Vera Lucia Ranu é mãe de Fabiana Renata Gonçalves que desapareceu em 12/11/1992 com 13 anos de idade, no bairro de Jaraguá, São Paulo, no caminho da escola. Fabiana deveria retornar por volta de 19h, Vera chegara em casa após o trabalho e estava cuidando da casa e dos irmãos menores, outra menina de 4 anos e um menino de 3, e estranhou o atraso da filha as 19h30, o que a fez ir até a escola, onde foi informada de que não houvera aula devido o falecimento de um funcionário. A quebra na rotina diária da filha, de casa para a escola e vice-versa, alertou a mãe que retornou a casa na esperança de a filha ter chegado em sua ausência, mas Fabiana não estava.
Imediatamente ligou para o esposo e juntos passaram a buscar com vizinhos, amigos, familiares, apenas ouvindo a confirmação de que a filha fora vista no caminho de ida para a escola, com o material e uniforme. Foram à delegacia acreditando que encontrariam apoio, mas só conseguiram a orientação (errada) de precisar esperar 24h para fazer o Boletim de Ocorrência, o que não os impediu de continuarem buscas em hospitais, IML e todos os lugares possíveis, sem sucesso.
Após as “24 horas protocolares” retornaram à delegacia para encontrarem o mesmo desinteresse em ouvir ou ajudar, sendo os pais submetidos a inúmeros constrangimentos pelos policiais que insinuavam “fuga com namorado, ligação com drogas e até mesmo prostituição” (!), tratamento que levou Vera a enfrentar os agentes ao ponto de ser ameaçada de prisão por “desacato”, foi quando o delegado chegou xingando “que p….. (sic) era aquela na delegacia dele”, e ao ouvir o relato ordenou que fizessem o BO para mandar os pais embora.
Após 20 dias do registro foi encaminhada para a DHPP onde a investigação se processaria e, mais uma vez, sofreu maus tratos e prejulgamentos, tomando conhecimento que nenhum comunicado, nem o BO, tinha sido enviado por telex para a DHPP, cujo delegado lhe disse algo que a marcou para sempre: “a senhora entende que para registrar a ocorrência é 24h e para enterrar um indigente são 72h, preciso te explicar mais alguma coisa? (!) Naquele momento o mundo de Vera desmoronou, e ela percebeu que ninguém a ajudaria, e seu desespero e indignação aumentaram ainda mais.
Ivanise Espiridião Silva Santos é mãe de Fabiana, e em 23 de dezembro que 1995 foi buscar a filha, então com 13 anos, na casa da amiga, mas Fabiana não estava… O choque que Ivanise vivenciou naquele dia hoje está retratado na primeira cena do seriado “All her fault” exibido nos streamings, mas a ficção não imitou a realidade, pois até hoje não há pistas sobre o que aconteceu com Fabiana nos 300 metros que separavam sua casa daquela em que devia estar, na Av.Raimundo Pereira de Magalhães, Zona Noroeste de São Paulo. No entanto, assim como a personagem do seriado, Ivanise e muitas mães que vivenciam igual tragédia passam a serem vistas como “culpadas” e, não raro, esse é o sentimento que elas próprias sentem: o que fiz ou deixei de fazer que poderia evitar? Uma “culpa” agravada pela forma como são tratadas por autoridades e conhecidos.
Por ironia do destino, duas meninas de São Paulo, desaparecidas com 13 anos e com o mesmo nome “Fabiana”, reuniram suas mães, Vera e Ivanise, as quais, após um encontro “programado” pelo destino, criaram o movimento “Mães da Sé”. Para Vera já se vão 34 anos, para Ivanise 31 nessa busca incansável, a maior parte dela realizada de forma solitária, elas próprias buscando pistas e informações, sem qualquer apoio das forças policiais ou do Estado de modo geral.
Ambas, Vera e Ivanise, dizem que ainda há muito por fazer, desde a implementação de meios de buscas, passando pela padronização de sistemas e compartilhamento de dados, até a identificação de pessoas, mas ambas continuam seguindo e lutando, sempre!


