A vitória de Max Verstappen no Grande Prêmio do Bahrein, disputado no reformulado circuito de Sepang, na Malásia, entrou para a história da Fórmula 1 por mais de uma razão. Foi o primeiro triunfo da Red Bull Ford Powertrains na categoria e, sobretudo, marcou o retorno da Ford ao degrau mais alto do pódio da Fórmula 1 depois de um intervalo de 23 anos.
A última vitória de um motor associado à Ford havia acontecido justamente no Brasil.
Em 2003, Giancarlo Fisichella levou a Jordan-Ford à vitória no Grande Prêmio disputado em Interlagos, em uma das corridas mais caóticas da história da categoria. Desde então, o nome Ford desapareceu do topo do pódio da F1 até o triunfo de Verstappen.
O resultado também recoloca em evidência uma das histórias mais importantes da Ford na categoria. A marca do oval construiu, principalmente por meio da Cosworth, uma trajetória que a transformou em uma das maiores fornecedoras de motores da história da Fórmula 1. O Ford-Cosworth DFV, lançado em 1967, tornou-se uma referência tecnológica e esportiva, acumulando vitórias durante décadas e dominando boa parte do cenário entre os fornecedores de motores, particularmente nos anos 1970 e 1980.
A importância daquele período pode ser medida pelo número de vitórias acumuladas: o triunfo de Verstappen foi contabilizado pela própria Ford como a 177ª vitória de um motor associado à marca na Fórmula 1. A diferença, agora, é que o projeto não é simplesmente o fornecimento de um propulsor Ford. Trata-se de uma parceria tecnológica com a Red Bull Ford Powertrains, responsável pelo desenvolvimento da unidade de potência que equipa a Red Bull.
A volta da Ford ocorre, portanto, em um momento completamente diferente da história da categoria. O motor de combustão continua presente, mas integrado a uma arquitetura híbrida de alta complexidade, na qual eletrificação, recuperação de energia, eletrônica e software passaram a ter importância semelhante à do próprio motor térmico.
Para uma marca que deixou a Fórmula 1 há mais de duas décadas, voltar vencendo significa recuperar um espaço que parecia pertencer apenas à história. E o detalhe simbólico é inevitável: entre a vitória de Fisichella em Interlagos e a de Verstappen em Sepang, passaram-se 23 anos.
Evans, campeão nos últimos 300 metros
Se a Ford precisou esperar 23 anos para voltar a vencer na Fórmula 1, Elfyn Evans precisou esperar praticamente uma carreira inteira para conquistar o título mundial de Rally. E o campeonato do galês não poderia ter sido decidido de maneira mais dramática.
Evans chegou ao Rally da Sardenha, última etapa do calendário de 2026, na liderança do Campeonato Mundial de Rally. Do outro lado estava seu companheiro de Toyota Gazoo Racing, o sueco Oliver Solberg, que havia reduzido uma desvantagem de 21 pontos e transformado a decisão em um duelo dentro da própria equipe.
Solberg fez praticamente tudo o que precisava. Venceu o Rally da Sardenha e chegou ao Power Stage final em condições de virar o campeonato. Evans, entretanto, completou sua passagem pela especial antes do sueco e deixou estabelecida a referência que Solberg precisava superar.
A diferença entre os dois desapareceu nos últimos quilômetros. Solberg era mais rápido e chegou a abrir vantagem sobre o tempo do companheiro. O título parecia escapar das mãos de Evans quando restavam pouco mais de 300 metros para a bandeirada.
Foi então que o campeonato mudou de dono.
Solberg errou a trajetória nas últimas curvas, saiu da linha ideal e perdeu tempo ao escapar para a areia. Conseguiu retornar à pista e completar a especial, preservando a vitória no Rally da Sardenha. Mas o erro custou os pontos do Power Stage que seriam necessários para conquistar o campeonato.
Evans, com Scott Martin ao lado, tornou-se campeão mundial pela primeira vez. Terminou a temporada com 243 pontos, apenas cinco à frente de Solberg, que somou 238. O sueco venceu o Rally da Sardenha, mas perdeu o título nos metros finais.
A conquista encerra também um capítulo da história técnica do Mundial de Rally. Evans é o último campeão mundial da era dos carros Rally1. A temporada de 2026 marcou o encerramento desse regulamento, que introduziu os sistemas híbridos na categoria e estabeleceu uma das mais sofisticadas gerações de carros de competição do Rally.
O título de Evans, portanto, não é apenas o primeiro de um piloto que acumulou cinco vice-campeonatos nas últimas seis temporadas. É também o último campeonato mundial conquistado por um carro Rally1.
Duas histórias diferentes, dois campeonatos diferentes e duas esperas que chegaram ao fim: a Ford voltou a vencer na Fórmula 1 depois de 23 anos; Evans esperou uma carreira inteira pelo título mundial. No caso do galês, bastaram 300 metros para transformar derrota iminente em conquista histórica.
