Ao começar o artigo deste mês, fiquei pensando no título que daria ao texto. Decidi optar por expressar, em poucas palavras, o sentimento de dor pela repetição de uma tragédia anunciada. Afinal, não há como definir melhor a situação do povo de São Sebastião, mais uma vez castigada pelas chuvas que arrasaram as encostas do Litoral Norte paulista, no Carnaval. Até agora, contamos mais de 60 mortos, cerca de 30 desaparecidos e mais de 4 mil pessoas desalojadas. Parece o enredo de um filme repetido. E é! Só para lembrar, em 2011 mais de mil vidas foram perdidas na região, após um período de fortes temporais.
As cenas de catástrofe nas praias, ruas e estradas são de horrorizar: inúmeras pessoas – moradores e turistas – ilhadas, sem energia elétrica, sem comunicação, sem água. Os relatos do primeiro dia de temporal são de que a região foi assolada por uma tempestade incomum, algo estranho, que parecia ir além de uma chuva extremamente forte. Mas já sabemos que isso é o ‘novo normal’. O clima mudou e não podemos esperar que velhas ações resolvam o problema.
Como sempre, as populações mais pobres, que vivem em áreas mais vulneráveis, são as vítimas preferenciais, as que mais sofrem. E é nesses locais que se concentra a maior parte das vítimas fatais e desabrigados no Litoral Norte, sobretudo em São Sebastião. Na Vila Sahy, uma das praias mais atingidas, é possível identificar, com as imagens de satélite, que as casas derrubadas pelos deslizamentos de terra estavam localizadas exatamente no limite da área onde a prefeitura permitiu ocupação, em uma região íngreme e extremamente desfavorável à urbanização.
Há de se perguntar, então, mais uma vez, por que o poder público continua permitindo a construção de moradia em áreas assim tão vulneráveis. E por que naquelas em que a ocupação é proibida, não se consegue realizar uma ação efetiva para tirar os moradores do local, oferecendo opções mais dignas.
Ao analisar o horror da tragédia em si, assusta também o descaso das autoridades, que, a cada estação chuvosa, não se empenham em criar mecanismos ágeis e abrangentes de alerta. Como em todos os anos, esse não foi um evento inesperado e inusitado, do ponto de vista de previsão. O Instituto Nacional de Meteorologia já previa a condição para tempestades em São Sebastião pelo menos 24 horas antes das chuvas acontecerem.
No entanto, segundo entrevista publicada pelo Jornal da USP com o especialista Pedro Luiz Côrtes, as mensagens enviadas à população pela Defesa Civil, via SMS, são vagas e chegam apenas para aqueles que estão cadastrados. Muitas pessoas nem sequer conhecem a existência desse serviço e, portanto, não recebem os alertas.
Diante da insistência em repetir tantos erros, a pergunta que me faço é se já estamos indignados o suficiente para, como sociedade civil e poder público, tomarmos medidas concretas para proteger a vida das pessoas. Ou vamos continuar enviando roupas e sapatos usados, toalhas velhas e fazendo um Pix para auxiliar as entidades de ajuda humanitária a cada verão, depois que a tragédia acontece?
*Cris Monteiro é vereadora em São Paulo pelo NOVO-SP
