Cidades: Encontro ou passagem?

Com o passar dos anos, nossas cidades estão se transformando cada vez mais em lugares de passagem, ao invés da permanência

Vista aérea da região central de São Paulo

Vista aérea da região central de São Paulo | Bruno Hoffmann

Com o passar dos anos, nossas cidades estão se transformando cada vez mais em lugares de passagem, ao invés da permanência – ambientes de isolamento e distanciamento, ao invés do encontro. Ou não é a vida em sociedade e as possibilidades de troca, a razão de ser das próprias cidades? Não nos enganemos: ao imprimir uma lógica meramente utilitarista ou mercantilista ao lugar onde vivemos, estamos fazendo o mesmo com as nossas próprias vidas.

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A expulsão das camadas mais pobres da população das regiões com maior oferta de trabalho e de serviços públicos distancia estas pessoas de seus direitos e gera inúmeros conflitos. Já os padrões de moradia adotados pelas classes médias, com enormes conglomerados de arranha-céus amontoados em condomínios fechados, ou o modelo de vida das elites econômicas, são tão segregados quanto segregadores. O mesmo acontece com os nossos padrões de deslocamento, privilegiando o transporte motorizado individual em detrimento do coletivo. Se somarmos a tudo isso a precarização do espaço e dos serviços públicos, entenderemos algumas das causas e consequências da lógica individualista no nosso dia a dia. 

Este tipo de ambiente diversifica e intensifica as disputas inerentes à uma sociedade de classes. São disputas se manifestam no trânsito, na fila do banco ou do mercado, na relação dos pais com os professores e escolas de seus filhos, nas relações de trabalho, em casa, no esporte e até no lazer. Estamos criando gerações de pessoas incapazes de viver em sociedade, de conviver com a diferença, habitando cidades com um, três, às vezes cinco ou até quinze milhões de habitantes. Para piorar, nota-se que quanto mais as pessoas se distanciam umas das outras, dos espaços e serviços públicos, mais o ambiente urbano se degrada, apartando ainda mais as pessoas delas e do meio, num ciclo vicioso infinito.

Por outro lado, um modelo de sociedade que garante a universalidade da moradia e acesso ao transporte, que oferece espaços e serviços públicos de qualidade, tende a aproximar pessoas, tornando o próprio ambiente mais seguro, agradável e democrático. Para isso, é preciso engajamento social, mas só isso não basta se não houver política pública. Enquanto estivermos presos em pequenas disputas com nossos vizinhos, estaremos afastando a possiblidade de construir juntos cidades justas e sustentáveis.