No dia 4 de novembro, o país lembra o Dia da Favela. Eu prefiro lembrar a data olhando para uma rua. Em São Paulo, Paraisópolis nasceu colada ao Morumbi. Quem mora de um lado vê as janelas do outro todos os dias. São duas margens da mesma cidade que passaram décadas se olhando sem atravessar.
O Brasil entra em 2027 com uma chance rara de mudar essa geografia. Não por decreto, mas por uma decisão de mesa: quem decide o capital e quem conhece o território precisam sentar no mesmo lugar, ao mesmo tempo, com a mesma pergunta. O que falta aqui, e quem confia em quem? Jane Jacobs, a jornalista que mudou o urbanismo no século passado, mostrou que uma cidade não adoece por falta de prédio.
Adoece quando as pessoas param de se cruzar. Para ela, a rua viva, com gente diferente usando o mesmo espaço, era a infraestrutura mais valiosa de uma metrópole, porque produz confiança sem que ninguém precise pedir. Eu vi essa tese funcionar na prática.
Quando moradores organizados e quem decide investimento passaram a sentar juntos, Paraisópolis atraiu mais de R$ 1 bilhão em investimentos, com mais de 4 mil moradias e 14 escolas. Nenhum dos lados teria chegado lá sozinho. O território tinha o diagnóstico e a legitimidade. O capital tinha a escala. A ponte foi a mesa.
Ninguém atravessa sozinho. A ponte só fica de pé quando as duas margens seguram.
Ao empresário que me lê, deixo uma pergunta para o fim do ano: na mesa em que a sua empresa decide 2027, quem fala pela outra margem? Se a resposta for ninguém, ainda dá tempo de puxar uma cadeira.
Gilson Rodrígues é empreendedor social, fundador da Academia da Prosperidade e da Vida e autor de O Filho da Mudança.
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