Bertrand Russell: ‘Proponho que a jornada de trabalho seja reduzida para quatro horas’; uma reflexão sobre trabalhar menos para viver mais

Para Bertrand Russell, avanços capazes de aumentar a produtividade também deveriam permitir que as pessoas recuperassem parte do próprio tempo

Bertrand Russell questionava a ideia de que trabalhar durante muitas horas deveria ser tratado como sinal de virtude (Foto: Bassano Ltd / Wikimedia Commons)

Bertrand Russell questionava a ideia de que trabalhar durante muitas horas deveria ser tratado como sinal de virtude (Foto: Bassano Ltd / Wikimedia Commons)

Passar praticamente todo o dia trabalhando pode parecer algo normal em uma sociedade que mira a produtividade e jornadas longas. Porém, para o filósofo britânico, Bertrand Russel, havia algo errado nessa lógica.

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Em seu ensaio Elogio ao Ócio, publicado em 1932, o filósofo britânico defendeu uma ideia que ainda soa radical: quatro horas de trabalho por dia poderiam ser suficientes para que uma pessoa contribuísse com a sociedade e garantisse suas necessidades básicas.

Trabalhar para viver

Para Russell, o problema começava quando o trabalho deixava de ser um meio para garantir a vida e passava a ocupar quase toda a própria vida. De forma que o trabalho se torna uma extensão da existência do trabalhador.

O filósofo observava que máquinas e novas técnicas permitiam fabricar cada vez mais produtos com menos esforço humano. Na visão dele, a consequência lógica desse avanço deveria ser simples: se é possível produzir o mesmo em menos tempo, as pessoas também deveriam trabalhar menos.

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Ele usou como exemplo uma fábrica de alfinetes. Se uma invenção permitisse aos trabalhadores produzir em quatro horas aquilo que antes exigia oito, uma sociedade racional poderia simplesmente reduzir o expediente pela metade. 

Em vez disso, argumentava Russell, o sistema tendia a manter alguns trabalhando oito horas e deixar outros sem emprego. Para o filósofo, essa situação revelava uma espécie de culto ao trabalho: estar ocupado era valorizado mesmo quando não existia necessidade prática.

O valor do tempo

A defesa das quatro horas também escondia outra pergunta: o que uma pessoa faria se recuperasse metade do dia?

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Russell não acreditava que todas precisassem transformar esse tempo em novas formas de produtividade. Descansar, divertir-se e simplesmente ter horas disponíveis também faziam parte da proposta.

Ao mesmo tempo, ele imaginava que uma sociedade com mais tempo livre poderia permitir que pessoas lessem, estudassem, pintassem, pesquisassem, participassem de discussões públicas ou desenvolvessem interesses pessoais.

Ócio não é preguiça

Um ponto importante em seu ensaio é que Russell valorizava o ócio, porém, não confunda esse conceito com a preguiça. Para ele, esse tempo livre permitia expressões diferentes da potência humana que poderiam contribuir com a sociedade e com o indíviduo, além do trabalho e dinheiro.

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Sua crítica atingia diretamente uma lógica que considerava respeitável aquilo que gera lucro, enquanto tratava o simples prazer como algo menos importante. 

Em determinado momento do ensaio, Russell resume o problema ao afirmar que a sociedade pensa “demais na produção e de menos no consumo”.

Quase um século depois, a provocação continua fácil de reconhecer: se a tecnologia permite realizar tarefas cada vez mais rapidamente, o ganho precisa necessariamente virar mais produção ou também poderia ser convertido em mais tempo de vida?

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Para Russell, a resposta já estava clara em 1932. Trabalhar menos não significava fazer menos da vida. Poderia significar exatamente o contrário.