Pênaltis: treinamento, habilidade ou loteria?

Por muitas vezes, o debate é superficial, afinal, não é apenas loteria, nem apenas competência; é o momento perfeito para o time mais fraco equilibrar o jogo

Os goleiros não poderão promover mais as "catimbas" antes das cobranças de pênaltis para distrair o adversário cobrador

Cássio é, atualmente, o melhor pegador de pênaltis do Brasil | Daniel Augusto Jr/Agência Corinthians

O debate sobre as penalidades máximas serem mais sorte ou competência não é nenhuma novidade. Mas, pela grande ocorrência dos pênaltis em jogos relevantes recentes, o tema voltou à tona.

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Só para citar alguns jogos de grandes definidos nas cobranças de penalidades temos: Brasil eliminado para a Croácia na Copa do Mundo de 2022, Corinthians eliminado para o Ituano e São Paulo eliminado para o Água Santa nas quartas do Paulistão 2023, Vasco eliminado para o ABC na Copa do Brasil também deste ano.

Por muitas vezes, o debate é superficial, afinal, não é apenas loteria, nem apenas competência. A hora das penalidades é o momento perfeito para o time mais fraco equilibrar o jogo. E para vencer uma disputa é necessário uma combinação de fatores, que não se resumem apenas a treinamento. Uma prova disso é o Palmeiras de Abel Ferreira, o time mais vitorioso do Brasil, mas que sofreu derrota nas penalidades para o Al-Ahly, São Paulo, Defensa y Justicia e CRB, e até mesmo em campo – antes de Raphael Veiga assumir como batedor oficial, a equipe desperdiçava muitas cobranças.

Goleiro em pênaltis

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Goleiro especialista em pênalti é fundamental. Exemplo disso é o gigante Cássio, do Corinthians, que é o melhor no quesito do País, e que poderia ter sido inclusive convocado para a Copa só para entrar nesse momento. Com Cássio no gol contra a Croácia, creio que pelo menos um pênalti teria sido defendido por ele.

É evidente que apenas um bom goleiro não basta, afinal mesmo com Cássio no gol, recentemente o Corinthians caiu nas penalidades para o Ituano, do também grande goleiro Jefferson Paulino.

Recém-eliminado nos pênaltis para o Água Santa, o São Paulo vinha tendo um desempenho quase perfeito nas últimas disputas por penalidades: eliminou Palmeiras na Copa do Brasil de 2022 e Ceará e Atlético-GO na Sula de 2022. Com goleiros criticados desde a aposentadoria de Rogério Ceni, a torcida nao põde reclamar dos arqueiros em penalidades. Jandrei, Felipe Alves, e até Tiago Volpi demonstraram enorme qualidade no quesito. Rafael, atual titular, defendeu uma das cobranças do time de Diadema, porém viu sua equipe desperdiçar duas.

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Um episódio memorável é o da Copa de 2014, quando Van Gaal, prestes a ver sua equipe partir para uma disputa por penalidades, substituiu o goleiro Cillessen por Tim Krul. Inicialmente criticado, o treinador virou herói: viu seu goleiro defender duas cobranças e classificar a Holanda para as semis do Mundial.
Já nas semis, contra a Argentina, o técnico optou por manter Cilessen para os pênaltis, e o resultado foi totalmente oposto. Foi uma das piores atuações de goleiros em disputas de penalidades numa Copa. O arqueiro chegou ainda a falhar e espalmar uma das cobranças para dentro do gol. Ou seja: no caso da Holanda o fator goleiro foi fundamental.

Há grandes goleiros que defendem poucos pênaltis, o fato dele ser um herói no tempo normal nao influencia diretamente na hora de defender as penalidades. Dida é o grande exemplo positivo. Espetacular nos tempos normais e na marca da cal, com 42 pênaltis defendidos. Rogério Ceni é outro exemplo, sendo o goleiro com mais pênaltis  defendidos na história do futebol, com 51 defesas, além de impecável no tempo normal.

Mas há o outro lado da história, como Weverton, do Palmeiras. Herói do ouro olímpico ao defender uma cobrança no Rio-2016, o goleiro é unanimidade no gol do alviverde. Porém, chegou a ser criticado pela torcida pelo baixo número de penalidades defendidas pelo clube. 

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De modo geral, goleiro é habilidade, com uma pitada de sorte. Seja adivinhar o canto, esperar o batedor definir. Nenhum arqueiro tem obrigação de defender todas as penalidades, e na posição deles, é questão de característica individual.

Sorte ou competência?

Nem apenas sorte, nem apenas competência, mas as duas coisas misturadas. Assim como goleiros, tem jogadores que tem qualidade acima do normal para balançar as redes em penalidades. Neymar, Gabriel Barbosa, Reinaldo, Galoppo, Raphael Veiga, Fábio Santos, são alguns com alto índice recente de conversão na marca da cal.

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Grandes jogadores também podem decepcionar nos pênaltis e terem um número não tão bom. Lionel Messi, o melhor do mundo, não tem um desempenho tão alto: em um total de 141 cobranças, o craque argentino fez 110 e perdeu 31. Perdeu cobranças em finais de Copa América, converteu em fases decisivas da Copa de 2022.

Artilheiro, Luís Fabiano tinha um desempenho ruim em pênaltis no São Paulo, com média de um erro a cada quatro cobranças. Um dos maiores ídolos do Palmeiras em toda a história, Dudu não fica em campo quando o Palmeiras vai pra disputa de pênaltis. Segundo o “Lance!” o camisa 7 do Verdão tem nove pênaltis e cinco erros, ou seja, perdeu mais da metade. Em entrevista para a ESPN em 2020, o atacante chegou a afirmar que “não é por ser um dos craques do time que ele deveria ser o batedor oficial”.
Em resumo: ninguém pode ousar diminuir a carreira de Luís Fabiano ou de Dudu por não serem grandes batedores de penalidades, afinal na hora do jogo eles não decepcionaram.

Fagner, do Corinthians, é ídolo e líder da equipe, mas também já demonstrou que não tem grande habilidade para realizar as cobranças da marca da cal pelo Timão. Contra o Ituano, bateu para evitar que o jovem Pedrinho acabasse cobrando e em caso de erro, se sentir queimado já no início da carreira. Grande atitude fora de campo, pois dentro, custou uma classificação.

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Pedro Raul, centroavante do Vasco, era especialista em penalidades até chegar ao Gigante da Colina. Pelo time carioca são três cobranças e três erros. Mesmo tendo errado duas vezes em duas tentativas, foi o escolhido por Barbieri para bater o pênalti decisivo na Copa do Brasil, que caso fosse convertido, daria a classificação ao clube. Perdeu a cobrança, e o time acabou eliminado. 

O técnico tem poder de decidir quem deve ou não cobrar. O jogador é humano, e insistir em quem não vêm bem, é um grande erro. Assim como não colocar seu melhor batedor para abrir as cobranças, como Tite fez ao não colocar Neymar para cobrar e ver seu País ser eliminado.

Estratégia

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Algo que chamou a atenção no Brasil x Croácia foi o fato de o país europeu ter cobrado por duas vezes penalidades no meio do gol, o famoso “pênalti de segurança”, enquanto todos os brasileiros tentaram ao máximo tirar do goleiro.

Seja deslocar o goleiro e cobrar do lado oposto, seja bater forte no canto para que mesmo que o goleiro acerte o canto ainda não seja capaz de defender, ou simplesmente soltar uma bomba no meio do gol, tudo é estratégia, e deve-se pensar conforme a disputa vai se desenrolando. 

Cada batedor tem em mente sua maior segurança no modo de cobrar. Só erra quem bate, isso é fato. Mas quem erra, deve repensar no que foi determinante para seu erro e mudar a cobrança, e o treinador rever a lista na próxima ocasião.

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Há casos específicos em que o batedor faz tudo certo, mas o goleiro vai ainda melhor. Nessa ocasião resta apenas lamentar seu azar.

Para a torcida, essa sim, pênalti é 100% loteria. O torcedor pode somente torcer, vibrar, e esperar que sua equipe saia vencedora. Assistir uma disputa por penalidades é uma das melhores coisas do futebol, desde que seu time não esteja entre os participantes.

Para encerrar, provando que pênalti é algo imprevisível, deixo aqui um grande momento de Craque Neto cornetando o Márcio Araújo, que calou o comentarista ao marcar de cavadinha: