Confiança: o ativo que não cabe na planilha

O futuro do planejamento financeiro vai além de investimentos; entenda por que a confiança será essencial nas decisões financeiras

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O planejador financeiro do futuro não será necessariamente aquele que calcula mais rapidamente. Será aquele que consegue compreender melhor. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Qual será o ativo mais valioso do mundo nos próximos anos?

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Talvez não seja uma ação, uma moeda, um imóvel ou uma nova tecnologia. Em uma sociedade marcada pela abundância de informações, pela automação das análises e dos processos e pela crescente capacidade da inteligência artificial, o ativo mais valioso pode ser justamente aquele que não aparece nos balanços: a confiança.

A palavra fidúcia tem origem no latim fiducia e carrega os sentidos de confiança, segurança e credibilidade. É também dessa raiz que deriva o conceito de responsabilidade fiduciária: o compromisso de agir em benefício daquele que confiou a outra pessoa a proteção de seus interesses.

Essa ideia está no centro do planejamento financeiro, patrimonial e sucessório. Quem procura um profissional para cuidar de sua vida financeira não entrega apenas números. Entrega informações sobre sua renda, seus bens, suas fragilidades, seus projetos e, muitas vezes, seus maiores medos.

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Num momento em que vivemos uma profunda transformação da atividade financeira, com ferramentas tecnológicas que conseguem organizar dados, comparar produtos, simular cenários, calcular probabilidades e identificar alternativas de investimento em poucos segundos, a confiança não é um atributo acessório do serviço, mas sim, o fundamento da relação.

Uma máquina pode identificar o investimento mais rentável, calcular o valor necessário para a aposentadoria ou estimar a probabilidade de a estratégia alcançar o objetivo, mas não consegue compreender plenamente o significado que o dinheiro assume na história da pessoa que está na sua frente.

Perceber o silencio de quem teme depender financeiramente dos filhos, reconhecer a culpa de quem prosperou mais do que seus irmãos, compreender o medo de um empresário diante da sucessão, perceber a insegurança de uma mulher que nunca participou das decisões patrimoniais do casal ou a dificuldade de uma família para conversar sobre herança, é algo que está exclusivamente na dimensão humana desse trabalho.

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É nesse contexto que os profissionais que acumulam muita experiência na bagagem vêm ganhando espaço. Durante anos, parte do mercado vendeu a ideia de que juventude seria sinônimo de inovação e que experiência poderia se tornar obsoleta diante da tecnologia.

Talvez estejamos começando a compreender exatamente o contrário: quanto mais as ferramentas assumem as tarefas técnicas e repetitivas, mais valiosas se tornam a maturidade, a escuta, o repertório e a capacidade de formular as perguntas certas.

O planejador financeiro do futuro não será necessariamente aquele que calcula mais rapidamente. Será aquele que consegue compreender melhor.

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O modelo dos sete níveis de consciência, desenvolvido por Richard Barrett, a partir de uma ampliação das necessidades humanas descritas na pirâmide de Maslow, ajuda a compreender essa mudança. Esse modelo passa pelo interesse próprio, que olha para a  sobrevivência, segurança, relacionamentos e autoestima, avançando para a transformação, coesão interna, fazer a diferença e serviço altruísta.

Aplicada ao planejamento financeiro, essa perspectiva muda profundamente a conversa.

Continuamos falando sobre reserva de emergência, proteção patrimonial, aposentadoria, investimentos e sucessão. Os documentos podem até ser os mesmos. As planilhas também. Mas as perguntas se tornam mais profundas.

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O dinheiro é suficiente para pagar as contas ou também proporciona segurança?

As decisões financeiras fortalecem ou fragilizam os relacionamentos familiares?

O patrimônio construído representa liberdade, reconhecimento, controle ou medo?

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A pessoa deseja apenas acumular mais ou já consegue compreender o que considera suficiente?

Que transformação essa família pretende realizar por meio de seus recursos?

Qual legado deseja deixar?

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Planejamento financeiro não é apenas conduzir alguém do ponto A ao ponto B. É ajudar uma pessoa ou uma família a perceber onde está, compreender por que chegou até ali e decidir, conscientemente, aonde deseja chegar.

Isso exige conhecimento técnico, naturalmente. Exige domínio de investimentos, tributação, previdência, riscos, sucessão e proteção patrimonial. Mas exige também presença, sensibilidade, ética e coerência.

Não basta conhecer os produtos. É necessário conhecer as pessoas.

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Estou falando de um planejamento que possa ser verdadeiramente transformador aliando a ressonância entre os valores do profissional e os valores do cliente. Isso não significa que ambos precisem pensar da mesma forma. Significa que deve haver compatibilidade em princípios fundamentais: transparência, responsabilidade, respeito, autonomia e compromisso com decisões conscientes.

O profissional não está ali para impor sua visão de prosperidade. Está ali para ajudar o cliente a construir a própria visão, e transformá-la em escolhas possíveis, sustentáveis e coerentes.

A inteligência artificial continuará ampliando a capacidade analítica do mercado financeiro. Teremos ferramentas cada vez mais rápidas, precisas e sofisticadas. Contudo, justamente por isso, a diferença entre profissionais deixará de estar apenas no acesso à informação ou na capacidade de realizar cálculos.

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A diferença estará na confiança.

Confiança para revelar dúvidas que nunca foram verbalizadas. Confiança para admitir escolhas equivocadas. Confiança para falar sobre dinheiro, poder, dependência, envelhecimento e morte. Confiança para construir um plano que não seja apenas financeiramente eficiente, mas humanamente verdadeiro.

No futuro do planejamento financeiro, a tecnologia provavelmente fará grande parte das contas.

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Mas continuará cabendo ao ser humano compreender o que realmente importa.