Elas fazem tudo certo. E mesmo assim não avançam

Mulheres recebem mentoria, entregam resultados e acumulam experiência, mas ainda enfrentam barreiras para avançar na carreira e chegar à liderança

Apesar da alta de 11% na ocupação feminina, disparidade salarial persiste em 21,3%.

Ou será que as mulheres já falaram tudo o que precisavam — e agora está na hora de mais pessoas falarem por elas quando elas não estão na sala?. Foto: Ilustração IA/Gazeta de S.Paulo

Tem uma frase que costuma aparecer depois de uma reunião, as vezes no corredor, depois que todo mundo já levantou da mesa: “Você precisava falar mais.”

Continua após a publicidade

Parece um conselho excelente, afinal, se alguém é competente e suas ideias são boas, faz sentido incentivar que ela participe mais. Porém com o tempo, comecei a achar curioso que esse conselho quase sempre fosse dirigido às mesmas pessoas. Mulheres. Mulheres brilhantes, por sinal.

Aquelas que estudam, entregam resultado, conhecem o negócio, resolvem problemas difíceis e, ainda assim, saem da reunião com a sensação de que poderiam ter participado mais.

Até que um dia me ocorreu uma pergunta diferente. E se o problema não fosse falar mais, aparecer mais, e sim serem mais lembradas fora das salas de reunião? Herminia Ibarra, professora da London Business School, em parceria com a Catalyst realizou um estudo onde acompanharam mais de quatro mil profissionais considerados de alto potencial e chegou a uma conclusão que desmonta uma das crenças mais confortáveis do mundo corporativo: nem todo apoio é igual.

Continua após a publicidade

Mulheres recebem mais mentoria do que os homens, e ainda assim, avançam menos na carreira, ganham menos e chegam mais frustradas aos cargos de liderança. Treinamentos, mentores, trilhas de aprendizagem, cafés com executivos, rodas de conversa. Elas são incentivadas a participar de tudo. E tudo isso é sim importante. Acredito profundamente no valor de aprender com quem percorreu o caminho antes de nós.

O problema é que mentoria e oportunidade não são sinônimos. Mentores orientam. Patrocinadores apostam.

O patrocinador é aquela pessoa que coloca seu nome na conversa quando você nem sabe que ela está acontecendo. É quem diz “acho que ela está pronta” antes de a vaga ser aberta. É quem associa a própria reputação à sua porque acredita no seu potencial. Toda mulher que eu conheço tem alguém disposto a aconselha-la, poucas tem alguém disposto a apostar nela.

Continua após a publicidade

O BRICS CCI WE (Vertical de Empoderamento Feminino da Câmara de Comércio e Indústria do BRICS) : reuniu líderes globais para debater barreiras estruturais e oportunidades de expansão de mulheres nos ecossistemas de negócios e tecnologia. E como resultado publicaram um roteiro estratégico mapeando sete barreiras estruturais para mulheres, e uma delas foi nomeada com uma expressão precisa: Missing Middle, o “meio esquecido”.

É a lacuna onde estão mulheres que não são iniciantes mas também ainda não chegaram ao topo.

O lugar daquele longo trecho do meio da carreira em que já provaram competência inúmeras vezes, mas continuam esperando que a próxima oportunidade apareça naturalmente, como uma consequência inevitável do bom trabalho. Talvez porque tenha sido isso que aprenderam. Se você estudar, entregar e trabalhar duro, alguém vai perceber. A meritocracia realmente tem uma promessa bonita.

Continua após a publicidade

Mas a realidade costuma ser um pouco mais complexa.

As empresas costumam cuidar muito bem das duas pontas. Na entrada da carreira, investem em formação, usando treinamentos e mentores para reter talentos e reforçar compromisso com a diversidade. No topo celebram as poucas que chegaram lá. E o meio? O meio é onde mora o congestionamento.

Ao longo da minha carreira, conheci mulheres extraordinárias.

Continua após a publicidade

Também conheci homens extraordinários. E a diferença raramente estava na capacidade, mas na rede de pessoas que dizia seus nome quando eles não estavam presentes. “Você precisava falar mais.” Será? Ou será que as mulheres já falaram tudo o que precisavam — e agora está na hora de mais pessoas falarem por elas quando elas não estão na sala?