Violência Vicária: Quando a falha na prevenção se torna uma falha de estado

Violência vicária usa os filhos para atingir, controlar ou punir a mãe e pode chegar ao extremo de matar as crianças

O avanço da operação Compliance Zero da Polícia Federal, que pegou em cheio Daniel Vorcaro (Master), a direção do BRB e a cúpula do GDF, pode ter ensinado algo aos poderosos de Brasília. Foto: Divulgação

Duas meninas, de apenas 3 e 5 anos, foram encontradas mortas dentro de um carro na zona sul de São Paulo. Foto: Divulgação

Neste domingo, 9 de agosto, o Brasil celebrou o Dia dos Pais.

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A história moderna dessa celebração tem uma origem particularmente simbólica. Nos Estados Unidos, Sonora Smart Dodd defendeu, no início do século XX, a criação de uma data para homenagear seu pai, William Jackson Smart, que criou sozinho seis filhos após a morte da esposa.

A ideia nasceu, portanto, da admiração de uma filha por um homem que assumiu a responsabilidade de cuidar, proteger e criar seus filhos.

Mais de um século depois, enquanto milhões de famílias celebravam justamente essa representação de cuidado e proteção, o Brasil foi novamente confrontado com o extremo oposto da paternidade.

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Duas meninas, de apenas 3 e 5 anos, foram encontradas mortas dentro de um carro na zona sul de São Paulo.

Segundo as informações divulgadas sobre o caso, o próprio pai, Breno de Souza Castro, de 24 anos, apresentou-se à polícia e confessou o crime. As crianças teriam sido asfixiadas.

A mãe relatou que manteve relacionamento com ele durante aproximadamente oito anos e que estavam separados desde março. O ciúme e os conflitos decorrentes da separação aparecem entre os elementos investigados para compreender a motivação do crime.

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Mas talvez estejamos diante de uma pergunta ainda maior:

Até onde um homem pode chegar quando deixa de enxergar a mulher como uma pessoa livre para enxergá-la como sua propriedade?

NÃO É APENAS SOBRE MATAR

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Existe uma forma de violência contra a mulher que ainda precisa ser muito mais conhecida no Brasil: a violência vicária.

Ela acontece quando o agressor utiliza aquilo que a mulher mais ama principalmente seus filhos, como instrumento para machucá-la, controlá-la, puni-la ou destruí-la emocionalmente.

Não consegue mais controlar a mulher?

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Ameaça os filhos.

Ela decide terminar o relacionamento?

Usa os filhos.

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Ela reconstrói sua vida?

Transforma os filhos em instrumento de vingança.

Em sua manifestação mais extrema, mata as próprias crianças para condenar aquela mãe a uma dor permanente.

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O Brasil já assistiu a episódios que ajudam a compreender a dimensão desse fenômeno.

Em fevereiro deste ano, Itumbiara, em Goiás, parou diante de uma tragédia. Thales Machado atirou contra os próprios filhos, Miguel, de 12 anos, e Benício, de 8, e depois tirou a própria vida. Os dois meninos morreram.

O episódio levou o próprio poder público federal a discutir a violência vicária,  a utilização dos filhos para atingir psicologicamente a mãe.

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Em Alvorada, no Rio Grande do Sul, quatro irmãos,  Yasmin, Donavan, Giovanna e Kimberlly, com idades entre 3 e 11 anos foram mortos em 2022. O pai foi posteriormente condenado pelo Tribunal do Júri. Entre os elementos apresentados no processo estava justamente a vingança contra a ex-companheira.

Há outros episódios investigados no Brasil em que filhos foram ameaçados, agredidos, sequestrados ou mortos em contextos de separação e violência doméstica.

Os nomes mudam.

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As cidades mudam.

As idades das crianças mudam.

Mas há um elemento que precisa chamar nossa atenção: quando os filhos passam a ser utilizados como extensão da violência praticada contra a mulher.

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“COMO ELA NÃO PERCEBEU?”

Existe ainda uma pergunta cruel que frequentemente fazemos depois dessas tragédias

Por que essa mulher não denunciou antes?

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Talvez estejamos fazendo a pergunta errada.

Como uma mãe poderia imaginar que o homem que ajudou a colocar aquelas crianças no mundo seria capaz de matá-las para feri-la?

Uma mulher pode reconhecer uma ameaça contra si e ainda acreditar que aquele homem jamais machucaria os próprios filhos.

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É justamente aí que precisamos mudar a lógica das políticas públicas.

O Estado não pode avaliar somente se aquela mulher corre risco.

Precisa perguntar também:

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Os filhos dela estão em risco?

A LEGISLAÇÃO JÁ COMEÇOU A AVANÇAR

O Brasil possui instrumentos importantes.

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A Lei Maria da Penha estabelece mecanismos de proteção às mulheres vítimas de violência doméstica.

Desde 2023, a legislação também determina que as medidas protetivas de urgência podem ser concedidas considerando riscos não apenas à mulher, mas também aos seus dependentes.

Outro avanço fundamental ocorreu com a Lei nº 14.713/2023: a existência de risco de violência doméstica ou familiar passou a ser causa impeditiva para a guarda compartilhada. Antes de decidir sobre a guarda, o Judiciário também deve verificar se existem situações de violência envolvendo o casal ou os filhos.

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Temos ainda a Lei Henry Borel, criada para fortalecer os mecanismos de prevenção e enfrentamento da violência doméstica e familiar contra crianças e adolescentes.

São avanços importantes.

Mas lei sem capacidade de identificar o risco antes da tragédia continua chegando tarde.

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O QUE PRECISAMOS FAZER?

Precisamos construir uma política pública em que a separação de uma mulher de um relacionamento abusivo seja compreendida como um período que pode exigir atenção especial.

Delegacias, Ministério Público, Judiciário, assistência social, escolas, Conselhos Tutelares e serviços de saúde precisam compartilhar uma mesma compreensão de risco.

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Quando houver ameaça, perseguição, violência psicológica, histórico de agressões ou comportamento controlador, a avaliação não pode terminar na mulher.

É preciso avaliar imediatamente também a segurança das crianças.

Isso significa aperfeiçoar protocolos de avaliação de risco; acelerar a comunicação entre Justiça, polícia e rede de proteção; considerar visitas supervisionadas ou restrições de convivência quando houver risco comprovado; capacitar profissionais para reconhecer violência vicária; fortalecer o acompanhamento das mulheres durante e depois da separação; e criar dados nacionais capazes de identificar quantas crianças estão sendo utilizadas como instrumentos de violência contra suas mães.

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O problema não pode começar a ser estudado depois que uma criança morre.

PATERNIDADE NÃO É POSSE

Sonora Smart Dodd ajudou a transformar a admiração que sentia pelo pai em uma celebração mundial porque enxergava nele cuidado, responsabilidade e proteção.

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Talvez seja justamente por isso que essa tragédia ocorrida no fim de semana do Dia dos Pais provoque tamanho contraste.

Ser pai não é ter propriedade sobre uma criança.

Ser marido não é ter propriedade sobre uma mulher.

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E o término de uma relação não retira de ninguém o direito de continuar vivendo.

Quando um homem mata os próprios filhos para atingir a mãe, não estamos diante apenas de uma tragédia familiar.
Estamos diante da manifestação mais brutal de uma lógica de controle: se eu não posso mais controlar você, destruirei aquilo que você mais ama.

E é exatamente essa lógica que nossas políticas públicas precisam aprender a identificar antes que seja tarde demais.
O Brasil não precisa apenas de novas leis. Precisa garantir que as que já existem sejam capazes de prevenir, identificar riscos e proteger.

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Quando o Estado conhece o risco, possui instrumentos de proteção e, ainda assim, a violência chega primeiro, precisamos questionar não a ausência de legislação, mas a efetividade da política pública.

E essa responsabilidade não é apenas dos governos. É também da sociedade civil. Se os sinais existem, por que ainda estamos chegando depois da tragédia?