Uma filhote de onça-parda que chegou a não conseguir ficar em pé e correu o risco de perder uma das patas voltou à natureza após mais de 60 dias de tratamento. Batizada de Savana, a fêmea foi solta na quarta-feira (21/10), no Parque Estadual Morro do Diabo, em Teodoro Sampaio, no interior de São Paulo.
A soltura marcou o fim de uma recuperação que começou em condições críticas. Quando recebeu atendimento, o animal apresentava desnutrição, anemia e uma extensa ferida na pata dianteira direita, provocada por um ataque de cães.
A lesão expunha o osso e apresentava infecção grave e necrose, quadro que ameaçava a preservação do membro.
Onça-parda chegou ao atendimento sem conseguir ficar em pé
Savana tinha aproximadamente cinco meses de vida quando foi resgatada em uma área de reserva de Paranavaí, no Paraná.
O estado de saúde exigiu atendimento especializado para combater a infecção, tratar os ferimentos e recuperar as condições físicas do animal.
A equipe do Hospital Veterinário da UniFil, em Londrina (PR), conduziu o tratamento por meio do Centro de Apoio à Fauna Silvestre (CAFS). Durante a internação, a filhote recebeu monitoramento veterinário 24 horas por dia, alimentação assistida e curativos frequentes.
Os profissionais também realizaram exames de sangue, ultrassonografia e radiografias para acompanhar a evolução do quadro.
Além de tratar a lesão, a equipe precisava evitar que a gravidade dos ferimentos levasse à amputação. A recuperação permitiu que a onça voltasse a ganhar peso e que a ferida cicatrizasse.
Isolamento ajudou a preservar o comportamento selvagem
A recuperação física representava apenas uma parte do processo. Para voltar à natureza, Savana também precisava manter os comportamentos necessários à vida livre.
Por isso, os profissionais adotaram medidas para reduzir ao mínimo o contato da filhote com seres humanos. O isolamento sanitário e os cuidados durante a internação ajudaram a preservar seus hábitos selvagens.
Após a alta, a equipe transportou a onça para o Parque Estadual Morro do Diabo, no interior paulista. Com aproximadamente sete a oito meses de idade, Savana já podia retornar ao ambiente natural, segundo a avaliação da equipe responsável pela reabilitação.
Cerca de 15 pessoas participaram da operação de recepção e soltura. A equipe escolheu um ponto afastado de propriedades rurais, em uma área de vegetação mais preservada, com disponibilidade de água e alimento.
Durante a abertura da caixa de transporte, os profissionais mantiveram silêncio para diminuir o estresse. Savana demorou alguns instantes para sair, enquanto se habituava ao ambiente, antes de seguir para a mata.
Em caso parecido, uma onça rastreada por colar desde 2019 retornou três vezes ao mesmo ponto da rodovia onde foi resgatada quando era filhote e impressionou os biólogos.
Parque no interior de SP é importante para a conservação da espécie
A escolha do Parque Estadual Morro do Diabo também tem relação com a presença da espécie na região. Localizada no Pontal do Paranapanema, a unidade de conservação abriga áreas importantes para a sobrevivência de mamíferos de grande porte.
Segundo informações divulgadas pela Fundação Florestal, o parque concentrou 20,4% das detecções de onças-pardas em São Paulo. Entre 2024 e 2025, o monitoramento registrou 2.004 ocorrências do felino dentro dos limites da unidade.
O parque também abriga a onça-pintada e o mico-leão-preto, espécie ameaçada de extinção.
A onça-parda (Puma concolor) é o segundo maior felino das Américas e enfrenta ameaças como perda e fragmentação do habitat, atropelamentos, caça ilegal e conflitos com seres humanos.
O caso de Savana também chama a atenção para os riscos que cães soltos podem representar para a fauna silvestre. Além de perseguir e ferir animais nativos, eles podem transmitir doenças infecciosas.
Ao voltar à mata, a jovem onça inicia uma nova etapa longe dos cuidados veterinários. A soltura representa um avanço na reabilitação, embora a sobrevivência na natureza dependa das condições ambientais e da capacidade de adaptação do animal.













