A disputa pelas diretrizes do governo federal contrapõe duas visões distintas sobre o papel do Estado, a gestão da economia e a condução das políticas sociais no País.
De um lado, Flávio Bolsonaro (PL) apresenta um projeto focado no liberalismo econômico, na desburocratização e no endurecimento da segurança pública. De outro, Lula (PT) propõe um modelo focado no fortalecimento do Estado de bem-estar social, no desenvolvimento sustentável e na indução estatal da economia.
Comparativo dos compromissos nas propostas de governo por área temática:
Papel do Estado e gestão pública
- Flávio: defende uma orientação liberal, conservadora e reformista, focada em um Estado enxuto e eficiente. Propõe a redução da máquina pública com o corte de no mínimo 10 ministérios, a diminuição de cargos comissionados e o combate a supersalários. O plano prioriza a autonomia financeira das famílias para a construção de patrimônio em vez da dependência do setor público.
- Lula: aponta a ampliação da capacidade de planejamento e indução do Estado como motor do desenvolvimento popular e soberano. A aposta central é na manutenção do investimento público social, na prestação universal de serviços e na expansão da participação social por meio de conferências e conselhos públicos.
Segurança Pública e Justiça
- Flávio: propõe a classificação de facções criminosas (como PCC e Comando Vermelho) como organizações narcoterroristas. Promete o uso de tropas especiais da Marinha e Aeronáutica no monitoramento permanente de portos e aeroportos, a construção de 5 novos presídios federais de segurança máxima com mais 500 mil vagas no sistema prisional, a implementação de castração química para abusadores sexuais e o sistema de reconhecimento facial “Muralha Brasileira” com mais de 1 milhão de câmeras. Defende também o redirecionamento de auxílios a detentos para as famílias das vítimas. No Judiciário, propõe restringir decisões monocráticas no STF e extinguir a reeleição presidencial.
- Lula: defende a criação do Ministério da Segurança Pública e o fortalecimento do Programa Brasil Contra o Crime Organizado, prevendo a alocação de R$ 10 bilhões via Fundo Nacional de Investimento em Infraestrutura Social (FIIS). Prevê o cumprimento do Plano Pena Justa no sistema penitenciário, a manutenção do controle rigoroso sobre o comércio de armas e munições e a ampliação do programa de estímulo às câmeras corporais em policiais.
Economia, gestão fiscal e Reforma Tributária
- Flávio: estabelece o equilíbrio fiscal por meio da corte profundo de despesas públicas (“tesouraço”). Compromete-se com a revisão e o redimensionamento da reforma tributária em curso para reduzir a alíquota do Imposto sobre Valor Agregado (IVA) e diminuir tributos sobre produção e consumo. Prevê a retomada do Programa Nacional de Desestatização e proíbe o uso de verbas de programas sociais em apostas online (bets).
- Lula: defende a consolidação do novo arcabouço fiscal aliado à responsabilidade social e ambiental. Basa a arrecadação na justiça tributária, mantendo a tributação sobre super-ricos e a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000. Prevê a implementação da reforma tributária do consumo com mecanismo de cashback para a população de baixa renda e Imposto Seletivo para produtos nocivos, impulsionada por investimentos estatais do Novo PAC e da Nova Indústria Brasil (NIB).
Trabalho, emprego e renda
- Flávio: busca a redução gradual do custo do trabalho para incentivar a formalização. Propõe estímulos fiscais para o primeiro emprego de jovens (18 a 24 anos) e a contratação de pessoas com mais de 50 anos desempregadas. Defende a prevalência do “negociado sobre o legislado”, a flexibilização de jornadas e a garantia das atividades por aplicativo sem ingerência sindical.
- Lula: reafirma a política de valorização real do salário mínimo. Assume o compromisso de apoiar o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais sem redução salarial. Prevê o combate à “pejotização espúria”, a regulamentação do trabalho intermediado por plataformas digitais com direitos trabalhistas e previdenciários e a consolidação da Lei de Igualdade Salarial.
Educação
- Flávio: estabelece a alfabetização pelo método fônico como prioridade pedagógica. Defende a gestão escolar orientada por indicadores de resultado, a ampliação das Escolas Cívico-Militares e a proibição de “doutrinação político-partidária” em sala de aula. Propõe ainda transferir a governança do ensino superior para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, visando alinhar a pesquisa acadêmica ao mercado produtivo.
- Lula: foca na expansão da educação em tempo integral e na construção de creches pelo Novo PAC. Promove o fortalecimento do Programa Pé-de-Meia para conter a evasão escolar no ensino médio, o aprimoramento das cotas raciais e sociais no ensino superior público e a consolidação da Universidade Indígena.
Saúde
- Flávio: propõe a correção efetiva da tabela de ressarcimento do SUS para conter a defasagem financeira de hospitais filantrópicos e Santas Casas. Defende a implementação do Prontuário Eletrônico Único integrado ao CPF/Gov.br e o uso de inteligência artificial para agilizar a marcação de consultas e exames preventivos na rede pública.
- Lula: prioriza o fortalecimento do SUS 100% público e universal. Apresenta o programa “Agora tem Especialistas” para reduzir o tempo de espera por exames e cirurgias via fila única digital regulada por risco clínico. Prevê investimentos contínuos na Estratégia Nacional do Complexo Econômico-Industrial da Saúde para nacionalizar a produção de medicamentos e vacinas.
Meio Ambiente, agronegócio e energia
- Flávio: enxerga o agronegócio como pilar da segurança alimentar nacional. Propõe a expansão do Seguro Rural, o incentivo à irrigação e o licenciamento ambiental ágil com concessão automática por inércia estatal caso prazos não sejam cumpridos. Estabelece a meta de zerar o desmatamento ilegal até 2029 e incentiva a exploração de gás não convencional (fracking) e biocombustíveis.
- Lula: reafirma o compromisso de alcançar o desmatamento líquido zero em todos os biomas até 2030 com apoio do Plano de Transformação Ecológica. Defende a transição energética acelerada via fontes renováveis e o fortalecimento do papel da Petrobras. Na agricultura, propõe a ampliação continuada do Plano Safra e do Pronaf com incentivo à agroecologia, bioinsumos e agricultura familiar.
Como foi a eleição no primeiro turno
Com 100% das urnas apuradas pela Justiça Eleitoral, Flávio Bolsonaro registrou 47,03% dos votos válidos, o que representa 56.104.503 votos. Já o presidente Lula somou 45,16% dos votos válidos, totalizando 53.879.538 votos.
Augusto Cury (Avante) ficou em terceiro lugar, com 3.448.569 votos dos votos válidos, seguido por Renan Santos (Missão), que obteve 2.675.887 votos. Já Ronaldo Caiado (PSD), na quina posição, teve 2.605.148 de votos, enquanto Romeu Zema (Novo), em sexto, conquistou 326.488 votos.
