No dia 10 de outubro de 2005, a vida da família de Graciane da Silva Bandeira mudou para sempre, 3 meses após ela ter completado 18 anos.
Naquela madrugada, sua mãe saiu cedo para trabalhar, deixando-a dormindo. Ao sair, viu o filho da vizinha, Cleverson, vulgo “Cannu”, um jovem usuário de drogas, acompanhado de outro rapaz, desconhecido. Cannu perguntou as horas e se ela estava indo trabalhar. Pouco depois o pai também saiu para trabalhar na Ceasa de Maringá, e Cannu lhe pediu uma folha de caderno para enrolar um baseado, ao que o pai respondeu que ‘ficaria devendo’ pois estava atrasado. Graciane permaneceu em casa, dormindo, com o braço engessado até o ombro por conta de uma tendinite.
Mãe e filha tinham marcado de se encontrar por volta das 13h, em frente à Caixa Econômica de Maringá. Mas Graciane não apareceu. Preocupada, a mãe ligou para a vizinha e pediu para chamar o esposo e perguntou por Graciane, que também não estava em casa, então o pai seguiu para o hospital, onde ela poderia ter ido em razão do braço, mas a tentativa foi negativa. Ligaram no trabalho de Graciane. como babá, mas ela também não estava.
Imediatamente foram à polícia, onde ouviram a orientação do ‘esperar 24h’ para registrar o desaparecimento, e somente após muitas ligações uma equipe da polícia foi à residência a 1h30 da madrugada do dia seguinte.
Ainda em 2014 a família recebeu uma foto de uma moça hospitalizada em Belém do Pará/ReproduçãoApós ouvirem a narrativa da mãe chamaram o jovem vizinho e, sob a luz de um poste notaram ‘olho roxo e marcas no rosto’ como se tivesse brigado e perguntaram: “-Não foi o gesso da menina que bateu no seu olho?” ele negou alegando ter levado uma “capacetada” ao tentar separar uma briga. Mesmo entrando em contradições foi liberado. A família acionou a Imprensa da cidade, rádio, TV, a polícia científica foi ao local e recolheu objetos do quarto, como a roupa de cama e tirou fotos. No dia seguinte a vizinha dos fundos prestou depoimento e contou que ouviu, por volta de 4 ou 5 h da manhã gritos da jovem abafados e uma voz masculina dizendo para “calar a boca ou eu te mato”.
O principal suspeito nunca foi levado à delegacia sob a justificativa de que “Se prender, ele vai sair mais forte”, segundo o delegado. Em 2014, Cannu foi assassinado com um tiro na cabeça, em Mato Grosso. Mesmo após a morte dele, os indícios sempre levavam a ele ou à família dele, cujo pai é caminhoneiro e todas as pistas que a família obteve, pesquisando sozinha, levavam a cidades que faziam parte da rota de suas viagens. Apesar de tudo isso, as investigações nunca avançaram, e todo o material recolhido pela polícia forense ainda foi incinerado por ordem da Promotoria Pública (!).
Graciane não tinha motivo para fugir. Foi levada sem documentos, sem dinheiro, sem roupa, de pijama. Era uma menina tranquila, a caçula de uma família trabalhadora e equilibrada.
Ainda em 2014 a família recebeu uma foto de uma moça hospitalizada em Belém do Pará. A semelhança com Graciane era impressionante (um perito forense analisou e disse que, pelas características, era muito provável que fosse Graciane). Foram até o hospital no Pará, mas não lhes foi permitido sequer entrar e, ainda em Belém, e mesmo após voltarem, receberam ligações de números não identificados com ameaças de morte.
São 20 anos de dor, saudade e luta. Sua mãe desenvolveu depressão e síndrome do pânico, e sua irmã Gislaine é quem assumiu o trabalho diário de buscas por respostas. Hoje o caso está na Interpol, pelas características claras de tráfico humano.
