Bruce Lee inspirou sua paixão pelo karatê e, quatro décadas depois, mestre de 70 anos conquista um dos graus mais raros da arte, na França

No clube de Seine-et-Marne, o mestre que começou olhando Bruce Lee e passou pelo judô sustenta aulas para alunos de cinco a setenta e um anos e trata a faixa preta rara como continuação do ofício de transmitir.

Mestre de karatê Moncef Abdelwahed, de 70 anos, usando kimono branco em um dojo na França.

Moncef Abdelwahed, mestre de karatê de 70 anos que conquistou o raro 8º dan após quatro décadas dedicadas à arte marcial na França.

O tatame de Cannes-Écluse ainda guarda o cheiro de lona envelhecida e o eco seco dos pés descalços quando Moncef Abdelwahed se curva diante dos examinadores, e o silêncio que se forma naquele instante não é de cerimônia vazia, mas de um corpo que carregou quatro décadas de repetição até chegar ao ponto em que a banca mista de especialistas franceses e japoneses precisa decidir se a coerência da forma ainda sustenta o grau mais raro da escada.

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Aos setenta anos, depois de uma vida inteira entre o treino solitário e a sala de aula lotada de idades misturadas, ele ouve o veredito que poucos karatêcas franceses escutam na vida inteira: o oitavo dan, confirmado no verão e tratado pela própria federação como exceção contada em dezenas, não em centenas, num país onde a disciplina já se espalhou por ginásios de bairro sem nunca perder a exigência técnica herdada do olhar japonês.

O grau fecha um arco biográfico que começou com a admiração adolescente por Bruce Lee nas telas de cinema e se transformou, sem atalho de fama, em ofício diário de ensinar quem tem cinco anos e quem já passou dos setenta, no mesmo chão de Seine-et-Marne onde o karatê nunca foi cartão-postal exótico e sim rotina de subúrbio, estrada, horário noturno e pais esperando na porta do clube.

Ali Moncef montou o Karaté club de Cannes-Écluse, espalhou aulas pelo departamento e reuniu cerca de quarenta alunos que cruzam a porta com regularidade suficiente para transformar o dojo em arquivo vivo de posturas corrigidas, egos contidos e respirações reaprendidas depois do expediente cansativo.

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A faixa etária cobre quase uma vida humana inteira, do primeiro kimono amarrado com ajuda adulta ao corpo que já conhece limite articular e ainda insiste em aprender o kata sem pressa de espetáculo, e para ele o karatê deixou de ser esporte de ranking para virar maneira de estar no mundo, resumida na frase que repete sem teatralidade: é preciso vencer o próprio ego antes de pretender vencer qualquer oponente imaginário.

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Do pôster de Bruce Lee ao judô e ao caminho longo que o karatê exigiu até o exame de junho

A porta de entrada foi a mesma de muita gente daquela geração que viu o cinema transformar socos impossíveis em desejo de corpo disciplinado, e o menino Moncef quis, primeiro, a capacidade física daquilo que as imagens prometiam com excesso de drama e pouca explicação de base.

O judô veio antes, com regras claras, queda controlada e a pedagogia de ceder para não quebrar, oferecendo ao adolescente um mapa de respeito mútuo que ainda hoje ecoa na forma como ele corrige alunos sem humilhar quem erra na frente da turma.

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O karatê chegou depois, pedindo precisão de eixo, respiração coordenada ao golpe e repetição até o gesto parecer simples demais para quem observa de fora e ainda assim permanecer difícil para quem executa com honestidade técnica, e o que começou como fascínio de tela virou estudo formal, reconhecimento de Estado, diploma e status de referente técnico no departamento.

A sala de aula passou a ser o centro da biografia de um modo que o cinema jamais antecipou, porque ensinar, no vocabulário dele, não consiste em demonstrar golpe bonito para plateia passageira, e sim em corrigir base desalinhada, esperar o aluno tropeçar no próprio ego sem transformar o erro em ridículo público, e devolver o mesmo kata mil vezes até a intenção interna mudar de exibição para presença.

Quarenta anos nesse ofício produzem uma autoridade quieta que dispensa grito de mestre de filme e se sustenta em kimono lavado, horário cumprido e a paciência de quem já viu gerações inteiras entrar no dojo com pressa de faixa colorida e sair, anos depois, para a vida adulta carregando apenas a disciplina que sobrou quando a vaidade esfriou.

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Quando o oitavo dan aparece no verão, não chega como troféu de vitrine para redes sociais; chega como carimbo externo sobre um trabalho que já existia na prática cotidiana de Cannes-Écluse e nas aulas espalhadas por Seine-et-Marne, e a raridade do grau importa porque a França conta apenas uma cinquentena de oitavos dans, número que funciona menos como estatística fria e mais como filtro de exames técnicos longos, banca mista e olhar japonês e francês pousado sobre o mesmo corpo envelhecido.

Aos setenta, o candidato não vende explosão de juventude nem velocidade de campeonato recente; vende coerência de trajetória, memória muscular preservada pela repetição honesta, clareza de ensino demonstrável na forma como explica o movimento e a capacidade de sustentar a forma sem atalho de coreografia vazia.

Moncef passou por esse escrutínio em junho e saiu com a consagração que a federação trata como exceção merecida, não como prêmio de consolação por idade, e o arco desde o pôster de Bruce Lee até a banca franco-japonesa desenha uma linha contínua em que cada etapa preparou a seguinte sem pressa de holofote: o cinema acendeu a faísca, o judô organizou a queda e a regra, o karatê pediu duração e precisão, o reconhecimento institucional validou a formação, e o clube de bairro virou a casa onde tudo isso se transmite de corpo a corpo.

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O dojo de Cannes-Écluse e a sala em que cinco anos treinam ao lado de setenta e um sem discurso de marketing

No Karaté club de Cannes-Écluse a cena se repete semana após semana com a regularidade de quem entende que transmissão não é evento, e sim hábito: crianças amarram a faixa com ajuda de adultos pacientes, trabalhadores esticam o ombro rígido depois do expediente antes de entrar na fileira, e um aluno de setenta e um anos ocupa o mesmo chão de tatame que o iniciante de cinco, dividindo o espaço sem hierarquia de idade que exclua quem já não explode em velocidade.

A mistura não nasce de campanha de inclusão desenhada para parecer moderna; nasce como consequência direta da forma como Moncef entende a disciplina quando afirma que ela é arte de viver, e arte de viver, nesse léxico, não expira na idade em que o joelho reclama ou o equilíbrio pede mais tempo de preparação.

Ela se adapta ao ritmo possível, muda a intensidade sem abandonar a exigência de respeito pelo outro e pela própria respiração, e preserva o combate técnico o bastante limpo para convencer examinadores exigentes sem transformar a aula em espetáculo de placar.

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Vencer o ego, frase que ele devolve a quem pergunta o segredo, significa aceitar correção na frente da turma sem drama de orgulho ferido, perder um combate de treino e voltar no dia seguinte com o mesmo kimono e a mesma disposição de recomeçar o movimento básico que parecia dominado na semana anterior, e essa ética atravessa tanto a aula de iniciantes quanto a preparação de quem busca graduação alta na escada de dans.

Seine-et-Marne vira então cenário de uma pedagogia discreta que dispensa templo de montanha, mosteiro de cartão-postal e névoa cinematográfica: há ginásio municipal ou de clube, horário noturno sob lâmpada fria, pais conversando baixo na porta, café rápido depois do treino e o professor que já viu o mesmo erro de base mil vezes e ainda corrige com a calma de quem mede progresso em anos, não em cliques de aprovação.

O oitavo dan, nesse contexto concreto de Cannes-Écluse, funciona menos como medalha para pendurar e mais como autorização ampliada para continuar formando gente, reforçando o referente técnico que ele já era no papel administrativo e, sobretudo, no chão onde a voz precisa ser ouvida sem microfone.

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Cerca de quarenta alunos mantêm a porta girando com frequência suficiente para que o dojo não vire salão vazio de mestre solitário, e a convivência entre o kimono novo da criança e o corpo marcado pelo tempo do aluno mais velho produz uma sala em que a vaidade encontra freio natural, porque ninguém ali treina apenas para parecer forte diante de espelho.

Treinam para sustentar a forma quando o dia já cansou, para lembrar a respiração quando o ego pede atalho, e para entender que a disciplina continua útil depois que os torneios de juventude terminam.

Moncef observa essa fileira mista com a sobriedade de quem já enterrou a pressa de provar superioridade e escolheu permanecer no ofício de transmitir, e o grau raro obtido sob banca franco-japonesa apenas torna pública uma autoridade que a rotina do clube já reconhecia em silêncio.

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A consagração rara na França e o sentido de continuar no chão depois do verão do oitavo dan

Depois do verão em que o grau foi confirmado por especialistas franceses e japoneses, a rotina de Moncef Abdelwahed não se dissolve em celebração longa nem em turnê de entrevistas; ele segue no clube de Cannes-Écluse, segue nas aulas pelo departamento de Seine-et-Marne e segue diante da mesma fileira de alunos que espera correção de base, não discurso inflado sobre glória tardia.

A diferença é simbólica e prática ao mesmo tempo: a voz de quem ensina carrega agora o peso público de um oitavo dan obtido sob escrutínio misto, e em um país onde essa faixa ainda se conta em dezenas, o reconhecimento serve de farol discreto para quem está no meio da escada de dans e para quem chegou tarde ao tatame, sem juventude de campeonato para vender.

A biografia que ele construiu evita o atalho da fama fácil e o atalho da aposentadoria precoce de quem acha que grau alto encerra o trabalho de chão.

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Quarenta anos de prática e ensino produzem um arquivo invisível de corpos formados, de posturas que deixaram de colapsar no primeiro deslocamento, de adolescentes que atravessaram a fase do ego inflamado sem abandonar o dojo e de adultos que reencontraram disciplina depois de anos longe de qualquer esporte organizado.

Quando ele fala em arte de viver, não oferece frase de pôster para parede de academia; oferece método repetível: presença pontual, repetição sem teatro, respeito que sobrevive à derrota de treino, e recusa da vaidade que transforma arte marcial em espetáculo vazio de redes.

O caminho desde o judô adolescente até o exame de junho desenha essa linha sem ruptura: o pôster de Bruce Lee acendeu a faísca inicial, o judô ensinou queda e regra de convivência, o karatê pediu precisão e duração de décadas, o Estado francês reconheceu a formação técnica, o clube de Cannes-Écluse virou casa permanente, e os alunos de cinco a setenta e um anos viraram prova viva de que a transmissão funciona em qualquer idade quando o professor aceita adaptar o ritmo sem rebaixar a exigência de caráter.

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O oitavo dan fecha o círculo da dúvida externa sobre o valor da constância, sem encerrar o ofício que continua na chave do ginásio e no kimono dobrado do mesmo jeito de sempre na saída noturna. Para quem observa de fora, a cena parece simples demais para merecer manchete: um homem de setenta anos que continua dando aula em cidade pequena de Seine-et-Marne.

Para quem entende a escada do karatê francês e a raridade de uma cinquentena de oitavos dans no país inteiro, a cena é outra: um dos poucos detentores desse grau escolheu permanecer no chão onde a disciplina se transmite de corpo a corpo, sem discurso inflado, com a paciência de quem já venceu o ego o bastante para não precisar provar nada além do próximo movimento bem feito na frente de quem ainda aprende.

A reportagem local que registrou o encontro com Moncef Abdelwahed em actu.fr descreve exatamente esse perfil de professor pouco comum, mais interessado em formar gente do que em colecionar holofote de temporada.

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O restante da história se vê no tatame de Cannes-Écluse, na fila mista de idades que não pede permissão para existir, e na frase curta que ele devolve a quem insiste em segredo de mestre: é preciso vencer o próprio ego.

O oitavo dan, nesse léxico sóbrio, não é chegada triunfal com confete e discurso de encerramento; é licença renovada para continuar ensinando a arte de viver que ele escolheu cedo, no tempo dos pôsteres de cinema, e nunca largou quando o corpo pediu mais tempo entre um kata e outro.

Seine-et-Marne guarda assim um referente técnico cuja consagração rara não o tirou do bairro, e Cannes-Écluse permanece o lugar onde a faixa nova convive com a faixa antiga no mesmo respeito de saudação, enquanto o mestre de setenta anos trata o grau franco-japonês como continuação do ofício, não como ponto final de uma biografia que ainda tem aula marcada para a semana seguinte.