Um lugar para o poema

Arquitetura poética spina, de Ronnaldo de Andrade, apresenta uma nova forma de poesia criada pelo autor pernambucano radicado em São Paulo.

Conheci Ronnaldo de Andrade na Bienal de São Paulo. Simples, sorridente, fácil de compreender, trazia a energia de quem inventa um lugar. Foto: Divulgação

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Encontrei Ronnaldo de Andrade na Bienal de São Paulo. Simples, sorridente, fácil de compreender, trazia a energia de quem inventa um lugar. O lugar, neste caso, era um poema. Antes de saber o que lá caberia, ele já lhe estava a desenhar as paredes.

A sua invenção chama-se spina e tem uma planta precisa: três versos de três palavras, seguidos de cinco versos de cinco palavras. Trinta e quatro palavras ao todo. Pernambucano radicado em São Paulo, Ronnaldo criou esta forma em 2019, depois de estudar a versificação e de ler Segismundo Spina.

Em Arquitetura poética spina, publicado pela Patuá, apresenta-nos o resultado desse gosto por construir.

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Interessa-me essa disposição. Um poema pode começar pela forma, ainda antes de sabermos o que temos para dizer. Ronnaldo quis dedicar-se a essa procura, experimentar o que acontece quando se escolhe primeiro o tamanho da casa. Há qualquer coisa de generoso em inventar uma forma que outros podem aprender e habitar.

Em “A busca”, escreve: “Procuro a vida / pela vida afora / dentro de mim.” Nove palavras fazem o percurso inteiro: a vida procurada no mundo acaba por conduzir ao interior de quem a procura. A repetição de “vida” sustenta o movimento. É uma entrada simples, daquelas que deixam o leitor aproximar-se sem lhe pedir credenciais.

“Força misteriosa” começa com um “caos invisível”, ainda sem nome. O poema passa pelo quente e pelo frio, pela agitação e pela calma, até encontrar na água uma imagem de potência e necessidade. Reconhece-se a instabilidade do que sentimos. A forma mantém-se enquanto as palavras mudam a temperatura do espaço.

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Em “Agudeza da dor sôfrega”, a água já rasga a terra. Ouvem-se gritos, surgem a guerra e a devastação, e o último verso deixa-nos diante de uma motosserra. A violência alarga o alcance dessa pequena construção. As mesmas medidas podem receber a inquietação íntima e o sofrimento do mundo.

Uma regra também oferece resistência. Nestes poemas, a rima por vezes aperta a frase e a acumulação de imagens torna a leitura mais áspera. A contagem exige escolhas; depois, cada escolha tem de conquistar o seu lugar ao ouvido. É esse trabalho que me interessa acompanhar no autor que conheci entre os livros e o movimento da Bienal.

Guardo daquele encontro a simplicidade do sorriso e a energia da proposta. Ronnaldo encontrou uma maneira de reservar lugar ao poema. Agora, a cada trinta e quatro palavras, precisa de voltar a abri-lo.

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Arquitetura poética spina — Ronnaldo de Andrade · Patuá · 152 páginas.