“Infelizmente, creio ter me acostumado com a insegurança de São Paulo. Sei que, toda vez que saio de casa, estou indo para uma zona de guerra”. Essas são as palavras de Cauê Fernandes, estudante de Direito da USP, ao descrever o medo constante de circular pela capital paulista.
A sensação relatada pelo jovem não é isolada. Segundo pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Instituto Datafolha, divulgada no último domingo (10/5), 96,2% dos brasileiros afirmam ter preocupação com a violência no país.
Em meio ao aumento da sensação de insegurança, uma prática tem se tornado cada vez mais comum entre moradores das grandes cidades: o uso do chamado “celular do ladrão”.
Estratégia para conter danos
O levantamento realizado pelo Datafolha em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que cerca de 29,7% dos brasileiros passaram a andar com dois aparelhos celulares.
A ideia é deixar em casa o celular principal, onde ficam aplicativos bancários, senhas e informações pessoais, utilizando nas ruas apenas um modelo secundário.
De acordo com Cauê, ele teve de adotar esta estratégia depois de vivenciar um assalto em meados de 2022.
“Eu estava voltando para casa quando fui abordado na estação do metrô Carrão (linha vermelha). Eram dois homens e eles colocaram a arma nas minhas costas, pedindo para que eu entregasse meu aparelho”, lembrou.
O estudante conseguiu bloquear suas contas e conter ao máximo os danos, porém, mesmo com sucesso nesta etapa, ele percebeu que era necessário ter um segundo celular que não contivesse informações relevantes para o dia a dia.
Golpes e fraudes digitais
A estratégia virou uma tentativa de reduzir prejuízos em casos de roubo ou furto. Isso porque, segundo os dados, vítimas que têm o celular levado possuem 3,7 vezes mais chances de sofrer golpes financeiros ou fraudes digitais posteriormente.
Para muitos brasileiros, o segundo aparelho deixou de ser apenas um item extra. Em meio ao avanço da criminalidade, ele passou a representar uma forma de proteger dados e contas bancárias e parte da própria rotina, hoje concentrada dentro do celular.
“Basicamente, todas as contas que contêm informações que podem ser usadas contra mim são guardadas no meu celular ‘principal’, é o caso de e-mail, conta bancária e apps de compras”, relata João Calegari, estudante da PUC-SP, que já teve seu smartphone roubado.
De acordo com o jovem, no seu “celular do ladrão”, está apenas Spotify e WhatsApp, para proteção de seus dados importantes.
O que diz as autoridades
Questionada sobre o avanço do fenômeno do “segundo celular” e as estratégias de combate ao crime, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) afirma que o estado atua com um “plano de policiamento inteligente”, baseado no mapeamento técnico das áreas com maior concentração de delitos.
Segundo o coronel PM Carlos Henrique Lucena Folha, coordenador-geral do Centro Integrado de Comando e Controle (CICC), a estratégia tem priorizado o reforço do policiamento em regiões de grande circulação, aumentando a presença ostensiva das equipes nas ruas.
Apesar da sensação de insegurança relatada por estudantes como Cauê e João, a SSP afirma que os indicadores oficiais apontam queda nos crimes.
No primeiro trimestre de 2026, os roubos e furtos de celulares caíram 15,2% em todo o estado e 9,4% na capital, na comparação com o mesmo período de 2025.
De acordo com o coronel, o principal desafio agora é fazer com que essa redução nos números seja percebida pela população no dia a dia.
Cadeia do crime
Outro eixo da estratégia estadual é enfraquecer a cadeia do crime por meio do rastreamento de aparelhos. Segundo a SSP, cerca de 23,5 mil celulares já foram apreendidos, e 34% deles devolvidos aos proprietários.
A pasta também reforça a importância do registro das ocorrências por meio do 190 ou do Disque Denúncia (181). Isso porque, segundo os dados levantados pelo Fórum de Segurança Pública, apenas 6,6% das vítimas registram boletim de ocorrência nos casos relatados.
O que diz a Prefeitura de São Paulo
Procurada pela reportagem, a Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Segurança Urbana (SMSU), informou que a Guarda Civil Metropolitana (GCM) intensificou o patrulhamento ostensivo em pontos considerados estratégicos da capital para tentar reduzir casos de roubos e furtos.
Segundo a gestão municipal, o trabalho é reforçado pelo programa Smart Sampa, que reúne cerca de 50 mil câmeras espalhadas pela cidade, sendo 12 mil apenas na região central. De acordo com a prefeitura, o sistema já auxiliou em mais de 5 mil prisões em flagrante.
A administração também afirma ter retomado a atuação da ROMU (Ronda Ostensiva Municipal), que hoje conta com 300 agentes e 30 viaturas em operações permanentes, como a “Madrugada Segura” e a “Saturação”.
Outro foco citado pela secretaria é o reforço do patrulhamento em grandes corredores viários, principalmente para combater ações conhecidas como “quebra-vidro”, modalidade usada por criminosos para furtar celulares de motoristas e passageiros parados no trânsito.
