Uma nova pílula anticoncepcional masculina está avançando para as etapas necessárias antes dos primeiros testes em humanos. Desenvolvido por pesquisadores da Weill Cornell Medicine, nos Estados Unidos, o método experimental foi projetado para bloquear temporariamente a movimentação dos espermatozoides e, assim, evitar a gravidez.
A pesquisa recebeu um financiamento de US$ 8,2 milhões, equivalente a aproximadamente R$ 44 milhões, do Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano dos Estados Unidos (NICHD), ligado aos Institutos Nacionais de Saúde (NIH). O recurso será destinado a estudos de toxicidade e segurança necessários para avaliar se o medicamento poderá ser testado em pessoas.
Diferentemente de métodos que exigem uso diário ou levam semanas para produzir efeito, a proposta é que o comprimido seja tomado sob demanda, cerca de 30 minutos antes da relação sexual. Segundo os pesquisadores, a proteção contraceptiva teria duração estimada de seis a oito horas, com recuperação da fertilidade após o fim do efeito.
O medicamento, entretanto, ainda é experimental e não está disponível para uso. Os resultados que fundamentam a abordagem foram obtidos em estudos pré-clínicos, e a eficácia para prevenir a gravidez em humanos ainda precisa ser demonstrada.
Como funciona a nova pílula anticoncepcional masculina?
A estratégia desenvolvida pelos cientistas consiste em bloquear uma enzima chamada adenilil ciclase solúvel, conhecida pela sigla sAC. Ela participa de processos celulares importantes para a movimentação dos espermatozoides.
Ao inibir temporariamente a atividade dessa enzima, o composto experimental reduz a capacidade de os espermatozoides se movimentarem. Sem a mobilidade necessária para alcançar o óvulo, a fecundação pode ser impedida.
Em um estudo pré-clínico publicado em 2023 na revista científica Nature Communications, os pesquisadores demonstraram que o bloqueio da sAC tornou os espermatozoides imóveis e evitou gestações nos modelos utilizados.
A proposta é diferente da de métodos que atuam sobre a produção de espermatozoides ou dependem de alterações hormonais. Em vez de interromper a produção das células reprodutivas, a abordagem busca interferir temporariamente em sua capacidade de movimento.
Apesar dos resultados iniciais, ainda será necessário avaliar se o mecanismo funciona de maneira segura e eficaz em seres humanos.
Quando a pílula masculina será testada em humanos?
O financiamento anunciado pela Weill Cornell Medicine permitirá avançar para as etapas de desenvolvimento necessárias a um estudo clínico de fase 1, controlado por placebo e realizado com homens saudáveis.
Nessa fase, os pesquisadores pretendem avaliar principalmente a segurança do composto, monitorar possíveis efeitos adversos e verificar se a redução da mobilidade dos espermatozoides ocorre de maneira temporária, conforme previsto.
Os participantes receberão o medicamento experimental ou um placebo. Amostras de sêmen serão analisadas para medir a proporção de espermatozoides em movimento e a capacidade de deslocamento dessas células.
Os cientistas também pretendem verificar se a mobilidade dos espermatozoides retorna após o fim da ação do medicamento. Esse acompanhamento será importante para avaliar se o efeito contraceptivo é reversível.
O estudo de fase 1 não será suficiente, por si só, para comprovar que a pílula previne a gravidez com eficácia. Outras etapas de pesquisa serão necessárias para estabelecer a segurança, a eficácia e as condições de uso do possível contraceptivo.
Responsabilidade da contracepção sempre recaiu sob as mulheres
Atualmente, as principais opções contraceptivas masculinas são os preservativos e a vasectomia. Enquanto o preservativo também contribui para a prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), a vasectomia é um procedimento cirúrgico destinado à contracepção.
A disponibilidade limitada de métodos para homens faz com que grande parte da responsabilidade pelo planejamento reprodutivo recaia sobre as mulheres, que podem recorrer a metódos hormonais, que causam efeitos colaterais adversos, dispositivos intrauterinos (DIUs), implantes e outros métodos.
Segundo os pesquisadores da Weill Cornell Medicine, aproximadamente metade das gestações no mundo não é planejada. Nesse cenário, a criação de novas alternativas masculinas poderia ampliar as possibilidades de escolha para indivíduos e casais.
Levantamentos citados pela instituição indicam que cerca de metade dos homens entrevistados nos Estados Unidos e entre 50% e 75% dos homens em pesquisas globais demonstraram interesse em utilizar algum método contraceptivo masculino. Nas pesquisas mencionadas, opções de curta duração e utilizadas sob demanda apareceram entre as mais atraentes.
Os resultados, contudo, não significam que todos os homens adotariam um novo método ou que a pílula experimental atenderia às necessidades de todos os casais.
Quais são as diferenças em relação a outros contraceptivos masculinos?
Outras abordagens de contracepção masculina estão em desenvolvimento, incluindo medicamentos de uso diário, géis de aplicação diária e injeções de ação prolongada.
Alguns desses métodos levam semanas para atingir o efeito contraceptivo esperado e podem demorar outras semanas para que a fertilidade retorne após a interrupção. A proposta da Weill Cornell Medicine é oferecer uma alternativa de ação mais rápida e duração limitada.
Se os estudos futuros confirmarem a segurança e a eficácia do composto, a pílula poderá permitir que o usuário planeje o uso do contraceptivo de acordo com a necessidade, sem depender de uma administração diária.
Por enquanto, porém, não há comprovação clínica de que o medicamento previna gestações em humanos. Também não é possível afirmar quando ele poderá chegar ao mercado, já que isso dependerá dos resultados das etapas de pesquisa e das avaliações regulatórias.
Empresa busca transformar pesquisa em medicamento
Os pesquisadores Jochen Buck, Lonny Levin e Peter Meinke participam do desenvolvimento do composto. Buck e Levin lideram o projeto, enquanto Meinke contribuiu para o aprimoramento dos inibidores da enzima sAC e para a identificação de candidatos com potencial para uso como medicamento.
Para dar continuidade ao desenvolvimento, os cientistas fundaram a empresa Sacyl Pharmaceuticals, que trabalha para transformar as descobertas iniciais em um medicamento que possa receber aprovação da agência reguladora norte-americana, a FDA.
A Weill Cornell Medicine informa que os pesquisadores fundadores possuem participação societária e patentes relacionadas à tecnologia licenciada para a empresa. Esse vínculo é relevante para contextualizar o desenvolvimento e os interesses comerciais associados à pesquisa.
A concessão do novo financiamento representa um avanço no processo de desenvolvimento, mas não significa que o anticoncepcional tenha sido aprovado. A possibilidade de uso dependerá dos resultados dos estudos de segurança e eficácia que ainda precisam ser realizados.







