Guerra das vacinas

A história da vacina é tão antiga quanto a desconfiança da população; porém, é preciso levar em conta o grau de promoção de benefício coletivo

Rio recebe novas doses contra gripe e retoma imunização amanhã

Vacinação contra a gripe | Letícia Teixeira/PMSCS

Um mal invisível ameaça acabar com milhões de vida no planeta e, enquanto comandantes discutem uma maneira de impedir uma calamidade através de uma substância química, a disputa pelo poder pode acabar com a esperança de salvar vidas. Escrito desta maneira até poderia ser roteiro de filme de ficção científica, porém é a realidade do planeta Terra agora. Em pleno século 21, quatro séculos depois da invenção da primeira vacina do mundo, os seres humanos estão sofrendo com o coronavírus, que já matou 1,5 milhão de pessoas no mundo, 175 mil só no Brasil.

Continua após a publicidade

A vacina é o caminho mais curto para acabar com uma doença que se espalha rapidamente. Porém, o tempo é o inimigo, já que não se pode fazer mais como Edward Jenner: usar até o próprio filho de cobaia para provar a eficácia da vacina da varíola. Isso foi em 1798, e desde lá, o processo evoluiu demasiadamente e são necessárias diversas fases de testes até se provar a eficácia e segurança de um imunizante. A vacina produzida em menos tempo, a da caxumba, demorou cerca de quatro anos para chega à população, em 1948.

Por sorte, através do progresso da ciência, ao que tudo indica, teremos uma vacina no modo “Express”. A Rússia e o Reino Unido anunciaram que começam a vacinação nos próximos dias, cerca de um ano depois dos primeiros registros oficiais do coronavírus no mundo. Tudo caminhando para um final feliz. Porém, aqui no Brasil, o enredo é um tanto mais complicado. São cinco vacinas sendo testadas na nossa população e uma delas, a CoronaVac, estaria, segundo o Governo do Estado de São Paulo, mais avançada nos estudos e, portanto, mais próxima de chegar à população.

Apesar da saúde pública ser um direito garantido pela Constituição brasileira, não há um consenso entre os governantes para a ampla produção e distribuição do imunizante para os mais de 200 milhões de brasileiros. O ministro da Saúde, Eduardo Pauzello até tinha feito acordo com o Instituto Butantan no valor de R$ 2 bilhões, mas o presidente Jair Bolsonaro desautorizou o ministro.

Continua após a publicidade

Bolsonaro não confia na vacina chinesa e nem no governador João Doria, seu possível adversário político em 2022. Como se não bastasse a briga para trazer a vacina da China (CoronaVac) ou da Inglaterra (Oxford), o presidente ainda declarou que o brasileiro não será obrigado a se vacinar.

Caminhamos assim para um remake da Revolta da Vacina. Aqueles contra e a favor da obrigatoriedade. A história da vacina é tão antiga quanto o medo e desconfiança da população. Porém, é preciso levar em conta o grau de promoção de benefício coletivo em detrimento da individualidade. Mas esse é um outro capítulo. Melhor esperar a vacina chegar primeiro.