições materiais das escolas, com mais salas de aula e professores. Como expandir carga horária e ofertar diversos itinerários numa escola que tem aula em todas as salas de dia, à tarde e à noite?”, questiona.

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OUTRO LADO

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O coordenador de ensino médio da Secretaria da Educação, Gustavo Mendonça, afirma que os alunos em aulas sem professor atribuído não ficam sem conteúdo, porque recebem as aulas gravadas.

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Ele reconhece que não é a situação ideal e diz que a meta da secretaria é zerar o déficit de profissionais atribuídos especificamente às aulas.
Mendonça diz que a contratação de docentes temporários está aberta e que a pasta espera que, com a nova carreira docente aprovada recentemente, aumente o interesse dos professores pelas aulas dos itinerários.

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Em relação à desigualdade na oferta de itinerários, ele afirma que a pasta ainda precisa analisar a questão, mas que não há relação de causalidade entre o leque de opções e o nível socioeconômico dos alunos. Segundo ele, as escolas com menos opções de itinerários tendem a ser as que têm menos turmas de ensino médio.

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O coordenador declara que todos os estudantes que escolheram se aprofundar em determinada área de conhecimento terão a oferta dessa área na escola.

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Segundo ele, o mesmo não se dá com os que escolheram alguma formação profissional, para a qual são oferecidas 57 mil vagas, número menor do que a demanda, mas o objetivo é suprir esse déficit.

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Em relação às classes da Fundação Casa que têm apenas um itinerário, ele afirma que em geral são unidades que têm só uma turma e, se a escolha de todos estiver contemplada em um mesmo itinerário, a Secretaria da Educação libera a oferta de um único.