Em meio a objetos usados, móveis antigos e peças que já não tinham lugar dentro de casa, uma pintura chamou a atenção de um casal de Ontário, no Canadá. O preço parecia caber facilmente no bolso: cerca de R$ 729.
Eles levaram a paisagem para casa sem imaginar que, seis anos depois, aquela compra seria transformada em uma obra de arte avaliada em milhões de reais.
O quadro era “Lake Okanagan”, de E. J. Hughes, um dos nomes importantes da pintura canadense. Depois de ser identificado como uma obra autêntica do artista, o quadro foi levado a leilão e alcançou aproximadamente R$ 1,47 milhão em 2007.
Tudo começou em uma venda de garagem
A cena dificilmente parecia o começo de uma história sobre uma obra de arte valiosa.
Em 2001, o casal encontrou a pintura em uma venda de garagem rural em Ontário. Entre os objetos colocados à venda, o quadro custava apenas cerca de R$ 729, valor muito distante do que alcançaria anos depois.
Naquele momento, não havia a certeza de que estavam diante de uma obra importante. O que existia era apenas uma paisagem que, por algum motivo, despertou o interesse dos compradores.
O detalhe que mudaria tudo ainda estava escondido na própria história da tela.
O quadro ficou anos sem revelar seu valor
Durante seis anos, a pintura permaneceu longe dos holofotes.
Foi somente depois desse período que ela foi identificada como “Lake Okanagan”, uma obra de E. J. Hughes. A autenticação transformou completamente a percepção sobre aquele objeto comprado em uma simples venda de garagem.
O resultado apareceu no leilão.
A obra foi vendida por C$ 402.500, valor equivalente a aproximadamente R$ 1,47 milhão pela cotação usada nesta matéria. A diferença em relação aos cerca de R$ 729 desembolsados originalmente pelo casal é gigantesca.
Não era apenas uma paisagem
O nome por trás da tela ajudava a explicar a transformação.
Edward John Hughes nasceu em 1913, em North Vancouver, na Colúmbia Britânica. Sua carreira ficou marcada principalmente pelas paisagens canadenses, mas também pela atuação como artista oficial de guerra durante a Segunda Guerra Mundial.
Antes de consolidar sua trajetória artística, Hughes estudou na Vancouver School of Decorative and Applied Art e teve entre seus professores Frederick Varley, integrante do conhecido Grupo dos Sete.
A guerra ajudou a formar seu olhar
A experiência durante a Segunda Guerra Mundial fez parte importante da trajetória do artista.
Depois de se alistar na Royal Canadian Artillery, Hughes foi enviado à Inglaterra. Entre 1943 e 1946, trabalhou como artista oficial de guerra do Canadá, produzindo desenhos e pinturas relacionados ao cotidiano militar.
Mais tarde, a atenção aos detalhes também apareceria nas paisagens da Colúmbia Britânica, que se tornaram uma das marcas de sua produção.
O pintor que preferia o silêncio
A personalidade de Hughes também contrasta com a imagem de artistas que vivem em busca de reconhecimento.
Segundo a cineasta Jenn Strom, que dirigiu um documentário sobre o pintor, Hughes era reservado e tinha dificuldade em promover o próprio trabalho. Ela o descreveu como alguém que precisava de silêncio e tranquilidade para criar.
O próprio Hughes deixou registrada uma frase que ajuda a entender sua relação com a pintura. Em uma produção da CBC de 1961, afirmou que pintar era, para ele, uma forma de adoração.
De R$ 729 a milhões
O caso de “Lake Okanagan” não ficou isolado.
Com o passar dos anos, as obras de Hughes alcançaram valores cada vez maiores no mercado de arte canadense. “Rivers Inlet”, por exemplo, foi vendido por C$ 920 mil em 2005, o equivalente a aproximadamente R$ 3,35 milhões na conversão usada aqui. Já “Fishboats, River Inlet” chegou a cerca de C$ 2 milhões, ou R$ 7,29 milhões.
Em novembro de 2025, outra obra do artista, “Entrance to Howe Sound”, alcançou C$ 4,8 milhões em um leilão. Na conversão atual, isso representa aproximadamente R$ 17,49 milhões.
A diferença entre esses valores e os cerca de R$ 729 pagos originalmente pelo casal torna a história ainda mais curiosa.
O que parecia apenas uma paisagem
Para quem passasse pela venda de garagem naquele dia, o quadro poderia parecer apenas mais uma pintura antiga.
Mas havia algo que os compradores ainda não sabiam: aquela paisagem carregava a assinatura de um artista cuja trajetória atravessava a guerra, a história da arte canadense e décadas de trabalho silencioso.
Seis anos depois da compra, o nome de E. J. Hughes transformaria completamente o significado daquela tela, e faria uma pintura adquirida por cerca de R$ 729 chegar a um leilão valendo aproximadamente R$ 1,47 milhão.





