Assessores do PRB usam verba do Legislativo para atividades do partido em SP

A sigla usa funcionários pagos com dinheiro público para fazer as vezes de professor, secretária, assessor de imprensa e até motorista Por Folhapress De São Paulo

Mariluce dá aulas de inglês, Marilda atua num projeto voltado às mulheres e Eduardo organiza cursos de política. Mario trabalha na máquina partidária e Cirlene, por sua vez, dá expediente um projeto social de evangelização.

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Eles são assessores do Legislativo federal, estadual ou municipal, lotados em gabinetes de membros do PRB (Partido Republicano Brasileiro). No entanto, dão expediente em outros lugares e usam o horário de trabalho para atuar em braços políticos e religiosos da sigla.

A Folha de S.Paulo passou o último mês acompanhando a rotina da sede estadual e municipal do PRB, no Planalto Paulista, na zona sul de São Paulo. Nesse período, foram flagrados veículos oficiais e cerca de 20 servidores públicos no sobrado amplo na avenida Indianópolis.

A reportagem ligou para alguns dos gabinetes onde eles estão lotados e foi a outros; em nenhum dos casos encontrou os assessores citados. Além disso, chegou a ouvir de funcionários destes locais que servidores não trabalhavam ali.

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Os partidos deveriam se manter apenas com recursos de doações e do fundo partidário, verba geralmente usada para o pagamento de funcionários. Em 2019, o PRB receberá a nona maior cota do fundo, cerca de R$ 47 milhões, mais do que partidos como o DEM.

Apesar disso, a sigla usa funcionários pagos com dinheiro público para fazer as vezes de professor, secretária, assessor de imprensa e até motorista. Essa mão de obra também é absorvida em? entidades como a Fundação Republicana Brasileira, braço político e educacional do PRB.

A assistente parlamentar Mariluce Siman, por exemplo, recebe R$ 5.800 para atuar no gabinete do deputado estadual Wellington Moura, parlamentar que hoje preside uma CPI para investigar universidades públicas. Ela trabalha, porém, como professora de inglês na FRB -as aulas acontecem às terças e quintas, em seis horários durante o dia, entre 8h45 e 20h15.

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A reportagem ligou para o gabinete de Moura na quarta-feira (24) procurando Mariluce, mas a atendente não sabia de quem se tratava. No dia seguinte, o repórter da Folha foi até o local e se apresentou.

Aparentando nervosismo, funcionárias disseram que ligariam para saber onde a servidora estava – ao fim, disseram que Mariluce não voltaria mais, pois havia ido ao médico.

Pouco mais de uma hora depois, em conversa curta por telefone celular, Mariluce disse que havia voltado à Assembleia. “Sou voluntária [dando aulas de inglês]. Não fico só aqui”, disse.

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O responsável pela FRB em São Paulo é Eduardo Verrone, lotado no gabinete do deputado estadual Sebastião Santos (PRB). Verrone também viaja articulando cursos de política e é visto com frequência falando ao celular na frente do escritório político.

Outro que costuma andar de um lado para o outro na garagem do partido é Mario Teixeira, funcionário de Sebastião Santos. No partido ele é conhecido como articulador financeiro, mas, no gabinete, um funcionário afirmou que desconhecia tanto seu nome quanto o de Verrone.

Assim como a Fundação Republicana, o PRB Mulher também se beneficia do trabalho de comissionados. Marilda Barbosa é contratada do vereador Souza Santos, de São Paulo, e atua neste órgão do partido.

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Por telefone, seu nome soou desconhecido à atendente do gabinete. Pessoalmente, uma outra funcionária disse ao repórter que ela não poderia ser encontrada no local, pois fazia trabalhos externos.

No entanto, a própria Marilda disse à Folha por telefone que fazia trabalhos internos. Mudou a versão, ao ser confrontada, e afirmou: “Sei onde você está querendo chegar. Eu não sou funcionária fantasma”.

Até a coordenadora de comunicação do partido, Fábia Zuanetti, está lotada em um gabinete na Assembleia, o do deputado estadual Gilmaci Santos. Ela já atendeu a Folha, inclusive, em horário comercial sobre demandas relacionadas ao partido, mas afirma atuar fora do horário de trabalho e de maneira voluntária.

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Parte da base de apoio do governo João Doria (PSDB) no estado e Bruno Covas (PSDB) no município, o PRB é dono de indicações políticas no Executivo.

O partido tem vários de seus principais nomes ligados à Universal, igreja onde a Folha também encontrou servidores legislativos atuando durante horário de expediente. Cirlene Rosa Conceição, por exemplo, atua na Unisocial, projeto social e evangelizador da igreja. Ela é lotada no gabinete do deputado federal Vinícius Carvalho, um pastor licenciado da entidade religiosa.

Após confirmar que ela estava no Unisocial durante a tarde por dois dias na semana passada, a reportagem ligou para o telefone fixo do projeto no terceiro dia e falou com ela.

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Ao ser questionada sobre o que fazia trabalhando ali em horário de expediente, Cirlene disse que precisava falar com seu superior. No escritório político do deputado Carvalho, em Osasco (Grande SP), ninguém a conhecia.

OUTRO LADO

O PRB paulista nega que funcionários atuem no escritório na hora do expediente.

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“Os funcionários públicos citados atuam nos gabinetes dos deputados ou no gabinete da liderança do PRB-SP na Assembleia Legislativa e foram contratados exclusivamente pelos parlamentares. Alguns deles prestam serviço para a Fundação Republicana Brasileira, como voluntários, e fora do horário de expediente”, afirma o partido, em nota.

Mariluce Siman afirmou dar expediente na Assembleia e diz que atua como professora voluntariamente.
Questionada sobre a atuação em horário de expediente, pediu para a reportagem procurar o gabinete.

O deputado Wellington Moura afirmou, em nota, que Mariluce cumpre sua carga horária. “Às terças e quintas-feiras, a funcionária participa de reuniões na sede do partido, com o escopo de aprimorar o desenvolvimento econômico e social dos municípios onde possuo base política. E nos intervalos intrajornada, a mesma aproveita para ministrar aulas voluntárias, sem qualquer remuneração, com a minha anuência.”

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O deputado estadual Sebastião Santos afirmou que tanto Eduardo Verrone quanto Mario Teixeira atuam em serviços externos representando seu gabinete.

“Quanto a realização dos cursos que o senhor Eduardo Verrone vem ministrando neste curto período, como representante deste parlamentar, em diversas regiões do Estado de São Paulo, certamente só tem agregado a este gabinete, já que nos traz grande demanda, viabilizando a interação deste parlamentar com diversas entidades e com a população local”, diz nota do deputado.

Sobre Teixeira, o deputado afirma que “muitas demandas de prefeitos e vereadores do interior são encaminhadas diretamente ao partido, sendo este o motivo pelo qual o mesmo frequenta o partido com assiduidade, nos trazendo toda a demanda lá existente”. Teixeira ainda justificou não ter seu nome reconhecido no gabinete por ser conhecido como Zaqueu.

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Um terceiro funcionário, Anderson de Souza, também flagrado no escritório do PRB, atua entregando ofícios, mas que ele não fará mais parte da equipe.

O deputado Gilmaci Santos afirmou estar ciente das atividades da assessora Fabia Zuanetti, mas diz que ela dá expediente na Assembleia e fora dela, além de buscar demandas no escritório do PRB.

A assessoria do vereador Souza Santos afirmou que a funcionária que disse que Marilda não trabalhava era recém-contratada e que ela é conhecida pelo segundo nome -no Facebook, ela utiliza o nome Marilda, e não o segundo nome. “A funcionária em questão desempenha também função externa, visitando diversas bases espalhadas pela cidade e órgãos institucionais, não se limitando ao expediente prestado exclusivamente gabinete”.

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A Igreja Universal afirmou que o Unisocial conta com 3.599 voluntários. “Certamente, a Folha de S. Paulo sabe que no voluntariado não há controle de jornada, de presença e tampouco “expediente” prestado. Trata-se de uma atividade não remunerada, prestada por pessoa física a instituição sem fins lucrativos, que tem como objetivo a assistência solidária e humanitária ao próximo, no tempo livre disponível de cada voluntário. A igreja afirmou que seus projetos ajudam a auxiliar pessoas “invisíveis à sociedade”.