E se ela tivesse ajuda?

Violência contra a mulher não começa no feminicídio. Entenda por que reconhecer sinais e mudar comportamentos pode ajudar a prevenir novas vítimas

O avanço da operação Compliance Zero da Polícia Federal, que pegou em cheio Daniel Vorcaro (Master), a direção do BRB e a cúpula do GDF, pode ter ensinado algo aos poderosos de Brasília. Foto: Divulgação

Talvez seja chegarmos ao dia em que nenhuma mulher precise desaparecer para que alguém decida enxergá-la. Foto: Divulgação

E se alguém tivesse denunciado? E se ele tivesse sido preso? E se, antes de tudo isso, alguém tivesse percebido?

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O agressor trabalha em algum lugar. A vítima também. Eles chegam pela manhã, cumprem metas, conversam com colegas, respondem a líderes. Em algum momento, a violência que acontece dentro de casa atravessa a porta da empresa com eles. Será que ninguém percebe nada?

Talvez essa pergunta nos incomode porque nos obriga a abandonar o lugar confortável de espectadores. É mais fácil acreditar que a violência contra a mulher pertence à intimidade de uma família, à polícia depois da denúncia ou à Justiça depois do crime.

Mas o feminicídio não começa no feminicídio. Antes dele podem existir controle disfarçado de cuidado, ciúme confundido com amor, vigilância chamada de proteção, ameaças e humilhações. Sinais que atravessam nossas casas, escolas e empresas. E nós também estamos nesses lugares.

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Por isso, talvez não baste perguntar o que o agressor fez. Precisamos ter coragem de perguntar: o que temos feito para que determinadas formas de violência continuem encontrando ambientes onde conseguem sobreviver?

O menino observa como o pai trata a mãe. O adolescente percebe quais piadas os adultos toleram. O colaborador observa como seu líder se refere às mulheres quando nenhuma delas está na sala.

Uma sociedade inteira aprende quais comportamentos serão confrontados e quais continuarão sendo permitidos. É aqui que a violência contra a mulher encontra a liderança.

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Liderar não é apenas entregar resultados ou conduzir equipes. Quem ocupa uma posição de influência participa da construção da cultura pelo que diz, pelo que faz e, principalmente, pelo que escolhe tolerar. Imagine se empresas tratassem esse assunto não apenas durante o Agosto Lilás.

Se preparassem suas lideranças para reconhecer sinais, construíssem espaços seguros de escuta e compreendessem que saúde mental não começa quando alguém colapsa.

E se também olhássemos para os homens? Para a forma como poder, masculinidade, rejeição e controle aparecem nas relações? Para o líder que interrompe uma fala desrespeitosa quando seria mais fácil rir? Para aquilo que ensinamos aos meninos antes que se tornem homens? Isso também é regeneração humana: não esperar o dano para começar a cuidar.

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E não cabe apenas às empresas. Políticas públicas precisam ir além da reação ao crime. Escolas precisam participar dessa formação. Famílias também. Saúde mental, educação, segurança e cultura não podem continuar funcionando como problemas separados quando a vida acontece inteira.

Séculos se passaram. A ciência nos permitiu editar genes e construir máquinas capazes de aprender. Ainda assim, discutimos se uma mulher provocou a própria violência pela roupa que vestia, pela maneira como dançava ou simplesmente porque decidiu ir embora. Nenhum desses argumentos deveria sobreviver ao nosso tempo.

Talvez, neste Agosto Lilás, precisemos mudar as perguntas.

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Em vez de questionarmos por que ela não foi embora, por que não perguntamos por que ela não encontrou ajuda? Em vez de tratarmos cada nova vítima como mais um número, poderíamos olhar para o nosso próprio espaço de influência: O que eu tenho feito que contribui para perpetuar essa cultura? E o que tenho feito para transformá-la?

O mundo mobiliza ciência, dinheiro e inteligência quando entende que um problema ameaça o nosso futuro. A saúde precisa entrar em colapso para buscarmos novos medicamentos.

O planeta precisa chegar ao limite para mudarmos nossos hábitos. E as mulheres? Quantas ainda precisarão faltar à mesa, ao trabalho, à escola, à vida de seus filhos e à própria história para entendermos que não podemos continuar esperando?

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Talvez o maior avanço do nosso tempo não seja tecnológico.

Talvez seja chegarmos ao dia em que nenhuma mulher precise desaparecer para que alguém decida enxergá-la.